A cerveja estava morta há 220 anos e os monges ressuscitaram-na

A receita estava guardada na abadia e foram precisos quatro anos de investigação para conseguir o "milagre".

A última vez que na Abadia de Grimbergen, a norte de Bruxelas, se tinha produzido cerveja, D. João VI reinava em Portugal e os EUA eram um país recém-nascido. Foi há 220 anos. Esta semana anunciaram que estão de volta, usando a mesma antiga receita.

Mestres cervejeiros desde o século XII, com pergaminhos da produção de cerveja, ou não fossem monges e belgas, na Abadia de Grimbergen eram também precavidos. Num momento de aflição, durante a Revolução Francesa, antes que a biblioteca fosse destruída, esconderam os livros com as receitas em local secreto - um buraco escavado nas paredes. Dessa forma, conseguiram escapar a um incêndio que quase o destruiu.

Quando a abadia de Grimbergen voltou a funcionar os livros foram recuperados, mas a receita não voltou a ser produzida. Restava o nome, adotado nos anos 50 por uma companhia cervejeira.

Com o passar do tempo, deixaram de produzir cerveja, deixaram de a saber fermentar e, até há pouco tempo, nem sabiam onde estavam os livros. Localizado o paradeiro, perceberam que tinham deixado de saber ler as receitas, escritos em latim e holandês antigo.

Após quatro anos de investigação, foi possível recuperar a receita e ressuscitar a cerveja, com os ingredientes originais e os métodos de fabrico de antes.

O anúncio foi feito pelo subprior da abadia, Karel Stautemas, ao lado do presidente da câmara de Grimbergen e mais de uma centena de jornalistas e entusiastas, diz o The Guardian. Fica por explicar a natureza do entusiasmo: a cerveja, a história que a permitiu recuperar ou a riqueza de tais arquivos. Pode ser uma combinação dos três.

Enquanto servia o primeiro copo, o subprior Karel Stautemas explicou que os anos de investigação serviram para os monges experimentarem métodos usados para fabricar cerveja no mosteiro norbertino antes do incêndio que o arrasou por altura da Revolução Francesa, em 1798, e que viria a interromper um currículo de mais de seis séculos de experiência - a abadia de Grimbergen foi fundada em 1128. Contou, por exemplo, que os antecessores gostavam de inovar. Mudavam a receita a cada 10 anos.

A ressurreição da tradicional, e forte, Grimbergen

A nova Grimbergen é para beber com moderação, um ou dois copos são suficientes para a conhecer, advertiu Karel Stautemas, um dos 12 monges da abadia envolvidos no projeto, com a anuência do presidente da câmara da cidade. E "forte", ou, para quem prefere ajuizar por si, tem 10,8% de álcool.

A produção fica no mesmo lugar que a antiga cervejeira, e prometem os monges, seguindo os livros do século XII, com os métodos medievais usados na sua fermentação, vanguardistas para a época.

"Passámos horas a folhear os livros e descobrimos listas de ingredientes para cervejas fermentadas nos séculos anteriores. Quiseram saber quais os fornos, barris e ervas usadas. Há até uma lista das cervejas que eram produzidas séculos antes", disse o subprior. Contaram com a ajuda de muitos voluntários, acrescentou.

Atendendo às mudanças de gostos, só alguns elementos das cervejas de antes foram usados, visando poupar o palato dos apreciadores do século XXI. "Acho que as pessoas hoje não iam gostar do sabor da cerveja que se fazia então", disse Karel Stautemas.

Há dois séculos, "a cerveja normal era um pouco sem sabor, era como pão líquido", descreveu Marc-Antoine Sochon, o novo mestre cervejeiro de Grimbergen.

Mesmo assim, garantem, pretendem manter-se longe de aditivos artificiais, usar barris de madeira e um solo específico que imita o de há pelo menos 220 anos.

Esta nova cerveja antiga será comercializada em colaboração com a marca de cervejas Carlsberg, pelo mundo, e a Alken-Maes, no mercado belga.

Franceses e belgas são os principais alvos desta produção de 3 milhões de garrafas 33 cl que a cervejaria da abadia quer produzir por ano.

E já que chegámos aos números, saiba-se que o assunto está bem resolvido entre o clero, a julgar pelas palavras do subprior Karel Stautemas: o lucro reverte para o mosteiro, para peregrinações e para ajudar "aqueles que nos batem à porta à procura de ajuda". Entretanto, está a aprender a gerir a microcervejeira.

O mosteiro foi fundado no século XII e ardeu três vezes. Por ter ficado em cinzas, mas nunca ter desaparecido, faz-se representar com uma fénix.

Agora, até uma cerveja morta ressuscitaram.

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