A cada 25 minutos está a morrer um sírio

Aviação de Bashar al-Assad atacou hospital de Aleppo e matou último pediatra na segunda cidade síria. Damasco quer recuperar controlo da localidade que perdeu em 2012.

Cerca de 30 pessoas, entre as quais três crianças e o último pediatra ainda presente na cidade de Aleppo, perderam a vida num ataque aéreo do regime de Damasco, que atingiu uma parte da cidade sob controlo das forças da oposição e reduziu a escombros um hospital Médicos sem Fronteiras (MSF), anunciou ontem a organização, indicando que o ataque ocorrera na noite de quarta para quinta.

As operações aéreas das forças fiéis do regime de Bashar al-Assad sobre os bairros na região leste da cidade, sob controlo das milícias da oposição, prolongam-se desde há seis dias e integram uma operação mais vasta - Damasco procura recuperar o controlo total da segunda cidade do país, que se viu obrigado a ceder em julho de 2012.

Em resposta, as forças da oposição bombardearam os bairros ocidentais de Aleppo, onde se encontram as posições governamentais, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), causando 18 mortos. A atmosfera em Aleppo é de combate generalizado, "ouvem-se explosões de morteiros e bombas por toda a parte, os aviões sobrevoam a cidade", sintetiza num comunicado o responsável local da Cruz Vermelha, Valter Gros, citado pelas agências. "Nenhum bairro está incólume. Os residentes vivem em risco permanente. Não há ninguém que não tema pela vida", sublinha aquele responsável.

O ataque ao hospital da MSF, além do pediatra e das três crianças, vitimou ainda outros quatro elementos do pessoal: dois médicos e dois enfermeiros. Na conta de Twitter, a MSF considerou "revoltante" o bombardeamento, que destruiu "um hospital essencial para Aleppo" nas palavras do chefe da missão desta ONG na cidade.

Testemunhos obtidos a partir de Aleppo referiam "não ser possível identificar os corpos. Alguns estão carbonizados, outros não têm cabeça ou o rosto está desfigurado", disse às agências um elemento das equipas de proteção civil.

A guerra civil na Síria, que dura há mais de cinco anos, já causou, pelo menos, 270 mil mortos, 6,6 milhões de deslocados internos e 4,7 milhões de refugiados em países vizinhos, dos quais 2,6 milhões na Turquia e cerca de um milhão no Líbano, segundo números sintetizados pela ONG Mercy Corps em março.

Aleppo é o mais recente objetivo do regime de Assad, que recuperou a iniciativa militar no terreno após a intervenção da força aérea russa desde finais de setembro de 2015, tendo sido ontem publicado um editorial no jornal oficial Al Watan, a expressar esse desígnio. "Não é segredo para ninguém que o exército sírio e os seus aliados planearam esta batalha determinante para purificar Aleppo dos terroristas [designação do regime para toda a oposição]. Ela está por poucos dias e será fulminante", lê-se no texto citado pelas agências internacionais.

Reflexo da escalada dos combates em Aleppo, que comprometeram de "forma grave" a trégua decretada a 27 de fevereiro, o representante das Nações Unidas às conversações de Genebra, Staffan de Mistura, notava ontem que, "nas últimas 48 horas, um sírio morre a cada 25 minutos e um outro é ferido a cada 13 minutos". Para de Mistura, os Estados Unidos e a Rússia devem desencadear uma "iniciativa urgente" para salvar as negociações, neste momento boicotadas pela grande maioria dos grupos da oposição. Para o representante da ONU, "não há nenhuma razão para que aqueles dois países (...) não sejam capazes de redinamizar aquilo que eles próprios criaram". De Mistura disse ainda que o ataque ao hospital de Aleppo "parece ter sido deliberado".

Além dos combates na cidade, onde nos últimos sete dias se estima terem morrido 200 pessoas, toda a província se encontra mergulhada em confrontos, com os mais violentos a sucederem no Norte. Segundo o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahmane, aqui os combates sucedem, principalmente, entre milícias curdas e islamitas. Entre quarta-feira e o final do dia de ontem teriam morrido 64 combatentes, 53 islamitas e 11 curdos

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