"Sou coreano e a minha família é católica"

A minha família é católica. Deveria ter sido batizado, mas por este ou por aquele motivo fui sempre adiando. Quando fui designado como Embaixador da República da Coreia em Portugal, um país com forte tradição católica, finalmente marquei uma data e fui batizado com o nome de Justino, um dos Santos celebrados em junho.

Desde que cheguei a Lisboa, em novembro de 2016, nunca falho a missa de Domingo na Igreja perto da minha residência. A missa, que dura uma curta hora, é preenchida por orações e leituras bíblicas e é uma altura em que me sinto verdadeiramente agradecido por todas as minhas bênçãos.

A República da Coreia não é um país católico, mas tem 103 mártires, sendo o quarto país com maior número de mártires. Na Coreia há cerca de três milhões oitocentos e noventa mil católicos e cerca de nove milhões seiscentos e oitenta mil protestantes. Entre os 120 mil turistas coreanos que anualmente visitam Portugal, mais de um terço visita o Santuário de Fátima. No mês passado, entre 16 e 17 de outubro, o Presidente da República da Coreia, Moon Jae-in, foi recebido em audiência pelo Papa Francisco no Vaticano e participou numa Missa pela paz na península coreana. Foi uma visita muito gratificante.

O Presidente Moon foi, durante muito tempo, membro do Conselho de Justiça e Paz e do Conselho dos Direitos Humanos da Igreja Católica da Coreia. Batizado com o nome Timóteo, o Presidente Moon participou na missa na Basílica de São Pedro, na esperança de que todas as orações pela paz na península coreana ecoem pelo mundo. Não posso deixar de vos dar a conhecer parte da mensagem de esperança e agradecimento que o Presidente Moon transmitiu na sua visita ao Vaticano.

"É uma grande honra visitar o Vaticano no 55º aniversário das relações diplomáticas entre a República da Coreia e a Santa Sé. Em nome do povo da República da Coreia e em meu próprio, expresso a minha profunda gratidão pelo constante apoio da Santa Sé à paz na península coreana.

Jesus abandonou o seu lugar no céu para descer à terra, onde conviveu com os pobres, fracos, doentes e excluídos. Para Jesus Cristo todos eram igualmente dignos, independentemente da sua classe, riqueza ou género. A vida de Jesus Cristo é um exemplo de igualdade.

O catolicismo chegou à Coreia com a doutrina de que todos são iguais perante Deus. A sua visão de que o homem foi criado à imagem de Deus e que, por esse motivo, todos são igualmente dignos, despertou a sociedade coreana que, na altura, era feudal. Durante as nossas horas mais sombrias, incluindo o período da ditadura militar, a Igreja era um santuário, um refúgio da democracia.

Nos últimos meses, as orações e bênçãos do Papa Francisco deram alento e esperança ao povo coreano. Tive sempre em mente a mensagem do Papa Francisco, que enfatizava a necessidade de uma "diplomacia de encontros" para a reconciliação e paz, neste caminho nunca antes explorado em direção a uma nova era de paz e prosperidade na península coreana. O resultado dos encontros e do diálogo foi a histórica "Declaração Conjunta de Pyongyang", assinada no passado mês de setembro pelo líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un e por mim próprio.

O meu povo e eu levamos a peito as palavras do Papa Francisco de que a única solução para todos os conflitos é o diálogo. Vamos persistir nesta nossa demanda pela democracia, por uma paz duradoura na península coreana e por um país de inclusão.

Neste momento estão a acontecer mudanças históricas e entusiasmantes na península coreana. O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, e eu estamos a pôr em prática, um a um, os compromissos da Declaração Conjunta de Panmunjom, assinada em abril e da Declaração Conjunta de Pyongyang, assinada em setembro. Começámos a retirar as armas, a fechar os postos de vigilância na Zona Desmilitarizada (DMZ) e a remover as minas terrestres. O Mar do Oeste, onde ocorreram vários conflitos armados, tornou-se uma zona de paz e cooperação. O anúncio do fim da guerra na península coreana e a assinatura de um tratado de paz vão pôr fim ao último resquício da Guerra Fria.

Estou certo de que as nossas orações de hoje vão tornar-se realidade. Nós vamos ultrapassar a divisão e alcançar a paz."

O Presidente Moon Jae-in transmitiu ao Papa Francisco a intenção de Kim Jong-un de o convidar a visitar a Coreia do Norte. Espero que esta visita se realize em breve e que a fé cristã chegue à Coreia do Norte.

Embaixador da Coreia do Sul em Portugal

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