A mesquita onde as mulheres mandam mas os homens são bem-vindos

Na mesquita feminina Qal"bu Maryam (ou Coração de Maria), em Berkeley, os serviços religiosos não são conduzidos por um imã. Em vez disso, várias mulheres leigas conduzem as orações e conversações de forma rotativa.

A segunda mesquita nos Estados Unidos liderada apenas por mulheres foi inaugurada no passado dia 14 de abril na Califórnia, mas, ao contrário de uma congregação que abriu em Los Angeles há dois anos, a nova mesquita de Berkeley, com uma liderança totalmente feminina, está aberta a ambos os géneros.

A mesquita feminina Qal'bu Maryam "é um local para as mulheres orarem no santuário sem terem de se esconder em salas escuras", explica Rabi'a Keeble, fundadora da mesquita de Berkeley, cujo nome significa "Coração de Maria" em árabe.

Muitas mesquitas em todo o mundo admitem homens e mulheres, mas a maior parte segregam os géneros. Na mesquita feminina da América em Los Angeles, os fiéis do sexo masculino com mais de 12 anos são excluídos, fazendo da mesquita de Berkeley única do país.

"Nós elevamos as mulheres, e tal como o Profeta amava as mulheres, temos de seguir os seus passos e amar-nos uns aos outros", afirma Keeble. A fundadora da Qal'bu Maryam tem pouco mais de 40 anos e é uma cristã convertida ao islão, com um mestrado em Liderança Religiosa tirado no Starr King School of Ministry, um seminário ligado à Universidade da Califórnia em Berkeley. Foi esta instituição de ensino que disponibilizou um terreno para a construção desta mesquita.

Na Qal'bu Maryam não há um imã a liderar os serviços religiosos. Em vez disso, várias mulheres leigas conduzem as orações e as discussões de forma rotativa. No momento da inauguração, cerca de 50 mulheres e homens, incluindo muçulmanos mas também cristãos e judeus, participaram na jummah, ou serviço tradicional de sexta-feira, ouvindo Crystal Keshawarz cantar em árabe: Deus É Grande.

O Alcorão não refere diretamente se as mulheres podem liderar as orações, segundo afirmam vários académicos que estudam o islão tradicional. Alguns garantem que o profeta Maomé deu permissão para as mulheres liderarem todas as orações, enquanto outros dizem que ele queria limitá-las a casa. No entanto, muitos tradicionalistas acreditam que um homem não devia ouvir uma voz de mulher durante as orações.

"Os homens estão condicionados para pensar que as vozes das mulheres são sedutoras e por isso se ouvem a sua voz são levados para uma zona adúltera", explica Keeble. "Os homens deviam ter-se em melhor conta. Não são animais".

Mohammad Sarodi, antigo presidente da associação da Comunidade Muçulmana de Santa Clara, na Califórnia, garantiu que não irá assistir a orações lideradas por mulheres. "Se as mulheres liderarem as orações para mulheres, tudo bem. Mas se liderarem as orações para homens isso não é uma coisa com que eu tenha crescido", admitiu Sarodi, de 70 anos. "Nunca ouvi os académicos dizer que isso é aceitável. As mulheres certamente não são inferiores, mas não é assim que as coisas se fazem", explicou.

"Chegou a altura de mudar", afirmou Keeble, tanto para trazer mais mulheres para a fé como para alterar a perceção dos que sentem que o islão é opressivo em relação às mulheres. "Acho que esta é a única forma de mudar essa reputação, dando mais poder às mulheres", garante.

Jornalista da AFP

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