A história editorial do Mein Kampf de Hitler, a bíblia do ódio nazi

Corre neste ano o 90.º aniversário da edição do segundo volume do livro de Adolf Hitler. O professor João Medina explica a génese da obra, cuja primeira parte foi editada em 1925.

O programa político de Adolf Hitler, publicado em dois volumes, o primeiro em 1925 e o segundo em 1926, foi escrito pelo futuro Führer quando este se encontrava preso na prisão-fortaleza de Landsberg am Lach (Baviera), após a condenação pelo tribunal a cinco anos de prisão como um dos promotores do putsch iniciado com uma manifestação que ocorreu na Bürgerbräukeller, uma cervejaria de Munique, em 8 de novembro de 1923, que no dia seguinte já se encontrava destroçado e os seus principais instigadores encarcerados.

Hitler e alguns dirigentes do partido nazi - de imediato dissolvido - seriam julgados a partir de 26-II-1924, e condenados em 1-IV desse ano por alta traição, cabendo ao futuro Führer uma das penas mais pesadas, de cinco anos por alta traição, tendo os quarenta detidos putschistas sido encarcerados em Landesberg, conseguindo embora Hess e Goering fugir para o estrangeiro.

A mansuetude do sistema carceral permitia aos putschistas, no entanto, uma vida de certo luxo, tomando, por exemplo, Hitler o pequeno-almoço na cama. Lia abundantemente, recebia e conversava com visitantes e amigos, o que lhe permitiria dizer que nunca na sua vida fora tão bem tratado num cárcere. Este remanso tranquilo permitir-lhe-ia entregar-se com entusiasmo, com a ajuda inicial do seu amigo íntimo Emil Maurice (1897-1972), guarda-costas e motorista, e depois, sobretudo, a dada pelo fiel amigo Rudolf Hess - entretanto capturado e levado também para Landsberg -, na elaboração da sua obra, a bíblia nazi.

Nesses meses de detenção, que terminariam pouco antes do Natal de 1925, Hitler ditaria a sua bíblia, que sairia mais tarde, em 1925 e 1926, em dois grossos livros, beneficiando ambos os volumes de revisões e correções de alguns colaboradores, que acabámos de citar (Maurice, Hess e ainda o padre Bernhard Stempfle, assassinado, em 1931, execução ordenada por Hitler após o suicídio de Geli Raubal, sua sobrinha e amante).

O editor de Hitler

O título inicial que Hitler deu ao seu manifesto ideológico e autobiografia fora Quatro Anos e Meio de Combate contra Mentiras, Estupidez e Covardia, enunciado que o seu companheiro de prisão e amigo Max Amann propôs que fosse substituído, por motivos comerciais, por Mein Kampf (O Meu Combate. Daqui em diante MK).

Amann - nascido em Munique em 24-XI-1891, católico, sargento durante a grande guerra, no regimento bávaro em que Hitler combatera, recebera a Cruz de Ferro pela sua atuação em combate - seria um dos primeiros filiados no NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, 1921), sendo depois secretário-geral do partido (1921-23), dirigindo desde 1922 a Eher Verlag, a editora oficial dos nazis, pertencente de início a Franz Eher II. Participante no putsch da cervejaria bávara, desde 1920, editor e diretor do diário muniquense Völkischer Beobachter, mais tarde do Illustrierter Beobachter, mensário que se publicou desde 1926, além de ter acompanhado em Landsberg a redação da memória/panfleto de Hitler, Amann seria depois o responsável editorial pelas inúmeras edições dos dois volumes do MK, assim como do sua versão compacta num só volume (1930), sendo, nessa medida, o responsável pelo enriquecimento do Führer com os direitos autorais dessa obra que era a bíblia do nazismo, além de que foi designado, em 1933, presidente da Câmara de Imprensa do partido nazi, controlando 80% dos jornais do Reich, além de que velava ainda pela censura dos media do regime. Reichsleiter de toda a imprensa oficial, Amann, arquétipo do burocrata do III Reich, era um homem brutal, de escassos talentos como orador ou jornalista, até porque mandava escrever os artigos que se publicavam com o seu nome. Em 1948 foi condenado a dez anos de trabalhos forçados, falecendo em Munique, em 30-III-1957.

