A América de Trump sempre existiu

O DN desafiou Luís Nuno Rodrigues, doutorado em História Americana pela Universidade do Wisconsin, a dar a sua visão das eleições americanas e, em especial, do fenómeno Donald Trump.

A grande surpresa da primeira fase das eleições presidenciais norte-americanas foi o surgimento da candidatura de Donald Trump e o modo como este se conseguiu impor nas primárias do Partido Republicano, conquistando cerca de 70% dos votos dos delegados à convenção republicana. A vitória de Trump foi tanto mais inesperada quanto o milionário norte-americano parecia contar à partida com um conjunto de adversários de peso oriundos do próprio Partido Republicano, como o senador Ted Cruz ou o antigo governador da Florida, Jeb Bush.

A candidatura de Donald Trump poderá parecer, numa primeira análise, uma novidade na história política norte-americana e um produto específico nas condições sociais e económicas do século XXI. No entanto, muitos dos seus traços característicos estiveram presentes noutros momentos da história da nação americana. Desde logo, o chamado "populismo" que caracteriza o seu discurso político e que foi capaz de atrair, para já, um setor muito significativo do eleitorado republicano. Donald Trump e a sua campanha parecem encaixar bem na definição do historiador Michael Kazin, autor do já clássico livro The Populist Persuasion (1995). Por populismo entende-se não tanto uma ideologia coerente ou um movimento social específico, mas antes um "modo flexível de persuasão" que sabemos ter raízes históricas nos Estados Unidos que remontam, pelo menos, ao final do século XIX. Essa tradição populista é agora recuperada pelo homem a quem Michael Lind chamou o "populista perfeito" e que promete fazer a América "great again".

O que também parece inequívoco é que o discurso populista tem tendência a emergir na vida política das nações na sequência de períodos de crise económica e subsequentes alterações sociais. A relação entre estes fenómenos foi muito clara nos Estados Unidos do final do século XIX e na Europa dos anos 1920 e 1930 e foi recentemente abordada num estudo feito por vários economistas alemães e publicado na European Economic Review. Os autores (Funke, Schularick e Trebesch) analisaram as consequências políticas das crises financeiras nos últimos 140 anos com base em 800 atos eleitorais que tiveram lugar em vinte economias avançadas. A tendência, concluíram os autores, foi sempre o aumento da instabilidade e da incerteza política, a crescente polarização e a atração dos eleitores pela retórica populista e de extrema-direita.

Por conseguinte, para além das suas raízes históricas, teremos de compreender a reemergência do populismo na América e também na Europa como uma consequência da grave crise económica que se abateu sobre o chamado "Ocidente" desde o final da década passada. Não nos esqueçamos de que o populismo tem estado em crescendo não apenas nos Estados Unidos mas também na Europa, onde Marine Le Pen conquistou um terço dos lugares franceses do Parlamento Europeu e Norbert Hofer recebeu 49% dos votos nas presidenciais austríacas. Em contextos de crise, de dificuldades económicas e de rápidas transformações sociais, determinados grupos sociais tornam-se particularmente vulneráveis e veem frustradas as suas expectativas. O discurso de Trump parece dirigido em particular a um desses grupos, os chamados "hillbillies", bem retratados no livro recente de J.D. Vance (Hillbilly Elegy). Falamos de uma classe operária geralmente de ascendência "escocesa e irlandesa", sem formação universitária e profundamente afetada pela deslocalização do trabalho industrial, pela crescente globalização e, mais recentemente, pela crise económica. Como escreveu a revista The Atlantic, são "male, white, and poor" que se sentem marginalizados pelo sistema político americano e que tendem a culpar Washington e o governo federal das causas dos seus problemas.

É igualmente uma das mensagens mais insistentemente repetidas por Trump: <em>Washington</em><em> is broken</em><em>

Este é aliás um dos tópicos comuns aos discursos populistas: uma forte crítica ao funcionamento dos sistemas políticos e dos partidos tradicionais. É igualmente uma das mensagens mais insistentemente repetidas por Trump ("Washington is broken)". Acresce que, no caso específico dos Estados Unidos, as críticas lançadas por Trump ao sistema político e a Washington acabam por ir ao encontro de uma outra tradição discursiva muito enraizada em determinadas regiões dos Estados Unidos que é a tradição "antifederalista". O discurso "antifederalista" evoluiu nos anos mais recentes para uma postura anti-Estado, muito presente nos setores políticos da direita republicana. As acusações contra Washington fazem eco de um discurso latente que existe nos Estados Unidos há mais de dois séculos, contra o governo federal e contra o modo como as instituições federais se "intrometem" nas esferas próprias dos Estados e na vida quotidiana dos cidadãos americanos, cobrando impostos, legislando sobre a interrupção voluntária da gravidez, procurando proibir a utilização de armas. O discurso de Donald Trump surge frequentemente carregado de tiradas contra o establishment norte-americano, contra uma Casa Branca demasiado liberal que procura impor os seus valores ao resto do país, contra um Congresso facilmente corruptível, contra um Supremo Tribunal onde os juízes liberais podem fazer valer os seus pontos de vista.

Por exemplo, aos olhos do potencial eleitorado de Trump é de Washington que vem a tão incomodativa vaga de "politicamente correto", contra a qual se manifestou recentemente o ator Clint Eastwood, e que aponta para a tolerância, o respeito das diferenças, a superação das divisões raciais. Ora, Trump tem-se manifestado justamente no sentido contrário, nas posições que assume e até na linguagem que utiliza: parece ser um candidato zangado que apela a um eleitorado zangado e que durante as primárias foi capaz de ridicularizar um jornalista com problemas físicos, criticar uma mulher pelo seu aspeto, ou um juiz por ser "hispânico", não se demarcando também do apoio que lhe foi manifestado por um antigo líder do Ku Klux Klan.

