A carta de amor de Timmermans ao Reino Unido: "Serás sempre bem-vindo de volta"

O vice-presidente da Comissão Europeia, que foi chefe da diplomacia holandesa, escreve um artigo no 'The Guardian' a lamentar o Brexit.

O vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, escreveu esta quinta-feira uma "carta de amor" ao Reino Unido, que publicou no jornal The Guardian, mencionando a sua ligação ao país e lamentando que os britânicos tenham decidido sair da União Europeia. "Parte-me o coração, mas respeito essa decisão", lê-se na missiva que termina deixando a porta aberta para o regresso. "Nós não nos vamos embora e tu serás sempre bem-vindo de volta."

O número dois de Ursula von der Leyen, que também tinha sido vice-presidente de Jean-Claude Juncker e foi chefe da diplomacia holandesa, conta que estudou numa escola inglesa quando vivia em Roma. "Estudar numa das tuas escolas tornou-me mais holandês do que nunca. Porque não há nada melhor para nos apercebermos da nossa própria cultura do que estar imersos noutra", lê-se na carta.

"Conheço-te. E amo-te. Pelo que és e pelo que me deste. Sou como um velho amante. Conheço as tuas forças e as tuas fraquezas. Sei que podes ser generoso, mas também avarento. Sei que acreditas que és único e diferente. E claro que és, de muitas maneiras, mas talvez menos do que pensas. Nunca vais deixar de te referir a nós como o "continente". Ajuda-te a criar a distância que achas que precisas. Mas também te impede de ver que todos precisamos de um pouco de distância entre nós. Todas as nações europeias são únicas. As nossas diferenças são uma fonte de admiração, surpresa, desconforto, incompreensão, ridículo, caricatura e sim, amor."

"Conheço-te. E amo-te. Pelo que és e pelo que me deste. Sou como um velho amante. Conheço as tuas forças e as tuas fraquezas"

Timmermans explica que nos melhores momentos as diferenças são positivas, "tornam-nos na família mais criativa, produtiva, pacífica e próspera". Contudo, nos piores momentos, as diferenças "são manipuladas para nos instilarem medo, para propagar superioridade, para colocar um membro da família contra outro". O vice-presidente da Comissão Europeia defende que "como família o nosso dever é promover os melhores momentos e manter os piores afastados", alegando que até agora a União Europeia tem sido a ferramenta mais bem-sucedida para atingir esse objetivo.

"Decidiste sair. Parte-me o coração, mas respeito essa decisão", escreve Timmermans, dizendo-se contudo triste por ver que a decisão que os britânicos tomaram está a causar dor aos próprios britânicos, que sempre estiveram divididos sobre os temas europeus, e que isso não vai acabar em breve.

O Brexit está marcado para 31 de janeiro, começando depois o período de transição que culmina a 31 de dezembro, depois de o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, ter inscrito na lei a proibição de pedir um adiamento do prazo. Isso significa que britânicos e europeus têm menos de um ano para renegociar um acordo de comércio que sirva de base à relação futura, sob pena de ver esta ficar à mercê dos tratados mais latos da Organização Mundial de Comércio.

"Nós não nos vamos embora e tu serás sempre bem-vindo de volta"

"Verdade seja dita, senti-me verdadeiramente magoado quando decidiste sair. Três anos depois, sinto-me triste que um membro da nossa família queira romper os laços. Mas, ao mesmo tempo, encontro conforto no pensamento de que as ligações da família nunca podem ser verdadeiramente rompidas. Nós não nos vamos embora e tu serás sempre bem-vindo de volta", conclui.

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