historiador

"A independência romena não foi um presente dado pelos russos"

Entrevista a Ernest Oberländer Târnoveanu, diretor do Museu Nacional de História da Roménia, que fala da singularidade latina do seu país, analisando desde a conquista por Trajano até à pertença à NATO. Esteve em Portugal para inaugurar exposição sobre os principados romenos, no Mosteiro da Batalha.

Quando estamos a falar dos principados da Valáquia, da Transilvânia e da Moldávia, dos quais alguns tesouros podem ser vistos agora numa exposição no Mosteiro da Batalha, estamos a falar historicamente do conjunto das terras habitadas por romenos?

O povo romeno, tal como outros povos europeus, viveu dividido durante a Idade Média em vários principados. E o primeiro principado romeno a autonomizar-se foi a Valáquia, que está localizado na parte sul do país, entre os Cárpatos e o Danúbio. Tornou-se autónomo e depois independente durante o início do século XIV. A seguir foi a vez do principado da Moldávia, na parte oriental do país. A Moldávia histórica era bem maior do que a atual, porque no início do século XIX tivemos um acontecimento catastrófico, a ocupação pela Rússia da parte mais a leste da Moldávia. E hoje essa parte é a denominada República Moldova. Quanto à parte central e oriental do país, a Transilvânia, foi conquistada pelos reis húngaros desde o século XI apesar de ser habitada por uma maioria de romenos. Esses reis colonizaram a Transilvânia como puderam, com húngaros e também com alemães, os chamados saxões. Apesar desta divisão, desde pelo menos o século XIV os romenos tornaram-se conscientes de que faziam parte do mesmo povo, usando a mesma língua e partilhando uma história comum. Este sentimento de pertencer ao mesmo povo tornou-se muito forte nos séculos XVI e XVII quando grande número de intelectuais, primeiro os historiadores, escreveram na língua romena textos sobre a história local. Também no século XVI a impressão dos primeiros livros em romeno foi muito importante, porque essa língua usada nesses livros foi a base a partir da qual se construiu a rica tradição literária romena. No século XVIII tivemos os primeiros projetos políticos para a moderna nação romena e no final desse século os romenos na Transilvânia propuseram à corte imperial em Viena que fossem garantidos direitos políticos à comunidade pois era a mais antiga população do país, descendentes dos romanos e até usando o nome destes como designação étnica. Esta ideia foi seguida nos outros principados, tanto na Valáquia como na Moldávia, e em 1848, durante a grande revolução liberal europeia, a nação romena expressou pela primeira vez muito claramente o desejo de ser reunificada num único Estado, o que foi concretizado pela mesma geração, pois em 1859 a Valáquia e a Moldávia uniram-se e nasceu o moderno Estado romeno. Desde 1862 esse Estado passou a usar o nome contemporâneo de Roménia.

Olhemos para a questão da língua romena, que em termos de Europa Central e de Leste é completamente diferente de todas as outras, sejam as eslavas, o húngaro, o alemão ou o turco. É um legado da presença do Império Romano. Como explica a sobrevivência desta língua latina nestas terras romenas, mais de mil anos depois da queda de Roma?

Explica-se a sobrevivência de uma língua baseada no latim porque os habitantes da Dácia eram muito numerosos, uma população muito numerosa.

Mesmo antes dos tempos romanos, antes da conquista da Dácia pelos exércitos do imperador Trajano?

Sim, mesmo antes. Era uma população numerosa e combatente, tal como os lusitanos no território que é hoje Portugal. A Roménia tinha um forte sentimento de identidade e quando os romanos chegaram a língua latina começou depressa a ser utilizada e a população passou chamar-se a si própria romanos.

Foram derrotados por Trajano, esses antigos dácios depressa quiseram ser romanos, é isso?

Sim, quiseram falar a língua e fazer parte do Império Romano. Depois do século IV a maior parte da população já falava latim, incluindo nas aldeias. E como se sabe é difícil deslocar os camponeses, porque os camponeses são muito agarrados às suas terras. Então, esta característica rural da população da Dácia depois da conquista romana foi a base em que se construiu longa estabilidade da língua e da identidade étnica.

Ou seja, mesmo se as grandes cidades, ao longo dos séculos, podiam falar húngaro ou alemão, as aldeias em redor mantinham-se falantes do romeno?

Sim. Outro elemento de identidade foi o cristianismo. Os romanos que viviam na Roménia tornaram-se muito rapidamente cristãos e a maioria das populações migrantes para a região eram pagãs. Assim, essa ligação ao cristianismo também foi um dos laços que uniu a população à língua. Claro, a geografia do território também desempenhou o seu papel muito importante. Durante a Antiguidade e a Idade Média a Roménia estava coberta por uma floresta densa, ainda por cima em montanhas, e assim a população tinha sempre onde se refugiar dos invasores estrangeiros. Escondiam-se nas montanhas ou nas zonas altas, onde as vagas migratórias não tinham grande interesse em ir.

