A "cara simpática" que pode dar poder à extrema-direita austríaca

Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, teve 35% dos votos na primeira volta das presidenciais apresentando-se como um "protetor da Áustria". Segunda volta é no dia 22

A mensagem é a mesma de qualquer partido de extrema-direita europeu - anti-imigração, anti-islão e eurocético - mas a forma como Norbert Hofer a transmite, com um sorriso, de forma educada e sem levantar a voz, fez toda a diferença entre os eleitores austríacos. De tal forma que o candidato do Partido da Liberdade (FPÖ) surpreendeu ao vencer a primeira volta das presidenciais da Áustria, que decorreram a 24 de abril, ficando 14 pontos à frente daquele que será o seu adversário a 22 de maio, o ex-líder dos Verdes, Alexander Van Bellen.

"Norbert Hofer criou uma nova tendência para o FPÖ ao ser tão inacreditavelmente moderado no seu tom e aparecer como tão simpático em público. Encaixa na estratégia do FPÖ de se dirigir ao eleitorado de centro", disse à AFP o politólogo austríaco Thomas Hofer (sem relação com o candidato). Para alguns comentadores, ele é a "cara simpática" da extrema-direita, para outros um extremista "em pele de cordeiro".

Hofer nasceu a 2 de março de 1971 em Vorau, 130 km a sul de Viena, e estudou engenharia aeronáutica, tendo trabalhado para a companhia aérea Lauda Air. A paixão pelo ar quase o deixou numa cadeira de rodas, depois de um acidente quando fazia parapente em 2003, só tendo conseguido voltar a andar (usa uma bengala) depois de meses de fisioterapia.

Casado em segundas núpcias, tem quatro filhos (dois do primeiro casamento) e causou polémica quando publicou no Instagram uma foto com eles numa carreira de tiro. "Adoro disparar", disse Hofer, que tem uma pistola Glock e diz perceber o aumento do número de armas no país "tendo em conta as atuais incertezas".

Mais de duas décadas de política

O pai era um vereador da FPÖ e Hofer resolveu entrar para a política em 1994, tendo sido conselheiro de campanha do partido no estado federado da Burgenland. Deputado desde 2005, é atualmente o terceiro presidente do Parlamento austríaco. No currículo tem ainda formação em comunicação e uma passagem pelo gabinete de imprensa do FPÖ, o que explica o à vontade com que passa a mensagem da extrema-direita.

Depois de Heinz-Christian Strache ter assumido a liderança do partido, em 2005, Hofer tornou-se num dos seus aliados, aconselhando-o a adotar uma retórica mais moderada (depois de inicialmente o FPÖ ter reintroduzido slogans racistas) focando-se na perda do poder de compra dos austríacos, por causa da crise económica.

"Os centros de emprego austríacos devem atender primeiro os austríacos", indicou no comício final, antes da primeira volta. "A Áustria não é a segurança social de meio planeta", acrescentou, defendendo ser necessário "proteger as fronteiras" dos refugiados. A sua posição em relação à política migratória foi o que atraiu muitos eleitores, descontentes com a decisão do governo de acolher 37 500 refugiados este ano (depois de em 2015 ter aberto as portas a 90 mil).

Entretanto, o Parlamento já aprovou medidas mais restritivas de asilo. "O Islão não é parte da Áustria e se mantivermos a nossa política, no ano de 2050 metade dos menores de 12 anos do país serão muçulmanos. Não quero que a Áustria seja um país de maioria muçulmana."

Segunda volta

Com 45 anos, Hofer considerava-se demasiado jovem para ser candidato a presidente da Áustria, mas acabou por ceder aos apelos do partido no qual milita há mais de duas décadas. Nas sondagens, tinha no máximo 24% das intenções de voto e surgia atrás de Van Bellen, que chegou a estar a uma distância de nove pontos percentuais. Mas nas urnas, os eleitores trocaram-lhes as voltas e o professor de economia de 72 anos e antigo líder dos Verdes (que concorreu como independente, mas com o apoio financeiro do partido) não foi além dos 21,3%. Já Hofer, conseguiu 35%, naquele que foi o melhor resultado para o FPÖ a nível federal desde a sua criação, em 1956. A única sondagem feita até agora para a segunda volta dá um empate a 50% entre ambos.

O poder do presidente austríaco - atualmente Heinz Fischer - é principalmente simbólico, mas inclui a capacidade de bloquear as nomeações do governo e de dissolver o Parlamento. Hofer já prometeu usar todos os seus poderes para forçar a renúncia do executivo, se este não fizer o seu trabalho, o que poderia levar à antecipação das eleições, previstas só para 2018. Nas próximas legislativas, o FPÖ poderá mesmo tornar-se no mais votado, graças à deceção dos eleitores com o chanceler Werner Faymann, do Partido Social Democrata (SPÖ), que governa numa grande coligação com os conservadores do Partido do Povo (ÖVP). Os candidatos destes, que alternam no poder na Áustria desde 1945, tiveram 11% cada na primeira volta das presidenciais.

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