A meca do petróleo: da esperança à desolação

Milhares de brasileiros migraram para Itaboraí em busca de um dos cem mil novos empregos. Estão quase todos desempregados

Itaboraí, cidade do estado do Rio de Janeiro, a cerca de 50 quilómetros do Rio de Janeiro, é o reflexo na vida real do maior escândalo político e financeiro conhecido da história do Brasil. Dada como nova meca do petróleo no emergente gigante sul-americano em 2008 pelo então presidente Lula da Silva, a cidade foi fustigada pelo petrolão, o esquema multimilionário de corrupção protagonizado por quadros da maior empresa brasileira, a Petrobras, 16 das principais construtoras do país e uma larga fatia dos mais influentes políticos nacionais, que deu origem à megaoperação policial Lava-Jato.

"Os poços de petróleo estão vazios por dentro", disse à Bloomberg Jefferson Costa, um canalizador que, como outros milhares de brasileiros, decidiu migrar das regiões mais pobres do país, o Norte e o Nordeste, atraído pela construção de um megacomplexo de refinarias em Itaboraí, a Comperj, que iria proporcionar mais de cem mil novos empregos. Hoje desempregado e desesperado para voltar às origens, para onde já regressou a família, Costa é um de muitos rostos da crise.

Porque os números dela andam nas páginas dos jornais brasileiros e internacionais há meses. Segundo a Tendências, consultora com sede em São Paulo, o escândalo do petrolão é responsável por 2% dos 3,8% de retração da economia brasileira. O orçamento da Petrobras para os próximos cinco anos baixou dos 236 mil milhões de dólares previstos em 2012 para menos de cem mil milhões hoje. A empresa vale um sétimo do que valia em 2008. Parte dos investidores que compraram ações durante a choruda oferta pública de venda por 70 mil milhões de dólares processam agora a companhia por falso testemunho, pela estimativa sobrevalorizada de lucros e pela prática continuada de subornos. A Sete Brasil, firma gigante criada para fornecer a Petrobras, declarou falência no mês passado.

A Comperj em particular, concebida para ser um complexo de sete refinarias, resume-se hoje a apenas uma que só deve ficar operacional em 2023 e caso surja um investidor disposto a colocar dois mil milhões de dólares no projeto. E, se em 2004 o custo da Comperj estava estimado em 2,5 mil milhões de dólares, em 2008 já tinha disparado para o triplo e, no fim das contas, acabou por custar 14 mil milhões - no Qatar uma refinaria idêntica foi construída por 1,5 milhões.

Segundo a empresa de engenharia americana Turner, Mason & Co, ouvida pela Bloomberg, a falta de pessoal qualificado eleva em 30% ou 40% o preço das construções na América Latina. Mas são as comissões ilegais, os subornos e os desvios de dinheiro que fazem a conta da Comperj, e de outras obras, disparar.

Só Marcelo Odebrecht, dono da principal construtora brasileira, a Odebrecht, pagou 31 milhões de dólares em subornos a quadros da Petrobras e políticos para conseguir a adjudicação de obras da empresa. Por isso, foi condenado a 19 anos de prisão na Lava-Jato. Além da Odebrecht, mais 15 construtoras faziam parte do cartel. Somam-se ainda dezenas de parlamentares, governadores e ex-políticos brasileiros, afirmam os investigadores. Uns estão presos, outros sob inquérito.

E, enquanto a cada dia a Lava-Jato descobre cada vez mais casos de desvios de dinheiro, o PIB do país afunda-se e a elite política de Brasília assiste em pânico aos desdobramentos da operação policial coordenada pelo juiz Sérgio Moro, que já contribuiu indiretamente para a iminente queda da presidente Dilma Rousseff e diretamente para o afastamento do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha.

Ao mesmo tempo, em Itaboraí, Jefferson Costa e outros desempregados vagueiam por uma cidade repleta de novos bairros residenciais, de torres de escritórios, de megacentros comerciais e de cinemas e teatros sumptuosos que nunca chegaram a ser ocupados.

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