É essa a razão, por exemplo, porque os otomanos nunca integraram completamente a Roménia no Império?

Sim, é uma das razões. É quase impossível conquistar estas terras. Os otomanos, tal como outros povos invasores, só queriam saber de cidades, locais onde houvesse riqueza para saquear. O seu sistema económico e político era baseado no controlo de cidades. Ora, no território romeno havia poucas cidades, a maior parte delas parecendo mais aldeias grandes e as estradas também, felizmente [risos], eram muito más. Assim, poucas cidades, más estradas, floresta densa, montanhas e zonas pantanosas eram tudo elementos que desincentivaram a ocupação estrangeira durante muito tempo. No século XV, por exemplo, quando os otomanos tentaram conquistar a Europa central, olharam para Buda e Viena, não muito para a parte mais oriental, para o nosso território. Não éramos objetivo estratégico dos otomanos, nem sequer ficávamos estrategicamente no caminho. Claro que para outras potências, como a Hungria ou a Polónia, o território romeno sempre foi muito interessante, porque controlávamos quase metade do curso do Danúbio, rio que era a principal rota comercial da Europa na época. E os rios tributários do Danúbio, em território romeno, abria a rota para o Báltico e para a Europa central. Por isso húngaros e polacos sempre quiseram controlar os principados romenos, mas enfrentaram os mesmos problemas que os otomanos. É difícil conquistar e ainda mais controlar um território coberto de floresta densa, com uma população muito móvel, e onde é difícil encontrar recursos para os grandes exércitos.

Fala historicamente dos romenos como um povo de camponeses, mas quando olhamos para a Roménia nos últimos dois séculos, sobretudo na passagem do século XIX para o XX, deparamos com uma nação de escritores, de cientistas. Como explica essa quase repentina sofisticação?

A modernização da sociedade romena foi um processo demorado. Começou nos séculos XVI e XVII e tornou-se muito importante no século XVIII, quando toda a sociedade europeia estava a mudar baseada nas ideias do Iluminismo e também graças à Revolução Industrial. A comunicação entre diferentes partes da Europa tornou-se mais habitual e mais completa e assim as novas ideias espalharam-se por todo o continente. Através de livros franceses, italianos e gregos, os nobres romenos e depois a burguesia entraram em contato com a cultura ocidental e esta tornou-se um modelo. Claro, que essa atração pelo ocidente teve também uma razão muito política. A Rússia estava a tornar-se cada vez mais agressiva e o perigo russo foi um elemento que uniu as elites em torno da ideia de independência e que essa independência tinha de ser seguida por reformas sociais. Assim, os primeiros reformadores da sociedade romena foram nobres que tinham estudado em França, na Itália, mais tarde na Alemanha e na Áustria, e que trouxeram o modelo de sociedade ocidental como o único aceitável para a Roménia moderna.

Falou do perigo russo para a emergência da moderna Roménia, também da perda de uma parte da Moldávia para os russos. E também é conhecida a submissão da Roménia ao bloco comunista pró-Moscovo no pós-Segunda Guerra Mundial. No entanto, no século XIX, por causa da rivalidade com o Império Otomano, a Rússia também ajudou ao processo de independência da Roménia. Como é que hoje, sendo a Roménia um país da União Europeia e da NATO, é vista essa relação complicada com os russos?

