A médica indígena que tem o apoio zapatista para suceder a Peña Nieto

María de Jesús Patricio admite não ter como objetivo chegar ao poder, só chamar a atenção para os problemas das comunidades

Há quase três décadas que María de Jesús Patricio usa os conhecimentos de ervas medicinais que aprendeu com a avó para garantir cuidados de saúde para as pessoas vulneráveis da sua comunidade em Tuxpan, no estado mexicano de Jalisco. Mas para esta indígena da etnia nauatle (nome da língua que também era falada pelos astecas) não é só a sua comunidade mas todo o México que precisa de uma cura. Aos 57 anos, Marichuy, como é conhecida, foi escolhida pelo Conselho Indígena para ser candidata à sucessão de Enrique Peña Nieto nas presidenciais de 2018, contando com o apoio dos ex-guerrilheiros zapatistas.

"Não temos como objetivo chegar ao poder", contou Patricio, mãe de três filhos, numa entrevista com a agência de notícias francesa AFP. "Trata-se de chegar a todas as pessoas que estão no lugar mais baixo da sociedade, ao fazer campanha pelo país, e escutar as pessoas", acrescentou, lembrando que "há anos que as comunidades não são ouvidas nem vistas". Pobreza, destruição dos territórios, falta de acesso à saúde e educação são alguns dos problemas. "Ninguém resolve os nossos problemas. Pelo contrário, as coisas pioram", lamentou.

"O governo não está interessado em apoiar os povos indígenas. Vê--nos como pessoas que atrapalham", disse ao The Guardian. "A classe política só vê a Terra e os nossos recursos naturais como forma de fazer dinheiro, não algo que beneficia a comunidade e tem de ser protegida", acrescentou ao correspondente do jornal britânico que a visitou na Calli Tecolhuacateca Tochan, a pequena clínica de medicina tradicional que fundou em 1992. "É preciso travar o sistema atual capitalista e que as pessoas agarrem verdadeiramente com as mãos as rédeas deste país", indicou à AFP.

Depois de 25 horas de deliberação, os representantes de 58 povos originários escolheram Marichuy como candidata às presidenciais. Caso consiga recolher cerca de 850 mil assinaturas, será a primeira mulher indígena a candidatar-se ao mais alto cargo do país, o que é possível graças à reforma eleitoral de 2014 que abriu caminho à entrada de independentes nesta corrida.

"Há muitas mulheres que lutam, simplesmente não as vemos", contou Patricio, denunciando o racismo da sociedade. "Eles consideram as mulheres como alguém que não tem direito à educação ou a um alto cargo. Com este projeto, vão ver a importância que pode ter uma mulher que dá uma voz a todos." Marichuy estudou até completar o bacharelato, mas acabou por se dedicar à medicina tradicional. Quando tinha 26 anos, a mãe ficou doente e paraplégica, tendo recuperado apenas com os remédios à base de ervas que a filha lhe aplicou.

A candidatura de Patricio, que há duas décadas pertence à Unidade de Apoio às Comunidades Indígenas, na Universidade de Guadalajara, é apoiada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), a ex-guerrilha que em 1994 pegou em armas no estado de Chiapas mas que há anos pôs de lado a luta armada à procura de representação política. Liderados pelo histórico subcomandante Marcos (agora conhecido como subcomandante Galeano), os seus membros são conhecidos por esconder o rosto com passa-montanhas. Os zapatistas controlam pequenas comunidades, onde as decisões são tomadas em assembleia por todos os habitantes.

Marichuy disse ao The Guardian que parte da sua inspiração vem do EZLN, que pôs os direitos indígenas na agenda política com a sua revolta em 1994. "Foi uma ação que beneficiou muitas comunidades indígenas", reconheceu. "A luta deles obrigou muitas pessoas a olhar para trás e a repararem em nós. Vemo-los como os nossos irmãos mais velhos, porque eles transformaram-se num exemplo para todas as outras comunidades que sofreram", indicou.

Desde a independência do México em 1821, e apesar de atualmente mais de 25 milhões de mexicanos se identificarem como indígenas (21,5% da população), só houve um presidente de origem indígena (zapoteca), Benito Juárez, no poder entre 1958 e 1972.

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