As tiragens do Mein Kampf

Embora Amann esperasse que se vendessem cerca de 23 mil exemplares no lançamento do MK, uma vez que o julgamento dera a Hitler uma projeção publicitária retumbante graças à presença dos media alemães e europeus ante os discursos demagógicos e inflamados do réu durante os 24 dias do processo - o italiano Corriere della Sera, de 28--II-1924 sublinhava que a defesa tendia a transformar os acusados em acusadores, culpando Von Kahr e Von Lossow, o primeiro comissário- -geral do Estado Bávaro e o segundo comandante das forças militares da Baviera, que eram ambos testemunhas de acusação -, a verdade é que em 1925 a espessa obra de 400 páginas registou apenas uma venda de 9473 exemplares, tanto mais que cada um custava 12 marcos, ou seja, o dobro dos livros alemães editados na época.

Em 1926 publicava-se o segundo volume do MK, de que se venderam 5067 cópias, continuando as vendas a diminuir, facto que só se alterou com os progressivos e surpreendentes sucessos eleitorais do partido nazi nos anos seguintes, de tal modo que Amann optou por uma edição compacta, num só volume, em 1930, a oito marcos, que registou nesse ano uma venda de 54 086 cópias e, em 1932, 909 351, atingindo 300 mil exemplares no ano em que Hitler foi nomeado chanceler.

Ao todo, ter-se-iam vendido na Alemanha dez milhões de exemplares deste livro. Como resume o caso Karl Dietrich Bracher, um dos mais competentes estudiosos do fenómeno nazi: "O putsch de farsa fizera de Hitler um mártir; o homem sem nome tornou-se conhecido e para muitos era o símbolo da sua busca cega de mudança. O seu primeiro e único livro publicado estava feito de modo a amedrontar qualquer pessoa sensível; primeiro vendeu-se pouco, mas até 1933 já vendera 300 mil exemplares e finalmente foi disseminado como a bíblia do III Reich. Muitos houve que, aquecidos numa falsa sensação de superioridade, se recusaram a tomá-lo a sério. Falharam em reconhecer que os violentos planos para o futuro, candidamente discutidos, eram planos que se tornariam uma terrível realidade. E, embora os que seguiam Hitler não incluíssem muitos leitores, o livro valeu, apesar disso, ao seu autor substanciais proventos autorais. Em breve era dono de uma grande limusine e mais tarde de uma casa magnífica em Obersalzburg, perto de Berchtesgaden." (Karl Dietrich Bracher, The German Dictatorship. The Origins, Structure and Effects of National Socialism, Nova Iorque, Praeger Publishers, 1970, p. 129).

Em suma, Amann conseguira fazer de Hitler um autor de um sucesso editorial tal que ficaria rico com os direitos auferidos com a sua única obra, tanto mais que aquela demente bíblia racial antissemita e ultranacionalista era oferecida como prenda pelo Estado, desde 1936 a 1945, aos noivos quando se casavam, havendo ainda uma edição em braille para os invisuais. Foi ainda a fortuna obtida como este best-seller oficial e de leitura obrigatória que o Führer, como se viu, compraria um retiro montanhês em Berghof, um chalet no cume do Obersalzberg, sobre a cidade de Berchtesgaden. Essa primitiva vivenda foi engrandecida como reduto inexpugnável, rodeado de instalações de segurança onde 20 mil militares velavam pelo sossego e solidão do Führer. A metamorfose do modesto tugúrio campestre no sudoeste bávaro, perto da fronteira austríaca e a cerca de 80 quilómetros de Munique, precisou de cinco anos de trabalho escravo para se transformar no mítico "ninho de águias" em forma de cogumelo, rematando numa torre a que só por elevador se podia ali aceder - era este o "ninho de águias" propriamente dito -, sob o qual havia 13 pisos escavados na montanha, só havendo um acima dos andares subterrâneos, onde Hitler recebia as visitas mais íntimas.

