Presidente francês, Emmanuel Macron, beija a careca de um amigo enquanto deixa a assembleia de voto em

Parlamento Europeu

A UE progressista de Macron vs a UE das nações de Orbán, Salvini e Le Pen

Partido de Macron alia-se aos liberais, centristas e progressistas para formar uma terceira via no Parlamento Europeu. Esse papel pode vir a ser disputado, porém, pelos populistas, nacionalistas e extremistas de Orbán, Salvini e Le Pen. Este é um hemiciclo muito mais fragmentado

O Partido Popular Europeu (PPE) mantém-se a primeira força política no Parlamento Europeu, mas passa de 216 eurodeputados eleitos em 2014 para 179 eleitos nestas eleições de 2019, ou seja, menos 37 deputados. Os partidos de direita que melhores resultados obtiveram não foram aqueles que tradicionalmente melhor se saíam, como por exemplo o Partido Popular espanhol, Les Republicains franceses ou o Força Itália. Neste capítulo apenas se salva a CDU/CSU da chanceler alemã Angela Merkel, mas, mesmo assim, com perdas e arriscando-se eventualmente a ser ultrapassada pela Liga do italiano Matteo Salvini na categoria de partido com mais eurodeputados eleitos a nível nacional num Estado membro da UE. A chanceler alemã ficaria, assim, sob forte pressão, tanto a nível interno, como a nível europeu.

No campo dos ressuscitados, no que ao PPE diz respeito, a assinalar a Nova Democracia, um dos partidos responsáveis pela bancarrota da Grécia e seu consequente recurso a três pedidos de resgates financeiros internacionais à chamada troika. Tal resultado levou já o atual primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, a indicar a intenção de antecipar as legislativas que estavam previstas para outubro.

No campo dos vencedores claros está o húngaro Fidesz, do primeiro-ministro Viktor Orbán, atualmente suspenso do PPE por pôr em causa os valores e as regras do partido e da União Europeia por múltiplos episódios de violação do Estado de direito. E também o austríaco ÖVP do chanceler Sebastian Kurz, que, apesar de tudo, enfrenta uma moção de censura esta segunda-feira. Isto depois de o partido de extrema-direita que era seu parceiro de coligação, o FPÖ, ter caído em desgraça com o chamado Ibizagate (o líder do partido, Heinz-Christian Strache, surgiu num vídeo a oferecer contratos públicos em troca de apoio dos russos para chegar ao poder e dominar os media austríacos).

Orbán promete uma nova era contra a migração

Orbán, no seu discurso de vitória, afirmou que os resultados demonstraram uma onda nacionalista. "Somos pequenos mas queremos mudar a Europa", declarou, garantindo estarmos perante "o início de uma nova era contra a migração".

Os Socialistas e Democratas seguram o segundo lugar, mas também descem, de 185 para 152 eurodeputados, ou seja, menos 33 menos. Dos poucos membros deste grupo político que se saíram bem estão o PS português, o PSOE espanhol, os trabalhistas de Malta ou os trabalhistas da Holanda. Entre os ressuscitados conta-se o Partido Democrático, que apesar de ter ganho as europeias em 2014, tinha entretanto caído em desgraça após o referendo de Matteo Renzi e depois de perder as eleições legislativas que puseram o governo de Itália nas mãos da coligação improvável entre a Liga de Salvini e o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio. O PD é, desde março, liderado por Nicola Zingaretti.

A Roménia, país atualmente na presidência do Conselho da União Europeia, foi uma das surpresas da noite. Envolto em numerosos escândalos de corrupção e em tentativas de os abafar, o PSD, partido do governo, membro dos Socialistas e Democratas, vê-se empatado tecnicamente com o PNL, de centro-direita, na casa dos 25%. O Aliança 2020 USR-PLUS, partido liberal, surge na terceira posição. Além das europeias, os romenos foram também chamados a votar num referendo convocado pelo presidente Klaus Iohannis sobre as polémicas reformas empreendidas pelo governo do PSD na área da Justiça. A consulta, sintoma do clima de guerra institucional no país, será válido se votarem mais de 30% dos eleitores.

A derrocada total, no que toca ao grupo dos Socialistas e Democratas, veio da parte do SPD alemão, que ficou em terceiro lugar, ultrapassado pelos Verdes. Na mesma noite, os sociais-democratas alemães, liderados por Andrea Nahles, perderam, pela primeira vez em 73 anos, as eleições regionais no estado de Bremen. Obteve 24,5% dos votos, ficando atrás da CDU/CSU, que conseguiu 25,5%. Em terceiro lugar, nestas regionais, surgiram os Verdes com 18%. Confessando-se "extremamente desiludida", Nahles, sucessora de Martin Schulz, declarou: "Parece que a proteção do clima foi decisiva para muitos eleitores. É preciso tornar a proteção do clima numa questão social".

