A Joana d'Arc japonesa que aspira suceder a Shinzo Abe

Estudou na universidade que já deu sete primeiros-ministros ao Japão

O primeiro-ministro Shinzo Abe chama-lhe a "Joana d'Arc do Partido Liberal Democrata" (PLD) devido ao caráter impulsivo e ousado de Tomomi Inada, ex-ministra e atual responsável por um dos mais relevantes órgãos de análise e formulação de orientações do partido no poder no Japão, o Conselho de Investigação Política (CIP).

Licenciada em Direito pela Universidade de Waseda, uma das mais prestigiadas do Japão e que já deu sete primeiros-ministros ao país, Inada, de 56 anos, é considerada próxima do chefe do governo e apontada como possível sucessora de Abe. As suas credenciais conservadoras, o percurso e o alinhamento com a linha nacionalista do primeiro-ministro fazem dela uma continuadora natural da atual estratégia do partido no poder.

O epíteto de Joana d'Arc resulta da firmeza e coragem com que defende as suas ideias e não hesita em pôr em causa políticas tradicionais do partido e a assunção de responsabilidade do Japão no eclodir e consequências da II Guerra Mundial na Ásia. Posições que defende com a convicção própria da advogada que foi antes de, em 2005, enveredar por uma carreira política.

A natureza determinada da personalidade de Inada revela-se no facto de não hesitar sequer em enfrentar o próprio Abe em questões de política de governo, em que ela advoga cortes na despesa pública, reduções de subsídios e do investimento público. Em maio, durante uma visita à Alemanha, elogiou as reformas realizadas nas áreas das leis do Trabalho e da Segurança Social pelo ex-chanceler Gerhard Schroder, um social-democrata, que as concretizou apesar da oposição dos sindicatos, uma das bases de apoio do SPD alemão. Outro tanto advogara Inada em finais de 2014, quando se debateu o aumento de impostos em lugar de reduzir a despesa no setor da Segurança Social. A diretora do CIP afirmou então: "A Segurança Social não pode ser vista como algo sagrado, uma área onde não há que fazer revisão de custos".

Coerente com a estratégia de contenção da despesa, Inada encarregou um colaborador do antigo primeiro-ministro Junichiro Koizumi de elaborar um plano para a redução de gastos no setor público. O resultado foi um plano a cinco anos prevendo a poupança de 14 biliões de ienes - a dívida pública do Japão é de quase 37 biliões de ienes e o Orçamento para 2015 prevê um total de 96,3 biliões de ienes em despesa pública - o valor mais elevado na história do país. Um texto de 18 de janeiro na revista Forbes indicava que o total da dívida pública corresponde a 245% do PIB japonês. Todavia, nesse texto, da autoria de Masazumi Wakatabe, professor de Economia nas universidades de Waseda e Columbia, era explicado que, tendo em consideração certos indicadores, o valor real da dívida reduz-se a 41% do PIB.

Análise económica à parte e o facto de o plano proposto por Inada, que integrou o governo de Shinzo Abe entre 2012 e 2014, não ter sido adotado, a sua posição sobre a despesa pública exemplifica uma determinação que se estende a outros aspetos. A diretora do CIP integra a ala direita do PLD, sendo visita regular do santuário de Yasukuni, que honra os mortos em combate japoneses e onde estão também sepultados 14 oficiais condenados por crimes de guerra pelos Aliados em 1945. Ao contrário de Abe, não se coibiu de visitar o santuário a 15 de agosto, data em que se cumpriu o 70.º aniversário da rendição japonesa. Na ocasião, aconselhou o primeiro-ministro a não pedir desculpa nem expressar remorsos pelas ações japonesas durante a guerra. Abe não seguiu os conselhos de Inada, mas no discurso que proferiu disse o suficiente para irritar a China e a Coreia do Sul. Segundo Abe, as gerações futuras não devem estar "predestinadas" a pedir desculpa por uma guerra "com a qual nada tiveram a ver".

Inada advoga a revisão da Constituição, cuja elaboração foi orientada pelos Estados Unidos, o fim da política pacifista consagrada no documento, a restauração do estatuto especial do imperador e defende a revisão da interpretação histórica dada a acontecimentos militares envolvendo o Japão na Ásia, entre 1931 e 1945. Tal como Abe, Inada integra a influente associação Nippon Kaigi que tem como finalidade a prossecução destes objetivos.

A questão da sucessão do atual primeiro-ministro começou a colocar-se nos últimos meses, com a queda de popularidade do governo desde o verão, precisamente após ter feito aprovar nas duas câmaras do Parlamento legislação em matéria de defesa e segurança nacional que, para os críticos, viola os princípios pacifistas consagrados na Constituição.

Desde agosto que a taxa de popularidade do governo de Abe está abaixo dos 50% e se a questão da sua substituição não se coloca em termos imediatos, a persistir a tendência para o declínio dos níveis de aprovação do primeiro-ministro e líder do PLD, a mudança estará na ordem do dia. E aí Inada tem condições para ser uma forte candidata.

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