A relação com a Rússia é claramente um dos mais complexos aspetos da nossa história moderna e contemporânea. Por um lado, os romenos são na sua maioria cristãos ortodoxos, pertencem ao ramo oriental da cristandade tal como os russos, mas no século XVIII, como já referi, deu-se uma forte laicização das elites políticas. Havia nobres que tinham ideias muito liberais e que achavam que a religião não era tão importante com a identidade nacional e a criação de um Estado que fosse a garantia da sobrevivência da nação. E quanto à dita ajuda contra os otomanos não se deveu a qualquer generosidade dos russos. Na realidade, foi uma relação muito envenenada, porque em 1877 a Roménia fez um tratado com a Rússia e nele a Rússia comprometia-se a não interferir na situação interna dos principados romenos e a respeitar a integridade territorial da Roménia. E também se comprometiam a pagar tudo o que levassem da Roménia. A Rússia decidiu cruzar o Danúbio e atacar os otomanos, mas tiveram uma surpresa muito desagradável no campo de batalha, pois ao contrário do que pensavam o exército otomano não era o exército de um Estado em decadência, mas sim um exército moderno equipado por britânicos e alemães e bem equipado. Os russos foram travados e pediram a intervenção do exército romeno em seu auxílio. E assim o exército romeno entrou na guerra com os otomanos e desempenhou um papel importante na sua derrota. As principais batalhas dessa guerra foram ganhas pelo exército romeno. E o comandante em chefe otomano rendeu-se ao príncipe Karl de Hohenzollern-Sigmaringen, o nosso rei Carol I. Porém, o exército russo tirou partido da intervenção romena e depois de derrotar a resistência otomana no norte da Bulgária, tentou avançar rapidamente para sul, em direção a Constantinopla. Mas acabaram por assinar a Paz de San Stefano, na qual os interesses romenos não foram tidos em consideração e uma vez mais tentaram ocupar a Roménia. Por essa razão dizemos sempre que a nossa independência não foi um presente dado pelos russos. Foi paga com a vida de milhares de soldados romenos caídos no campo de batalha e com grandes custos económicos para a Roménia.

Esta memória dos russos explica porque Nicolae Ceausescu, mesmo fazendo a Roménia parte do Pacto de Varsóvia, sempre fez questão de mostrar certa independência em relação à União Soviética? O seu nacionalismo era genuíno?

Sim, muito provavelmente. Ceausescu era um comunista de linha dura, mas considerava que só o partido comunista romeno podia tomar decisões em relação à Roménia. Não aceitava a interferência do partido comunista da União Soviética nos assuntos internos. E pelo menos nos primeiros anos Ceausescu tentou modernizar a sociedade romena. Sofremos muito depois da Segunda Guerra Mundial, na qual perdemos centenas de milhar de soldados. Perdemos também território. E pagámos um preço muito alto economicamente. A ocupação soviética foi o equivalente ao saque do país. Todos os recursos económicos do país foram levados para a União Soviética e em 1964, 1965, depois de pagar as indemnizações de guerra e de conseguirmos ver o exército soviético fora da Roménia, o país tentou abrir um novo capítulo nas relações com a Europa Ocidental e com os Estados Unidos, porque estávamos interessados na modernização económica.

Ceausescu chegou a ser um líder popular?

Ceausescu era muito hábil a lidar com os sentimentos da população. A sociedade romena estava muito perturbada pelas mudanças impostas pelos soviéticos no seu modo de vida. Os soviéticos obrigaram-nos a cortar as relações com o Ocidente, que durante 200 anos foi o grande parceiro da Roménia. A língua francesa era a língua cultural mais importante na Roménia. Do ponto de vista técnico, tínhamos relações muito próximas com a Alemanha. E depois de 1945 tudo mudou e fomos forçados a aceitar a Rússia como modelo. O que estava errado. Nunca foi aceite pelo povo, até porque a Rússia não era modelo para ninguém. Só queriam levar as riquezas da Roménia. Criaram uma espécie de joint-ventures e as principais produções do país - petróleo, madeira, colheitas, comércio, transporte aéreo. Tudo que podia gerar alguma riqueza era gerido por eles. Foi uma pilhagem em larga escala, maior ainda que as pilhagens turcas e mongóis juntas. Nos anos 60 a União Soviética começou a impor uma divisão no mundo comunista. Roménia, Hungria e Bulgária foram convertidas em nações agrícolas, e a União Soviética, a Checoslováquia e a Alemanha Oriental ficavam como fornecedoras industriais do mundo comunista. Isto não era aceitável na época. Talvez hoje tenhamos uma visão diferente, porque a agricultura é importante, porque no futuro quem tiver comida será o senhor do mundo. Mas nos anos 60 a ideia prevalecente é que só a industrialização servia de base para uma sociedade moderna e de bem-estar. Ceausescu tentou obter tecnologia do Ocidente, a mais moderna, e assim ficar cada vez mais independente da União Soviética. Foi uma rejeição do modelo soviético e recebeu o apoio da maior parte da população romena.

E a Roménia era suficientemente forte para resistir à pressão soviética?