Também no campo dos maus resultados há a assinalar o do Labour de Jeremy Corbyn, que de segundo mais votado em 2014, passou para terceiro. Muito por causa da inação do seu líder em relação à questão do Brexit. E às consequentes divisões no partido por causa deste dossiê. Nesta campanha houve mesmo trabalhistas a criticar abertamente Corbyn, como o ex-primeiro-ministro Tony Blair, havendo pelo menos trabalhista membro da câmara dos Lordes a apelar ao voto no Partido Liberal-Democrata.

A terceira via progressista, centrista e liberal de Macron, Verhofstadt, Costa, Tsipras e etc...

Como o terceiro maior grupo político impõe-se o Grupo da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE), aos quais pediram já para se juntar os eleitos pela lista Renascimento do partido La Republique en Marche do presidente francês Emmanuel Macron e a USR romena. O até agora líder do ALDE, o ex-primeiro-ministro belga e ex-candidato à presidência da Comissão Europeia, Guy Verhofstadt, congratulou-se esta noite pelo fim do domínio do PPE e dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu após estas nonas eleições europeias.

Segundo a projeção disponibilizada pelo Parlamento Europeu às 23.20, hora portuguesa, este grupo consegue pelo menos 105 eurodeputados, quando nas eleições de 2014 juntou apenas 69, ou seja, elege mais 36 deputados para Bruxelas e Estrasburgo. Macron defendeu um Renascimento da Europa nesta campanha para as europeias, face à emergência de populistas, nacionalistas e extremistas de direita, conseguindo o apoio de várias vozes para uma aliança progressista mais vasta que consiga salvaguardar o que, até aqui, foi conquistado pela UE. Uma dessas vozes foi a do primeiro-ministro português, António Costa, apesar de, oficialmente, o PS integrar os Socialistas e Democratas.

No debate entre os seis candidatos para a presidência da Comissão Europeia, o candidato dos socialistas, o holandês Frans Timmermans, disse: "A próxima Comissão Europeia tem que colocar esta questão [das alterações climáticas] no topo da sua agenda. Porque não taxamos o CO2? Todos devem apoiar isto, desde [o primeiro-ministro grego] Tsipras, [ao presidente francês Emmanuel] Macron. Se não fizermos nada os mais pobres vão sofrer. Não podem fugir. Quanto mais tempo demorarmos mais vai custar e mais os pobres vão sofrer".

Realce-se que, nestas europeias, tanto o partido de Macron como o de Tsipras não se sagraram vencedores. Enquanto a líder do partido de extrema-direita União Nacional, Marine Le Pen, que ficou em primeiro lugar, considerou que os resultados das europeias em França constituem uma "lição de humildade para Macron" o presidente, através de um comunicado do Eliseu, afirmou que "isto não foi uma derrota".

Apesar disso, este domingo à noite, no Twitter, o líder do ALDE marcou já o tom da discussão nos próximos dias: "O próximo presidente da Comissão Europeia deve sair de uma maioria ampla e que vá para além das linhas partidárias. O nosso novo grupo irá considerar todos os candidatos que reúnam apoio de uma maioria que queira governar a Europa", escreveu Guy Verhofstadt, no Twitter, referindo-se ao novo grupo político que vai nascer de uma junção, entre outros, do ALDE e do La Republique en Marche (lista Renascimento) de Emmanuel Macron.

"Desde 1979, o PPE e os Socialistas e Democratas já não têm a maioria juntos. Já não é possível nenhuma maioria sem o nosso novo grupo. No final desta noite eleitoral, ficará claro que não foram os populistas e os nacionalistas que ganharam mais lugares, mas o nosso grupo pró-Europeu", declarou o belga, no Twitter, acrescentando: "As primeiras projeções parecem muito promissoras para o novo grupo! ALDE, Renascimento, USR e outros partidos deverão ganhar cerca de 40 lugares - formando um novo grupo com mais de 100 eurodeputados".

Outros partidos que poderão integrar o novo grupo do ALDE + Renascimento são o Ciudadanos espanhol, o Partido Liberal-Democrata britânico, os liberais dinamarqueses do Venstre, os húngaros do Momentum, a coligação progressista que inclui o partido da presidente da Eslováquia ou o Partido Reformista da Estónia. Numa tendência populista, sim também o ALDE tem populistas, está o checo ANO 2011, formação política centrista liderada pelo primeiro-ministro da Chéquia (República Checa) Andrej Babis.

A onda Verde invade a Europa

Como possível quarto grupo político surgem os Verdes, que passam de 52 eurodeputados, em 2014, para 69. A grande vencedora da noite é Ska Keller, copresidente dos Verdes europeus e candidata dos Verdes à sucessão de Jean-Claude Juncker na presidência da Comissão, que viu o seu partido ficar em segundo lugar nas europeias na Alemanha, à frente do SDP, a seguir à CDU/CSU. Em França, os Verdes conseguiram o terceiro lugar, com 12%, tendo sido os mais votados, na faixa etária entre os 18 e os 24 anos. Na Dinamarca, os Verdes do SF ficaram em terceiro, com 13%. O mesmo aconteceu na Irlanda, em que o Verdes conquistaram a terceira posição, com 15%. Em Portugal, o PAN, que tem um eleito pelo menos, já anunciou que pretende integrar o grupo dos Verdes no novo Parlamento Europeu (2019-2024).

