"A nossa geração foi forçada a sair da UE", dizem os jovens

Protesto de jovens contra o brexit em Londres. Petição para 2.º referendo já chegou aos dois milhões de assinaturas

Catherine ainda não tem idade para votar e é por isso que a decisão dos britânicos de saírem da União Europeia lhe custa mais a acreditar. "Sinto que o meu futuro foi decidido sem que eu tenha tido oportunidade de fazer nada por isso", diz a adolescente de 16 anos, que segura um cartaz onde está escrito "muito obrigado", seguido de um :( e do hashtag #notinmyname (não em meu nome). "É como se tivéssemos fechado as portas nas caras dos nossos filhos", diz a mãe Sarah. As duas estiveram entre as três centenas de pessoas que ontem foram à Praça do Parlamento, em Londres, para dizer "fuck brexit".

No referendo de quinta-feira, 51,9% dos britânicos escolheram a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Mas, uma análise dos números mostra que mais de 72% dos eleitores com idades entre os 18 e os 24 anos optaram pela opção do "Ficar". No outro lado da pirâmide etária, foram os com mais de 65 anos aqueles que escolheram maioritariamente o "Sair" (59%). "A nossa geração foi forçada a deixar a UE e vê o futuro ser-lhe tirado", lamenta Fergus, que só a partir do próximo ano poderá votar.

"É muito triste porque os jovens vão ser os principais afetados por esta decisão e foi a geração mais velha que votou a favor do brexit. A mesma geração que beneficiou de cuidados de saúde grátis, de universidades grátis, que teve facilidades em viajar pela Europa", explica a professora Vanessa Roberts, uma das organizadoras do protesto que nasceu no Facebook. "A geração mais jovem tem estado a sofrer com a austeridade e as crises económicas, nunca teve direito a nada, e agora somos nós que temos que pagar esta decisão tomada por políticos velhos e ricos", acrescenta.

Para muitos dos que ontem estiveram no protesto, a maioria jovens, a solução passa por realizar um segundo referendo. Uma petição no site do Parlamento britânico já tinha ultrapassado os dois milhões de assinaturas, apesar de só serem precisas cem mil para o governo se pronunciar sobre o tema. "Antes do referendo, o Nigel Farage [líder dos independentistas do UKIP e um dos rostos dos brexit] disse que se o resultado fosse 52% para o "Ficar" e 48% para o "Sair" que iria exigir outro referendo. Os números são esses, mas ao contrário. Esperamos que ele mantenha a sua palavra", refere Vanessa.

E não são só os que votaram pelo "Ficar" que querem repetir a votação. "Um dos meus amigos que votou pelo brexit disse-me ontem que tinha ficado chocado pelo voto dele ter contado na realidade. Só queria assustar os políticos", explicou Sarah, ao lado da filha. E haverá muitos como ele, de tal forma que o The Independent já os apelidou de "bregrets", palavra que nasce da junção de brexit com regret (lamentar).

A petição, que causou uma quebra no site do Parlamento na sexta-feira e crescia ao ritmo de cem mil novas assinaturas por hora, defende que o governo deve aprovar "uma nova lei que diga que se o voto para sair ou ficar é inferior a 60% numa participação menor de 75%, então deve haver outro referendo". James é um dos que já assinou, apesar de dizer que achava que os britânicos não deviam ter sido ouvidos neste tema. "Os meus amigos e a minha família todos perguntamos porque é que nos foi dada a escolher a oportunidade de decidir."

E na Praça do Parlamento não é o único a dizer o mesmo. "Com um assunto tão importante, acho que nos deviam ter perguntado antes se queríamos um referendo", conta o músico Robert Szymanek. O tema foi promessa de campanha dos conservadores, que apesar de terem conquistado a maioria absoluta de deputados, só tiveram 36,9% dos votos. "A BBC fez uma sondagem, ontem, e 78% das pessoas disseram que acharam que o referendo não devia ter acontecido, que não devíamos ter tido a oportunidade de responder a esta pergunta", acrescenta.

Uma das consequências diretas do voto dos britânicos foi o anúncio da saída do primeiro-ministro David Cameron. Mas isso só deixa os jovens mais preocupados, face à possibilidade de que possa ser o ex-mayor de Londres, Boris Johnson, o sucessor. "Um pesadelo absoluto, ele nem consegue cuidar do próprio cabelo", brinca Charlotte, com um cartaz que diz "Boris, tu não tens as respostas". "Ele era divertido como mayor de Londres, mas não podia fazer muita coisa, agora ser responsável pelo país inteiro. Sim, é assustador...."

Frente ao Parlamento, um megafone vai passando de mão em mão para quem quer dar a sua opinião. E são muitos os londrinos que se mostram envergonhados por o mundo pensar que o Reino Unido é um país racista. Robert é um deles. "Na minha circunscrição, houve mais de 70% dos eleitores a dizer que queriam ficar na UE, mas o que as pessoas se vão lembrar deste referendo é do cartaz dos refugiados do Farage e concluir que somos racistas", refere.

Em Londres, mais de 65% dos eleitores votaram pelo "Ficar" e há já uma outra petição, com mais de 150 mil assinaturas, a pedir que o mayor da capital, o trabalhista Sadiq Khan, declare a independência da cidade. Os apoiantes desta ideia usam nas redes sociais o hashtag #londonpendence (junção de Londres e independência).

"Se a Escócia teve uma maioria e pode pedir um segundo referendo e se a Irlanda do Norte teve uma maioria, menor, e fala-se também num referendo para reunificar as duas Irlandas, porque é que Londres também não pode sair? Acredito que uma Londres independente não é necessariamente a melhor coisa, é dividir as pessoas em vez de as unir, mas ao mesmo tempo faz sentido", diz Robert.

À medida que as horas passam, Londres enche-se das cores do arco-íris e a parada do orgulho LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transexual) traz música e alegria às ruas. Mas não deixa de haver cartazes com referências ao brexit. Num deles lê-se "Love not Gove", num trocadilho com o nome do conservador Michael Gove, ministro da Justiça e defensor da saída da UE, e a palavra amor. "O Reino Unido, apesar de tudo tem feito um excelente trabalho no que diz respeito aos direitos LGBT, pelo que não será a saída da União Europeia que irá alterar isso", disse Ruth, a autora do cartaz.

Quem esteve presente na parada do orgulho LGBT foi o líder do Labour, Jemery Corbyn. Porém, o efeito da sua presença não foi propriamente aquele que ele esperava. "É tudo culpa tua", gritou-lhe um apoiante dos trabalhistas que participava no evento. Não aceitando as culpas, Corbyn defendeu-se respondendo: "Fiz tudo o que podia".


Enviada a Londres

Exclusivos