Sim, porque já não tínhamos ocupação militar soviética no nosso território. Desde 1958. E tentámos estabelecer cooperação militar com a Jugoslávia, que estava também a opor-se à hegemonia soviética, e com a China. Procuramos usar a China, em disputa com a União Soviética pela liderança do mundo comunista, como contrapeso. Mas no final, a política adoptada por Ceausescu acabou por não ser nada bem sucedida. Ele queria produzir tudo na própria Roménia, o que não era possível. Não é possível um só país, mesmo que seja de grande tamanho, produzir em condições tudo, desde comida a sapatos, desde aviões a tratores. A Roménia não conseguia. Tinha muito boa indústria química, também boa indústria agro-alimentar, mas faltava-lhe matérias-primas e energia e assim tinha que importar cada vez mais petróleo e outros bens do exterior, de muito longe até. Por exemplo, importávamos ferro da Austrália e do Brasil, carvão dos Estados Unidos, petróleo do Irão e do Iraque. E aquilo que a nossa indústria produzia não conseguia cobrir os custos das importações, e a economia desequilibrou-se. A Roménia tornou-se um país muito endividado, com muitos empréstimos pedidos no final dos anos 70 e início do 80. E a taxas de juro elevadas. A meio dos anos 80 a Roménia estava à beira da bancarrota. Ceausescu, que estava a ficar velho e cada vez mais convencido de que era um génio, decidiu que a Roménia tinha de pagar o mais depressa possível toda a dívida. O resultado foi a queda dramática das condições de vida e até a fome. A comida passou a ser racionada como nos tempos da guerra. O pão, o leite, a manteiga, o queijo, o açúcar, a carne, tudo era dado em rações.

A queda de Ceausescu tornou-se inevitável, independentemente da Perestroika promovida na União Soviética pós-1985 e que afetava o Bloco Comunista?

Era inevitável, não só a queda de Ceausescu como a queda do sistema comunista. Na Roménia, esse era um sistema baseado na autarcia, numa sociedade fechada, e o mundo estava a mudar. Todas as indústrias tradicionais, como as siderurgias, estavam a declinar em todo o lado. A economia global cada vez se baseava em serviços, em alta tecnologia, era o primeiro despontar dos computadores, e, no entanto, a sociedade romena comportava-se como se vivesse no período entre as duas guerras mundiais, construindo grandes fábricas para produzir aço, sem recursos e sem mercados. Foi um completo fracasso do sistema e a sociedade teve de avançar com a decisão de mudar.

Passados 30 anos da morte de Ceausescu e do fim do comunismo, a Roménia faz parte da NATO e acaba de cumprir com grande sucesso a sua primeira presidência semestral da União Europeia. É forte o sentimento europeísta no seu pais hoje?

A vocação ocidental sim, e o europeísmo é mais forte do que em muitos outros países. Infelizmente, nos últimos anos, em várias forças políticas, emergiu algum antieuropeísmo. Mesmo em setores da vida política em que nunca se imaginaria tal. O partido social-democrata, liderado por Liviu Dragnea e que está no poder no governo, começou a difundir a ideia de que a União Europeia usa a Roménia apenas como mercado para os produtos dos países fortes e como fonte de mão de obra barata, o que não corresponde à verdade.

Mas, como se viu na cimeira europeia de Sibiu, o presidente Klaus Ioannis é fortemente a favor da integração europeia e não parece ser caso único.

Sim, certamente. E tivemos a maior prova da força do europeísmo nas recentes eleições europeias de maio, que deram um sinal de quanto a sociedade romena e pró-europeia. Estamos conscientes de que fazer parte da União Europeia é uma enorme vantagem. A sociedade romena fez importantes progressos que não seriam possíveis sem o apoio da União Europeia.

E quanto a ser membro da NATO?

A Roménia está localizada numa complicada área geopolítica, próximo da Rússia, da Ucrânia, da Turquia. É uma área em que as evoluções são imprevisíveis e por isso precisamos de fazer parte de uma forte aliança militar que proteja o país. Ao mesmo tempo, a Roménia contribui para a segurança europeia.

Podemos dizer que além da componente utilitária, apoio económico e apoio militar, a União Europeia e a NATO são também o garante do regresso da Roménia à sua vocação ocidental?

Há cerca de um século a Roménia fazia parte do mundo ocidental. Aliás, o moderno Estado romeno é o resultado da política da França e da Grã-Bretanha de travar a expansão europeia. Na Primeira Guerra Mundial fizemos parte da aliança dos britânicos, dos franceses, dos italianos, dos belgas, dos portugueses, e no final a Roménia até conseguiu concretizar a unidade nacional. Entre as duas guerras a Roménia também foi uma apoiante das políticas antirrevisionistas de certos Estados. A maioria da sociedade romena está plenamente convencida de que sem a integração nestas organizações ocidentais não temos hipótese de sobreviver, porque a nossa economia está orientada para a União Europeia, temos largos contingentes de cidadãos romenos a viver noutros países, como aqui em Portugal. Estamos interessados numa União Europeia mais forte e mais respeitada no mundo. Porque se a Europa é já uma grande potência económica, infelizmente do ponto de vista político e militar não é tão forte. Não deveria depender tanto da proteção dada por outros.

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