A globalização contada por canhão português na Escócia que veio da Birmânia

Fundido em Espanha, foi levado pelos portugueses para a Índia e depois a Birmânia. Britânicos trouxeram-no para a Europa de novo no final do século XIX.

Os escoceses chamam-lhe Portuguese Cannon, "canhão português", e ofereceram-lhe um palco bem digno, a colina Calton, em Edimburgo, a mesma onde está o Monumento à Escócia e o Memorial a Nelson, o almirante britânico que na Batalha de Trafalgar, ao largo de Espanha, derrotou a armada napoleónica. Mas a nota explicativa junto ao canhão sublinha que ostenta as armas espanholas, ou seja a fundição foi em Espanha, e que de alguma maneira foi parar à posse dos portugueses, que o transportaram para a Ásia, onde passou por Goa e depois ajudou a defender alguma das nossas possessões no Golfo de Bengala. Estava, porém, ao serviço do rei de Arakan, na atual Birmânia, quando os britânicos o capturaram e enviaram para a capital escocesa, para a exposição internacional de 1886.

Andou assim a viajar do Atlântico para o Índico o Portuguese Cannon e uns séculos depois voltou ao Velho Continente como despojo de guerra de um Império Britânico que sucedera aos Impérios Ibéricos como o mais poderoso. Quando os britânicos conquistaram a Birmânia (atual Myanmar) reinava Vitória e no seu império o Sol nunca se punha, pois ia das Caraíbas aos confins do Pacífico.

Os portugueses instalaram-se na Ásia com a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498. No século seguinte dominaram os mares sem rival e alguns soldados da fortuna chegaram a ter um poder imenso na Ásia, como Filipe de Brito, lisboeta que chegou a ser rei de Pegu, na Birmânia, até acabar assassinado. Não admira, pois, que os portugueses tenham deixado canhões naquelas terras. Terão também deixado milhares de descendentes, como conta o recente livro do birmanês James Swe intitulado Cannon Soldiers of Burma (sim, os portugueses eram bons a usar canhões, no mar e em terra).

Tanto os luso-birmaneses de que fala Swe - ele próprio se reivindica como tal - como as desventuras de Filipe de Brito estão ligados a Arakan, hoje o estado birmanês de Rakhine, muito presente nas notícias por causa da perseguição aos muçulmanos rohingya.

Ora, o Arakan foi conquistado pelos britânicos no século XIX, tal como depois o resto da Birmânia budista, país submetido ao fim de três guerras. Foi nesse momento que o canhão veio para a Escócia, para a Exposição de Indústria, Ciência e Arte de 1886.

Na placa ainda hoje usada diz que o Portuguese Cannon data do século XV, mas também que foi fundido no reinado de Filipe IV de Espanha (século XVII). É uma contradição, mas a segunda data é a mais provável.

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