Apesar de ter vendido cerca de um milhão de exemplares em 1933 e quatro milhões em 1940, o MK era, paradoxalmente, um livro que quase ninguém lia, tanto pelo seu estilo empolado como pela ausência de estilo ou qualidades literárias, além de pejado de inúmeros erros gramaticais - o escritor alemão Lion Feuchtwanger teve a paciência de inventariar os milhares de erros no texto, apesar das diversas correções que nele operaram os referidos revisores, o padre Stempfle e o crítico musical Josef Czerny -, esse indigesto panfleto bombástico, vociferante e repassado de ressentimento, cuja escassa leitura Otto Strasser explicou nesta passagem do seu livro Hitler e Eu: "Estávamos no congresso do partido em Nuremberga, em 1927. Eu era membro do partido há dois anos e meio e encarregado do relatório. Citei algumas frases do Mein Kampf, o que provocou uma certa sensação. À noite, eu jantava com alguns camaradas do partido, Feder, Kaufmann, Koch e outros, os quais me perguntaram se eu tinha verdadeiramente lido o livro que nenhum deles parecia conhecer. Confessei ter extraído algumas frases significativas dele sem me ter ocupado de modo algum do texto. Foi a hilaridade geral, de modo que se decidiu que o primeiro a chegar que tivesse lido o Mein Kampf pagaria a conta dos outros. Gregor Strasser, interrogado à entrada, respondeu com um não sonoro, Goebbels sacudiu a cabeça acabrunhado, Goering soltou uma grande risota, o conde Reventlov desculpou-se dizendo que tinha falta de tempo. Nenhum, contudo, estava ao corrente da sanção se confessasse conhecer o Mein Kampf. Mas ninguém lera o livro do chefe e cada um teve de pagar a sua conta." (Otto Strasser, Hitler et Moi, Paris, Éditions Bernard Grasset, 1940, pp. 68-9).

Otto Strasser (1897-1974) era irmão do político Gregor Strasser (1892-1934), assassinado na Noite das Facas Longas (30-VI-1934) - a mesma em que foi abatido Ernst Röhm, dirigente da SA -, duas das figuras cimeiras da ala socialista do partido nazi, os que os levaria a formar uma cisão conhecida como Frente Negra. Otto refugiou-se mais tarde em Praga e, depois, no Canadá, donde só regressaria à Alemanha após o fim da guerra. O seu citado livro sobre Hitler foi publicado em alemão na Suíça, em 1935.

Esta anedota divertida contada por Otto Strasser comprova até que ponto aquele best-seller era o livro mais ignorado da Alemanha, até entre nazis. A verdade é que, apesar de ser um crescente sucesso editorial, o MK era um livro que raros liam, mesmo entre os seguidores do Führer.

A análise de Churchill

De qualquer modo, o MK fez de Hitler o autor mais bem pago da Alemanha do seu tempo. Já Winston Churchill, escrevendo a sua A Segunda Guerra Mundial, com a vantagem considerável de olhar para trás e poder abarcar, com uma visão ao mesmo tempo mais ampla e melhor informada de todo o convulso, trágico e mortífero processo da tomada de poder na Alemanha pelos nazis e as tão cruentas guerras entre Gog e Magog dali resultantes, redigindo uma dezena de páginas brilhantes à carreira do Führer que se suicidara no bunker, lembrava que os meses passados por Hitler em Landsberg lhe tinham permitido completar em esquema o MK como "um tratado sobre a sua filosofia política dedicado aos mortos do recente putsch. Tudo estava lá: o programa do ressurgimento alemão, a técnica de propaganda do partido; o plano para combater o marxismo; o conceito dum Estado nacional-socialista; a legítima posição da Alemanha na cúspide do mundo. Aqui estava o novo Corão da fé e da guerra: bombástico, verboso, informe mas carregado da sua mensagem. A tese essencial do Mein Kampf era simples. O homem é um animal que combate; portanto, a nação ou a raça, sendo uma comunidade de combatentes, é uma unidade de combate. Todo o organismo vivo que deixa de combater está também condenado à extinção. A capacidade combativa duma raça depende da sua pureza. Por isso, a necessidade de se livrar dos elementos estrangeiros. A raça judia, devido à sua universalidade, tem a neces-sidade de pacifismo e internacionalismo. O pacifismo é o pecado mais mortal, porque significa a rendição da raça na luta pela existência".

E prossegue Churchill: "O fim último da educação está em produzir um alemão que possa ser convertido com o mínimo de treino num soldado (...). Nada poderá ser afetado pelas virtudes burguesas e paz e ordem. O mundo está agora a mover-se em direção a uma total convulsão e o novo Estado alemão deve ver nisso que a raça está pronta para as derradeiras e maiores decisões."(W. Churchill, The Second World War, Londres, Pimlico, 2002, pp. 26-27).

A versão original do texto, algo distinta, foi publicada no blogue Malomil

*) Professor catedrático jubilado de História da Faculdade de Letras de Lisboa

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