A guerra de Bush que Obama herdou e Trump quer ganhar

Antes de chegar à Casa Branca, presidente defendia a retirada naquele que é o mais longo conflito a envolver os EUA

O presidente norte-americano, Donald Trump, foi o primeiro a admitir que mudou de opinião em relação à guerra do Afeganistão, que dura há 16 anos. Depois de ter defendido, quando ainda não estava na Casa Branca, que as tropas norte-americanas deviam sair, agora aposta em reforçar a presença no terreno. O objetivo já não é "construir nações" à imagem dos EUA, mas combater o terrorismo e garantir a vitória. George W. Bush e Barack Obama encontraram no Afeganistão um conflito que não conseguiram ganhar mas que também não se podiam dar ao luxo de perder.

"O meu instinto original era retirar. E, historicamente, gosto de seguir o meu instinto. Mas toda a vida ouvi que as decisões são muito diferentes quando te sentas atrás da secretária na Sala Oval", disse Trump num discurso em Fort Myer. Para a mudança de opinião também terão contribuído os generais que fazem parte da sua administração e combateram no Afeganistão. Já o chefe de gabinete, John Kelly, perdeu o filho, um marine, na explosão de uma mina em 2010 no Sul deste país.

Uma das três razões apontadas por Trump para continuar no Afeganistão foi precisamente honrar o "tremendo sacrifício" dos 2403 militares norte-americanos que morreram em combate desde 2001. O presidente quer ainda impedir que "uma retirada precipitada" torne o país um refúgio para os terroristas - não hesitou em lançar a "mãe de todas as bombas" contra militantes do Estado Islâmico em abril - e garantir a estabilidade da região.

Menos de um mês depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Bush ordenou a invasão do Afeganistão para derrotar a Al-Qaeda (que tinha a sua base no país) e remover do poder os talibãs (que davam apoio e abrigo a Bin Laden). Mas após a derrota inicial, estes reagruparam-se e, com o virar da atenção dos EUA para o Iraque (em 2003), recomeçaram a ganhar terreno.

Em 2009, Obama chegou à Casa Branca com a promessa de aumentar as tropas (chegaram a ser mais de cem mil) para acabar rapidamente com o conflito, começando a retirada progressiva em 2011 (um gesto criticado por criar prazos artificiais). Em 2014, anunciou o fim das "operações de combate". Menos de dez mil militares ficaram para dar formação às forças de segurança afegãs. Mas a guerra não tinha fim, apesar dos desaires dos talibãs. Em maio de 2016, o líder Mohamad Mansour foi morto e Obama disse ter sido alcançado um "marco importante". Mas isso significou apenas a radicalização dos talibãs, com o novo líder, Hibatullah Akhundzada, a tornar ainda mais difícil uma eventual solução diplomática.

Ao contrário de Obama, Trump é contra dar um prazo para a retirada dos militares - prolongando a guerra de forma indefinida - e defende dar maior autonomia aos generais no terreno para atuarem sem depender de Washington. O presidente não avançou com um número para o reforço das tropas, mas fala-se em mais quatro mil militares. O secretário da Defesa, James Mattis, disse que tal ainda não foi decidido.

Por outro lado, fora uma alteração de retórica em relação aos antecessores, a aposta de Trump é também conseguir sentar os talibãs à mesa de negociações para encontrar uma solução política. Apesar de ser o primeiro a admitir que isso será difícil. "Ninguém sabe quando ou se isso vai alguma vez acontecer", disse. Em resposta ao plano, os talibãs prometeram transformar o Afeganistão no "cemitério do século XXI para o império americano".

Trump reiterou os apelos de Obama para que o Paquistão deixe de servir de refúgio aos terroristas. Mas juntou uma ameaça: "Temos pago ao Paquistão milhões e milhões de dólares ao mesmo tempo que eles estão a dar guarida aos terroristas que estamos a combater. Isso vai ter de mudar e isso vai mudar imediatamente." E defendeu um maior envolvimento da Índia, rival nuclear do Paquistão, o que poderá complicar a situação regional.

Trump disse ter estudado o Afeganistão "com grande detalhe e de todos os ângulos possíveis". Mas cometeu uma gafe, ao falar no "primeiro-ministro" afegão (cargo que não existe). O presidente Ashraf Ghani é o líder político, tendo reagido de forma positiva ao plano de Trump. "É um dia histórico para nós. Hoje, a América mostrou que está connosco, sem limite de tempo." Trump disse que os norte-americanos vão "combater para ganhar", mas lembrou que cabe aos afegãos a maior fatia na luta para derrotar os talibãs. E que os EUA não estão a dar um "cheque em branco" a Cabul, prometendo continuar a apoiar o governo "desde que veja compromisso e progresso".

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