A ex-amante do rei Juan Carlos, o testa-de-ferro e o duplex de seis milhões em Londres

Corinna Larsen terá sido autorizada pelo rei emérito a comprar um apartamento numa das zonas mais caras de Londres, documenta uma troca de correspondência da aristocrata alemã com um alegado testa de ferro de Juan Carlos. A casa ficaria em nome de uma sociedade-veículo para que o nome do real proprietário não aparecesse.

Juan Carlos estava em plenas funções como rei de Espanha em 2011 quando Corinna Larsen, sua amante, envia um e-mail ao gestor de fortunas Arturo Fasana, alegado testa de ferra do soberano em negócios não declarados. "O nosso amigo autoriza-me a oferecer seis milhões pelo duplex de Londres", lê-se na carta que esta terça-feira publica o jornal espanhol El Mundo (acesso pago).

"Depois de uma completa busca de propriedades em Londres, encontrámos um muito, muito bonito apartamento no número 8 de Upper Belgrave Street - a 50 metros de Eaton Square e a 100 da minha antiga casa", explica Corinna Larsen, uma das várias pessoas do entorno de Juan Carlos que está a ser investigada na Suíça e em Espanha por alegados crimes de branqueamento de capitais.

No e-mail, a aristocrata alemã descreve o tamanho da casa, um duplex "bom", "prático" e "fácil de manter", com dois quartos, suite, escritório, entrada privada, segurança, pátio privado, 252 metros quadrados, construído 118 anos antes, com um condomínio acessível para a zona de Londres em que se encontra e as reformas recentes de que foi alvo. "Todas as casas de banho, cozinha, etc. encontram-se em perfeitas condições, pelo que se pode decorar muito rapidamente", continua.

A procura parece ter sido intensa e de comum acordo. "Não há melhores opções deste nível e procurámos em vários bairros de Londres", diz Corinna Larsen a Arturo Fasana. "Ao nosso amigo agrada-lhe porque ninguém o pode ver", prossegue.

É no momento em que começa o debate sobre o nome que figuraria na escritura como proprietário, para que não aparecesse o dono verdadeiro, que a conversa ganha outros contornos, explica o El Mundo. Corinna explica que falou com o seu assessor jurídico, um advogado suíço, e que "ele vai criar uma sociedade que pode assumir a aquisição e ser o signatário". A frase seguinte implicará diretamente Juan Carlos: "Informei o nosso amigo de todos os estes passos e de que te enviaria esta informação". Termina pedindo a Arturo Fasana que confirme tudo ao "amigo" para evitar possíveis problemas.

Esta é uma das várias cartas assinadas por Corinna que a imprensa espanhola tem publicado nos últimos dias que envolvem Juan Carlos num alegado esquema de criação de sociedades-veículo através das quais ocultaria a proveniência de dinheiro que não sai do fundo estatal que suporta a Casa Real de Espanha nem da própria Casa do Rei. Será resultado de comissões que o então rei recebeu em troca da sua influência em negócios de vários tipos.

A casa acabaria por não ser comprada. O proprietário recuou no último momento explicou Corinna ao procurador suíço Yves Bertossa, à frente do caso. Optaram por outra, que custou 5,5 milhões de euros mais 4 milhões em obras de remodelação. O rei emérito "doou-lhe" 1,6 milhões para a aquisição, disse a aristocrata alemã.

Um presente mais modesto do que aqueles quase 65 milhões de euros que Juan Carlos terá oferecido por "gratidão e amor" à amante em 2012, que também têm interessado à investigação.

Ex-amante do rei Juan Carlos ameaçou atingir "o coração da Casa Real"

Esta segunda-feira soube-se também que, perante a possibilidade de ter problemas legais, Corinna quis envolver o atual rei ameaçando revelar detalhes à imprensa e às autoridades, como escreveu o El Mundo. Felipe VI, no entanto, rejeitou qualquer possibilidade de negociação e em março tornou público que renunciava à herança pessoal do pai.

Quando o atual rei de Espanha negou a proposta de nomear um negociador secreto para falar com Corinna Larsen, ex-amante do rei emérito Juan Carlos, o escritório londrino de advogados que representa a aristocrata alemã não se conformou e voltou a escrever ao soberano. "Parece que não perceberam a seriedade dos assuntos e o seu impacto na Casa Real" diz uma carta enviada à Casa do Rei.

De seu punho e letra, Felipe VI escreve aos advogados de Corinna Larsen dizendo que "nem Sua Majestade o Rei nem a Casa têm conhecimento, participação ou responsabilidade alguma nos alegados acontecimentos que menciona, pelo que carece de justificação lícita o envolvimento neles".

Corinna, a mulher que ensombra o reinado de Felipe VI

Para Felipe VI, o reinado, iniciado em 2014, tem sido marcado por um dilema: decidir entre a família e a coroa devido aos casos em que estão envolvidos membros dos Borbón. A condenação por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal do cunhado, Iñaki Urdangarín no caso Nóos e, por outro lado, o facto de chegar ao trono depois de um debilitado Juan Carlos abdicar a seu favor.

A fragilidade do soberano era física mas também na sua popularidade. Aconteceu depois de se saber que o rei fora obrigado a ser trasladado para Espanha após fraturar a anca durante uma caçada de elefantes no Botswana com um grupo de amigos milionários e Corinna Larsen.

A surpreendente viagem, que não constava da agenda oficial, o facto de caçar um animal em perigo de extinção e a presença desta mulher que não era a rainha Sofía beliscaram a imagem de rei simpático e próximo do povo que mantinha desde que chegou ao trono em novembro de 1975.

Essa viagem, que obrigou Juan Carlos a pedir desculpas publicamente -- "Equivoquei-me" -- deu a conhecer a alemã Corinna Zu Sayn-Wittengstein. hoje com 58 anos, que assim deixou de ser conhecido de uns poucos e passou a fazer parte das conversas de muitos.

Onde para a rainha emérita?

As muitas notícias envolvendo o nome do rei emérito levantam outra pergunta: onde está a rainha emérita. O cargo, menos oficial, levou-a a aparecer cada vez menos em público e cada vez menos ao lado do marido. La Otra Crónica, suplemento do jornal El Mundo, arrisca mesmo dizer que Sofía deverá passar os dois meses de verão com a irmã no castelo de Marivent.

Refúgio dos Borbón em Maiorca, e palco do tradicional posado de verão da família, são cada vez menos os que por lá passam. Este ano, não há noticia de D. Juan Carlos, Felipe e Letizia só deverão fazer uma breve paragem de uma semana entre 2 e 8 de agosto no âmbito da digressão que estão a fazer por Espanha, os filhos de Elena, jovens adultos, não parecem interessados, e Cristina e o seus quatro filhos estão à margem dos acontecimentos oficiais desde que Iñaki Urdangarín começou a ser julgado. Será um descanso muito mais solitário.

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