A firma de advogados no centro do escândalo de corrupção

O que faz a Mossack Fonseca, a firma cujos documentos pirateados envolvem 72 chefes de Estado em rede de offshores e empresas fictícias

A Mossack Fonseca, uma firma de advogados com base no Panamá, tornou-se subitamente num nome conhecido por todo o mundo, após a revelação de uma fuga sem precedentes de documentos ligados à firma, que ligam mais de 120 líderes mundiais a paraísos fiscais, ou offshores. A firma defende que não fez nada de errado e que a fuga de informações é ela própria um "crime contra o Panamá" e parte de "uma campanha internacional contra a privacidade". Mas o que é a Mossack Fonseca?

A firma de advogados foi fundada em 1977 pelos sócios Jurgen Mossack, alemão, e Ramón Fonseca, panamiano, e dedica-se à gestão de fortunas. A sua principal função, segundo descreve num comunicado enviado ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação após a revelação dos documentos, é a de ajudar os seus clientes a criar sociedades com personalidade jurídica própria, o que, sublinham, não é ilegal. "Antes de trabalharmos com um cliente, conduzimos um processo minucioso de avaliação de risco, que em todos os casos vai de encontro e muitas vezes excede todas as leis relevantes", acrescenta a declaração.

A firma Mossack Fonseca opera em paraísos fiscais como as Baamas, as Ilhas Virgens Britânicas e o Panamá, também apelidades de offshores. A criação de sociedades anónimas em offshores, nalguns casos alegadamente fictícias, pode permitir que os detentores destas sejam capazes de fazer circular dinheiro e evadir os impostos sem que as suas identidades sejam conhecidas.

Este domingo, Ramón Fonseca disse em entrevista à agência Reuters que desde a sua criação a empresa ajudou a fundar mais de 240 mil sociedades, que a "vasta maioria" delas tinham sido usadas para "propósitos legítimos". À Reuters, Fonseca denunciou aquilo a que chama "uma campanha internacional contra a privacidade".

O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou este domingo uma grande reportagem em que divulgou milhares de milhões de dólares em transações suspeitas feitas em inúmeras contas em paraísos fiscais ligadas a grandes nomes da política mundial. O jornal The Guardian, por exemplo, descreve uma rede de transações de mais de dois mil milhões de dólares que leva ao presidente russo Vladimir Putin.

Ainda ontem, jornalistas concentraram-se à porta da empresa, no Panamá, como se pode ver neste vídeo, em busca de respostas.

Ramón Fonseca sublinhou à Reuters que a firma não é responsável pelas atividades das sociedades que ajuda a fundar. "Dedicamo-nos a criar estruturas legais que vendemos a intermediários como bancos, advogados, contabilistas e fundos, e eles têm outros clientes que nós não conhecemos", afirmou. "A privacidade é um direito humano sagrado, mas há pessoas no mundo que não percebem isso", acusou.

Papéis do Panamá: 143 políticos incluindo 12 chefes de Estado em funções

O conteúdo dos milhares de documentos pirateados da firma Mossack Fonseca foi tornado público após uma fonte anónima os ter enviado ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que os partilhou com o Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação. Foram analisados por mais de cem jornais de todo o mundo, incluindo, em Portugal, o jornal Expresso e a televisão TVI.

Os documentos revelaram que 143 políticos mundiais, incluindo inúmeros antigos líderes nacionais e 12 chefes de Estado atualmente em funções, têm ligações a uma vasta rede de contas offshore, incluindo Vladimir Putin, o pai de David Cameron, familiares do presidente chinês Xi Jinping, o primeiro-ministro da Islândia e familiares do presidente contestado da Síria, Bashar al-Assad.

Há mesmo um português, relacionado com o caso Lava Jato, na lista dos envolvidos. É o empresário Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira, que detém 14 empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas.

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