A neta negra do comandante nazi d'A Lista de Schindler

Jennifer Teege sempre soube que era adotada mas só aos 38 anos descobriu que o avô biológico era o assassino nazi Amon Göth.

De cigarro pousado na varanda, espingarda na mão, olho na mira, e em tronco nu, Amon Göth dispara contra os prisioneiros do campo de concentração nazi de Plaszow, perto de Cracóvia, na Polónia ocupada pelos alemães. Para quem viu A Lista de Schindler, a imagem, protagonizada por Ralph Fiennes, ficou na memória como exemplo da barbárie nazi. Jennifer Teege também vira o filme de Steven Spielberg em meados dos anos 90. Mas só em 2008 um acaso a levou a descobrir que Amon Göth era o seu avô biológico.

"É apenas um filme. Mas claro que é diferente para mim. As pessoas associam-me ao filme. É muito simbólico", conta agora ao DN, numa passagem por Lisboa uma década passada sobre o dia em que na biblioteca central de Hamburgo deitou a mão ao livro Tenho de Amar o meu Pai, não é?, cujo subtítulo - A história de vida de Monika Göth, filha do comandante do campo de concentração de A Lista de Schindler - lhe chamou a atenção. O nome soou-lhe de imediato familiar: era a sua mãe biológica, que a abandonara ainda bebé e com a qual há muito perdera o contacto.

O choque foi grande para Jennifer, que crescera a saber que era diferente dos dois irmãos - fosse pela cor da pele (escura, como a do pai nigeriano) ou pela altura: tem 1,83m. Esta, descobriu mais tarde, herdou-a de Amon Göth, um colosso de 1,93m.

Seguiram-se meses e anos difíceis, entre depressões, a busca pela mãe, uma ida a Plaszow, para ver o local dos crimes do avô, a descoberta de que a avó, com a qual conviveu em criança, tinha de saber o que Amon fazia, e contar a verdade aos amigos que fizera em Israel.

Em Portugal para promover o seu livro Amon: o meu avô podia ter-me matado, Jennifer admite que com o tempo as coisas se tornaram mais fáceis de digerir. "Passei muito tempo a tentar dar significado às coisas. Mas claro que não desapareceu. Está sempre presente. Faz parte da minha vida", explica. Num quarto do hotel Whatever Art Bed & Breakfast, junto ao Campo Pequeno, a alemã conta como escrever um livro sobre a sua história, mais do que libertador, foi "boa forma de estruturar os pensamentos internos".

Descrevendo-se como "reservada", Jennifer admite que a decisão de passar a sua história para o papel não surgiu "da noite para o dia", mas acabou por perceber que "não é apenas uma história privada. É maior do que isso e tem de ser contada". Destacando os "temas universais" que toca, explica que isso acabou por ditar a estrutura do livro: "Tem vários capítulos e em cada um tem um tema principal: a depressão, o segredo de família, a História, o sentimento de culpa".

Nascida a 29 de junho de 1970, Jennifer tinha quatro semanas quando a mãe a entregou num orfanato católico. Até aos três anos foram as freiras que a criaram. Mas nessa altura apareceram Inge e Gerhard Sieber. Os pais de acolhimento acabaram por se tornar pais adotivos e Jennifer cresceu com os irmãos, Matthias e Manuel, e entre visitas aos avós de Bochum e aos avós de Viena. Em criança ainda foi passar uns dias com a mãe e a avó, Ruth Irene Kalder, mas há 17 anos que não via nenhuma delas quando descobriu o livro com a história da mãe. E de um avô que não hesitava em assassinar a sangue frio os prisioneiros de Plaszow, campo de trabalho e de concentração não muito distante de Auschwitz. Companheiro de copos do Oskar Schindler que dá nome ao filme - se este ficou para a história como o homem que salvou mais de mil judeus que trabalhavam na sua fábrica, Amon Göth tornou-se na personificação do horror do Holocausto.

Com o conhecimento deste parentesco surgiram em Jennifer muitas dúvidas e alguma ira por a mãe e a avó nunca lhe terem contado a história da família. Ao escrever o seu próprio livro a publicitária garante: "Depois de viver escondida durante tanto tempo e de ter de lidar com tanta coisa, poder partilhar com as pessoas... há um sentimento de alívio. Mostramos o nosso verdadeiro ser e não apenas uma versão que consideramos aceitável".