"É uma grande celebração e é também uma grande responsabilidade. Temos agora uma grande tarefa, de pôr em ação o que as pessoas nos pediram: políticas ambientais, justiça social e respeito pelo Estado de Direito", afirmou Ska Keller, copresidente do grupo dos Verdes europeus, que falava no Parlamento Europeu, em Bruxelas, nas primeiras reações da noite eleitoral.

Na quinta posição surge o grupo os Conservadores e Reformistas, que passam de 77 eleitos há cinco anos para 60. A reforçar a sua posição neste grupo está o partido polaco Lei e Justiça, do ex-primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski, conservador, católico, eurocético e anti-imigração. No passado, este partido, cujas siglas são PiS, chegou a votar contra um segundo mandato de Donald Tusk na presidência do Conselho Europeu. Também ex-primeiro-ministro polaco, Tusk é um liberal, tendo integrado o partido Plataforma Cívica.

Em queda livre, por causa da má gestão do Brexit feita pela primeira-ministra Theresa May e do seu Partido Conservador, os Tories ficaram em quarto lugar nestas europeias segundo as primeiras estimativas e projeções. À sua frente, na terceira posição, o Labour de Corbyn, na segunda posição o Partido Liberal-Democrata, formação pró-europeia liderada por Vince Cable, na primeira o Partido do Brexit de Nigel Farage. Um dos slogans de campanha dos liberais-democratas era "Bardamerda para o Brexit". Recorde-se que os conservadores britânicos saíram do Partido Popular Europeu para os Conservadores e reformistas no tempo de David Cameron, o primeiro-ministro britânico que prometeu o referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE e, após a vitória do Brexit, se demitiu.

Salvini e Farage de sorriso nos lábios

O grupo dos populistas, nacionalistas e extremistas de direita surgem também em quinto, à frente do dos eurocéticos. O Grupo das Nações e da Liberdade, que inclui por exemplo a Liga de Salvini e a União Nacional de Marine Le Pen, sobe de 36 eleitos para 60. Outros membros do grupo, como o austríaco FPÖ de Heinz-Christian Strache ou o holandês PVV de Geert Wilders ficaram aquém das expectativas. Na Holanda, os trabalhistas e os conservadores-liberais foram os mais votados, segundo as primeiras estimativas divulgadas, as quais mostram o novo partido de extrema-direita do jovem Thierry Baudet a ultrapassar o partido de extrema-direita do histórico líder xenófobo e islamofóbico Geert Wilders. Um ficou em quarto lugar e outro conseguiu apenas o oitavo lugar.

Os eurocéticos do Grupo Europa da Liberdade e da Democracia Direta passam de 42 eurodeputados eleitos em 2014 para 51. O motor deste grupo continua a ser o partido de Nigel Farage, que há cinco anos era UKIP, este ano é o Partido do Brexit. O número de eurodeputados a eleger por Farage, ele próprio eurodeputado há 20 anos, será sensivelmente o mesmo, ou seja, 24 dos 73 eleitos a que o Reino Unido tem direito.

Ao não ter saído da UE ainda como previsto - a data inicial era o dia 29 de março - o Reino Unido participa ainda nas europeias. Isso obriga a que o número de eleitos no Parlamento Europeu se mantenha nos 751 (750 + o presidente). Quando saírem esse número passa a 705. Uma parte dos 73 eurodeputados britânicos tinha, entretanto, sido redistribuída pelos restantes Estados membros. Os países que ganharam eurodeputados terão que esperar que o Brexit aconteça. Não é o caso de Portugal. O nosso país manteve os 21 eurodeputados a que já tinha direito.

A engrossar as fileiras do Grupo Europa da Liberdade e da Democracia Direta estão também os eleitos do Movimento 5 Estrelas italiano. Este ficou em terceiro lugar, sendo ultrapassado tanto pelo parceiro de coligação, a Liga de Salvini, como pelo Partido Democrático de Zingaretti.

Na oitava posição, segundo as estimativas, projeções e resultados provisórios divulgados pelo Parlamento Europeu, está o Grupo da Esquerda. Este grupo eurodeputados de partidos como os portugueses Bloco de Esquerda e CDU, o grego Syriza ou espanhol Unidas Podemos. O Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde desce de 52 eurodeputados eleitos em 2014 para 38. Há ainda outros eurodeputados e, desses, alguns poderão não querer integrar qualquer grupo político, surgindo classificados como Não Inscritos.

Estas foram, segundo informações do próprio Parlamento Europeu, as eleições europeias com maior taxa de participação em 20 anos. O resultado é uma eurocâmara extremamente fragmentada e uma visão de duas Europas em confronto: a Europa dos progressistas e do Renascimento de Macron versus a Europa das nações e das fronteiras de Orbán, Salvini e Le Pen. Apesar de espalhados por vários grupos políticos, na configuração agora projetada, os líderes húngaro, italiano e francesa poderão, em última análise juntar-se num só grupo.

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