O populismo de Donald Trump faz ainda eco de uma outra tradição política e social norte-americana: o anti-intelectualismo. O facto, que tanto surpreendeu o Presidente Obama num discurso proferido no passado mês de maio, na Rutgers University, foi analisado por Richard Hofstadter, num livro publicado em 1963 e intitulado precisamente Anti-intellectualism in American Life. O anti-intelectualismo acompanhou o discurso populista ao longo da história e foi muito evidente, por exemplo, nos anos 1950, aquando do chamado McCarthyism, quando intelectuais, professores e artistas, entre outros, foram perseguidos por alegadas ligações esquerdistas e comunistas pelo tristemente célebre House Un-American Activities Committee. Trump afirmou já que não lê muito e que mesmo assim consegue tomar decisões mais corretas do que aqueles que estão sempre a estudar. Max Boot, antigo conselheiro de republicanos como John McCain, Mitt Romney e Marco Rubio, desenvolveu este tema num texto publicado recentemente no The New York Times ("How the Stupid Party Created Donald Trump"), argumentando que a candidatura de Trump acaba por ser o produto de vários anos de "anti-intelectualismo" no seio do Partido Republicano.

O anti-intelectualismo acompanhou o discurso populista ao longo da história e foi muito evidente, por exemplo, nos anos 1950, aquando do chamado McCarthyism

O nativismo tem sido outro dos adjetivos associados ao discurso político de Donald Trump. Uma vez mais não estamos em presença de uma novidade na história política americana. The Party of Fear é o título de um dos livros do historiador David Bennett que nos relembra precisamente diversos momentos da história norte-americana em que se considerou que os problemas internos eram provenientes de elementos vindos do exterior: fossem eles os imigrantes irlandeses, russos ou mexicanos ou os imigrantes judeus, católicos ou, mais recentemente, muçulmanos. Trump tem sido claro a este respeito, para gáudio dos seus apoiantes: os mexicanos deveriam ficar do outro lado do muro, os muçulmanos deveriam ser proibidos de entrar nos Estados Unidos, os imigrantes sem documentos deveriam ser deportados.

Acrescente-se ainda que Donald Trump tem sabido associar todos estes tópicos ao sentimento de insegurança experimentado por um segmento significativo do eleitorado republicano. Para 35% do eleitorado republicano, de acordo com dados de junho de 2016, a principal preocupação é o terrorismo, uma percentagem superior às preocupações de 27% do eleitorado republicano com o emprego e a economia. Trump promete uma América mais segura e diz-se aberto a utilizar armas nucleares, ao mesmo tempo que, no seu já célebre discurso de Ohio, considerou o surgimento do Estado Islâmico como um resultado direto das decisões políticas tomadas por Barack Obama e Hillary Clinton. Podendo este discurso ser eficaz em termos eleitorais, ele não parece convencer o establishment republicano da segurança nacional, como o comprova a recente carta assinada por 50 experientes políticos no domínio da segurança nacional e da política externa, considerando que Trump, caso seja eleito, será o presidente mais "imprudente" da história dos Estados Unidos.

Por fim, é necessário compreender que no caso dos Estados Unidos, onde o sistema partidário é bastante sólido e as alternativas difíceis de construir, o populismo do século XXI emergiu no seio do próprio Partido Republicano. Se olharmos para a história recente deste partido, verificamos também que ele tem vindo progressivamente a ser dominado, pelo menos em termos da agenda e do discurso, por franjas mais radicais que já conheceram diversos arranjos institucionais. A eleição de inúmeros congressistas do chamado Tea Party e a candidatura de Sarah Palin a vice-presidente em 2008 são disso bons exemplos. Aliás, se olharmos para as propostas dos restantes candidatos republicanos aquando das eleições primárias, verificamos que elas não eram significativamente diferentes do posicionamento de Trump face aos temas mais prementes, desde a imigração e a segurança até ao aquecimento global e ao sistema de saúde. Mesmo assim, durante as primárias, Trump beneficiou da fragmentação do campo republicano (há quem fale num suicídio do establishment republicano), devido à existência de muitos candidatos, sem que nenhum emergisse com força suficiente para protagonizar uma candidatura vencedora.

Estamos ainda a três meses das eleições e as sondagens mais recentes parecem indicar uma relativa crise na candidatura de Donald Trump. Como se, nas últimas semanas, as características de Trump e do seu discurso se estivessem a voltar contra ele. Algumas das suas afirmações mais recentes - desde a crítica aos pais do jovem americano muçulmano morto em combate, até ao pedido de expulsão de um bebé durante um comício, passando pela afirmação de que Obama foi o fundador do Estado Islâmico - não devem ser entendidas como gaffes mas antes como mensagens cuidadosamente dirigidas aos seus potenciais eleitores. No entanto, podemos interrogar-nos: será o discurso de Trump eficaz para captar um setor significativo do eleitorado republicano e para vencer as primárias, mas não suficiente para fazer as pontes e construir a coligação necessária para vencer as eleições presidenciais que, recorde-se, são eleições indiretas e disputadas estado a estado? Em novembro de 2016 tudo se decidirá e saberemos quanto pesa a América de Trump. A sua dinâmica vencedora pode ter-se esvaído após a realização das convenções dos dois partidos e, em meados de Agosto, as sondagens parecem apontar para uma vitória de Hillary Clinton. No entanto, é muito cedo para certezas definitivas e vai valer a pena acompanhar com atenção o futuro político dos Estados Unidos. Porque, mesmo que Trump não ganhe as eleições, a América de Trump não deixará de existir.

Centro de Estudos Internacionais, ISCTE-IUL

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