"A marca Ciudadanos está muito forte"

Sociólogo e especialista em análise eleitoral, Narciso Michavila está à espera de um ano intenso na política espanhola. Mesmo com o Partido Popular (PP) a lidar com novos problemas como o recente caso da pós-graduação da presidente da Comunidade de Madrid, Cristina Cifuentes, avisa que tudo pode mudar de um momento para outro. Presidente da consultora GAD3, lembra que há quatro partidos no cenário político (PP, PSOE, Ciudadanos e Podemos) e nenhum deles vai desaparecer. Qualquer um pode tirar proveito dos acontecimentos políticos que mudam a grande velocidade.

O PP volta a atravessar uma crise de popularidade com a duvidosa pós-graduação de Cristina Cifuentes. Como pode afetar o partido?

Numa crise de grande dimensão, pode acontecer muita coisa, entram em jogo distintos atores que tomam uma decisão ou outra. Podemos ver uma moção de censura a Cifuentes e o Ciudadanos apoiar o socialista Angel Gabilondo. E depois, as pessoas podem gostar dele ou não concordar com as políticas que ele defende e acabarem por dar o seu futuro apoio ao PP. Nas guerras sabemos como começa e nunca como acaba.

Mas o problema catalão também deixou sequelas aos populares...

Sem dúvida que o PP estava melhor antes do referendo catalão de 1 de outubro. O PP pagou o preço por não fazer nada antes e querer fazer depois. Mas o desgaste principal do PP é a corrupção. A parte empresarial está a correr bem e conseguem fazer outras coisas e resistir perante novos problemas. O principal desgaste está no voto jovem e nos temas de regeneração democrática. O PP não deu prioridade à luta contra a corrupção e já sofreu consequências porque perdeu metade dos votos.

Falta menos de um ano para as eleições na Andaluzia. Estas podem ter muito impacto para o PP?

Rajoy ganhou e arrasou em 2011 nas eleições generais e quatro meses depois o candidato popular Javier Arenas ganhou, sem maioria absoluta como diziam as sondagens. Nesse período o clima mudou totalmente. Agora parece que vai ganhar o PSOE, o Ciudadanos sobe e os outros baixam. Mas volto a lembrar que se o Ciudadanos apoiar um governo regional dos socialistas, muitos dos seus votos podem acabar nos populares. O PP pode ficar acima do previsto e o Ciudadanos abaixo.

Será um ano intenso...

Muito. Até Puigdemont ser capturado na Alemanha parecia que a Catalunha perdia força e voltavam a estar na agenda os temas sociais que permitem aos eleitores de esquerdas regressar às suas origens. Puigdemont é capturado e o Ciudadanos beneficia.

O que pode acontecer em 2019 com as eleições autárquicas e europeias?

Vamos continuar com muitas mudanças. É evidente que o PP vai ter um desgaste e o Ciudadanos uma forte subida mas não só por causa do PP. Os mais jovens não votam de acordo com a divisão esquerda-direita. Pode ter votado no Podemos e agora votar Ciudadanos. O partido de Pablo Iglesias chegou a ter cinco milhões de votos e não existem tantos milhões de eleitores à esquerda do PSOE. Mas quatro anos depois, com mais dois milhões de pessoas empregadas, o espírito é outro. E há um grupo que não está à procura da revolução mas sim da reforma. A fuga maior de votos não é do Podemos para o Ciudadanos e não do PP para o Ciudadanos. Do Podemos para o PSOE e do PSOE para o Ciudadanos. Por isso os socialistas conseguem resistir.

O Ciudadanos está realmente forte...

Muito mais do que em 2015. Para este partido é muito importante o tema catalão. Subiu com as eleições da Catalunha em 2015. Antes do verão estava com os números de 2016 e quando começa o debate da Catalunha, com uma boa candidata, dispara. Na GAD3 vemos a marca Ciudadanos muito forte. Apoia a governabilidade mas não assume o desgaste. Para o ano o Ciudadanos deve abandonar a adolescência e assumir o governo de câmaras. Então não será tão fácil exigir aos outros.

O panorama político mudou muito em Espanha nos últimos anos. Ainda vai mudar mais?

O que está a acontecer em Espanha acontece em todas as democracias. Passamos de um modelo de estabilidade para um modelo de volatilidade. Acredito que não chegaram dois novos partidos para substituir os que já existiam. Estão para ficar com um espaço deixado pelos outros. E há espaço para todos, nenhum deles vai desaparecer.

Madrid

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