A interminável marcha das assinaturas para derrubar Maduro

Oposição acusa a comissão nacional de eleições de inventar obstáculos para travar o referendo de destituição do presidente

É fazer as contas. O próximo passo da primeira fase para convocar o referendo de destituição do presidente Nicolás Maduro implicará validar 1,3 milhões de assinaturas em apenas cinco dias.

Entre 20 e 24 de junho, os venezuelanos que assinaram a petição e cujas assinaturas foram validadas terão que deslocar-se a um de 24 centros governamentais - um por cada estado - para legitimar o nome e verificar impressões digitais.

Numa média aritmética simples - obviamente haverá locais muito mais concorridos do que outros -, cada centro terá de validar 10 800 assinaturas por dia, o que dá 450 por hora, ou 7,5 por minuto - isto se os centros estivessem abertos 24 sobre 24 horas. Acresce o facto de que neste momento - por decreto do governo para poupar recursos e energia num país à beira do colapso - os serviços públicos funcionam apenas dois dias por semana e num horário reduzido. Talvez seja melhor nem sequer fazer as contas.

"A comissão nacional de eleições está a inventar todos os obstáculos e mais alguns. Mas, apesar de haver apenas um centro por estado, não vão conseguir travar-nos", afirmou na sexta-feira, em conferência de imprensa, Henrique Capriles, o candidato que em 2013 perdeu as eleições contra Maduro e que continua como um dos principais rostos da oposição e da luta pelo referendo.

A burocracia não fica por aqui. De acordo com um exemplo citado pela Bloomberg, um eleitor que viva em Guasdualito - zona rural a sudoeste de Caracas, quase na fronteira com a Colômbia - terá pela frente cinco horas de viagem, até à capital estadual, Apure, para validar a assinatura, quando poderia fazê-lo num centro mais próximo de casa.

E esta é apenas a primeira fase do longo caminho. Se tudo correr bem, e se a comissão nacional de eleições der luz verde para a etapa seguinte, uma nova petição terá de ser assinada por 20% do eleitorado, o que perfaz cerca de 4 milhões de cidadãos, seguindo-se um novo processo de validação.

Só nessa altura o referendo poderá ser convocado. E para que ele tenha sucesso, a soma de votos a favor da destituição de Maduro terá de ser igual ou superior a 7587579, o número de eleitores que o elegeu como presidente em 2013. Só mais um detalhe constitucional: tudo tem de estar concluído até 10 de janeiro. Se o referendo se realizar depois dessa data já não será possível convocar novas eleições e Maduro será substituído pelo vicepresidente Aristóbulo Istúriz, que continuará do cargo até ao fim do mandato, em 2019.

Num momento em que a tensão social cresce cada vez mais, com manifestações e confrontos entre opositores e fiéis ao regime, a presidente da comissão nacional de eleições já fez saber que a violência poderá atrasar ainda mais o curso dos acontecimentos. "Quero dizer muito enfaticamente que qualquer agressão ou alteração da ordem levará à suspensão imediata do processo até que a tranquilidade seja restabelecida", sublinhou Tibisay Lucena numa conferência de imprensa em Caracas.

País à beira do caos

Nicolás Maduro, que culpa a "guerra económica" montada pelos seus críticos em conluio com os Estados Unidos pelo estado do país, classifica todo o processo como uma tentativa fraudulenta de golpe de Estado, argumentando que grande parte das assinaturas da petição pertencem a crianças ou a cidadãos já falecidos. Numa primeira fase a comissão nacional de eleições deu como inválidas por estes e outros motivos cerca de 600 mil nomes.

"Acabou-se o tempo para a política mesquinha", foi o aviso de Erika Guevara-Rosas, diretora da Amnistia Internacional para o continente americano, durante uma visita a Caracas. "As políticas obstinadas estão a afetar gravemente a vida de milhões e a situação pode converter-se num pesadelo inimaginável e numa crise catastrófica", advertiu a responsável da organização.

Com uma das maiores taxas de inflação do mundo, na ordem dos 150%, o país está à beira do colapso, Segundo dados revelados por Guevara-Rosas, um quilo de massa no mercado negro pode chegar aos 3,5 dólares (3 euros), isto quando o salário médio local oscila entre os 30 e os 60 dólares (26 a 53 euros).

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