Jennifer decidiu então procurar a mãe e ficou a saber que tinha uma meia-irmã - Charlotte - com quem se chegou a encontrar. Mas voltou a perder o contacto. A publicação do seu livro mudou isso? Recebeu alguma notícia de Monika? "Não", responde, de forma cortante, antes de admitir: "Se algo lhe acontecesse, com certeza iria lê-lo na imprensa".

Se nunca se sentiu muito confortável na presença da mãe, Jennifer não esconde ainda hoje o amor pela avó biológica. Ruth Irene Kalder trabalhou como secretária para Oskar Schindler. Foi assim que conheceu Amon Göth e se apaixonou perdidamente. Para ela, o comandante de Plaszow era "um homem de sonho, tal como Clarke Gable no papel de Reth Butler em E tudo o Vento Levou", confidenciaria anos mais tarde à filha e em entrevistas posteriores à morte de Göth. Este foi enforcado em 1946, após ter sido capturado por tropas americanas na Baviera no final da II Guerra Mundial, tendo sido julgado e condenado à morte por ter ordenado a detenção, tortura e extermínio de inúmeras pessoas, sobretudo judeus.

Em criança, Jennifer gostava de ir a casa da avó. E hoje admite que quando soube as suas origens, se primeiro se focou no avô e na mãe, nos longos meses de terapia acabou por surgir a figura da avó. "O meu avô eu tinha a certeza que era diferente de mim. Não sou sádica, nunca mataria alguém. Mas a minha avó estava mais próxima do meu caráter. Ela não foi condenada no fim da guerra, apesar de eu achar que ela era culpada, mas era uma zona cinzenta. Hoje interrogo-me como teria agido se estivesse no lugar dela, até que ponto sou parecida com ela? A parte mais complicada é não encontrar respostas", sublinha Jennifer, destacando as "boas memórias" que guarda de Ruth Irene Kalder. Memórias que chegou a questionar ter o direito de articular. "No terceiro capítulo tentei partilhar esse conflito com as pessoas. E não é um conflito que esteja resolvido, ainda continua por resolver", admite.

As reações ao seu passado, essas, variaram entre a surpresa, a compreensão e as críticas. Quem a conhecia bem - dos pais e irmãos adotivos até às amigas israelitas Noa e Anat - deu todo o apoio a Jennifer numa fase complicada. Quem não a conhecia tão bem, ficou surpreendido, uma vez que "mesmo pessoas que me conheciam desde a infância não sabiam das circunstâncias da adoção. Eu não tinha falado do que descobri e que nem eu imaginava nos meus sonhos mais loucos. Os outros também não esperavam esta combinação".

A combinação em causa passa por uma série de coincidências e acasos da vida - a filha de um comandante de um campo de concentração nazi tem uma filha com um nigeriano que arrendava quarto em casa da mãe dela, dá-a para a adoção. Esta quando cresce vai viver e estudar para Israel, onde aprende hebraico. E aos 38 anos ficar a saber do seu passado por um livro.

Mas para muita gente, a culpa dos crimes do avô passou para a neta. "Não é que as pessoas me tenham abordado diretamente, mas basta olhar para a internet para encontrar essas vozes. Há muita gente que pensa assim. Todos podem ter a sua opinião. Nem todas deviam ser publicaras. Temos é de perceber que isso existe", afirma Jennifer.

Até porque "se olharmos para o mundo hoje vemos que vai numa direção que me deixa muito assustada. O Holocausto não foi assim há tanto tempo e voltamos a ter partidos de extrema-direita" na Europa. Inclusive da Alemanha, com a AfD a surgir em terceiro lugar nas eleições de setembro passado, com 12,6% dos votos. Sim, diz Jennifer, mas faz questão de lembrar a complexidade do movimento de extrema-direita que se manifesta em países muito diferentes. E dá o exemplo das Filipinas, onde apelida o presidente Rodrigo Duterte de "psicopata". Mas não é o único a aproveitar-se de uma situação de incerteza. "Este líderes prometem soluções fáceis para problemas complexos. Para algumas pessoas isso é muito atrativo. Pode acontecer em qualquer parte", explica. E questionada sobre se a História se pode repetir, Jennifer não hesita: "Absolutamente. Não acho que é possível acontecer, acho que já começou a acontecer". Por isso decidiu usar a sua história para "ensinar algo às pessoas".

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