95% dos mortos por coronavírus evitam-se com restrições, diz estudo

Resumo rápido do primeiro grande estudo sobre a covid-19, feito pelo Imperial College de Londres, indica que tudo depende do momento da introdução de medidas restritivas e da forma como se cumpram. Portugal está na média.

Sem medidas, a covid-19 pode fazer 7 mil milhões de infetados e 40 milhões de mortes no mundo. Com medidas, restritivas e atempadas, o impacto pode reduzir-se, salvando-se 30 a 38 milhões de vidas. Ou seja, mais de 95%. Tudo depende do momento da sua introdução e da forma como se cumpram. O intervalo de valores é gigantesco e é natural que assim seja, tantas são as variáveis que dependem dos decisores e dos próprios cidadãos. Este é um resumo extremamente rápido do mais recente estudo do MRC Centre for Global Infectious Disease Analysis, do Imperial College de Londres.

Um resumo demasiado rápido - é importante olhar em detalhe as várias hipóteses, mas será uma ferramenta útil para decisores por todo o mundo. Mas esta é uma das primeiras tentativas para perceber o impacto da COVID-19 em todo o mundo, ainda que com base nos cenários vividos na China e em alguns dos países europeus mais afetados, certamente atípicos quando comparados com os restantes.

Algumas coisas serão constantes: o aumento do risco de morte com a idade e com a carga de doença - em particular, hipertensão, diabetes e doença coronária. No entanto, há muitos outros fatores que variam de país para país. Os autores estão cientes disso, e tentam adaptar aos diferentes contextos, ajustando para as estruturas etárias das populações, para os rendimentos e condições de vida, para o tamanho dos agregados familiares e hábitos sociais vigentes, e para e capacidade dos sistemas de saúde.

Países mais jovens não são beneficiados, por serem pobres

Por exemplo: apesar de os países de menor rendimento serem normalmente mais jovens, essa vantagem, em termos de risco, é anulada por outros problemas. A menor capacidade dos sistemas de saúde, muitos dos quais não têm recursos para manter uma quantidade significativa de doentes ventilados ou com oxigénio, duas ferramentas básicas para combater as consequências do vírus SARS-CoV2, significará ajudar menos os que teriam possibilidade de não morrer se pudessem ser ajudados.

As crianças e jovens dos países de menores rendimentos tendem a ter mais doenças, sobretudo infecciosas, e isso tornará mais provável que sofram um impacto mais grave da covid-19 do que aquele que se verificou, até agora, em crianças e jovens de países como Itália, China ou Estados Unidos. Por fim, nos países de menor rendimento os agregados familiares são maiores, o que torna mais frequentes os contactos entre jovens e pessoas acima dos 65 anos (e, portanto, pertencentes a grupos de risco). Os autores deste estudo chamam mesmo ao agregado familiar um "contexto chave".

Depois das devidas ressalvas, os autores exploram um total de quatro cenários, que aqui listamos do menos para o mais restrito: epidemia não-mitigada, onde não são tomadas quaisquer medidas; mitigação com distanciamento social populacional; mitigação com distanciamento social populacional (igual à anterior) mas com medidas mais apertadas para grupo acima de 70 anos; supressão, com implementação de distanciamento social intenso. Todas estes cenários hipotéticos contemplariam também vigilância e isolamento dos casos positivos.

As previsões se nada for feito são 7 mil milhões de infetados e 40 milhões de mortos. Os autores fazem ainda a ressalva de que estas previsões de mortalidade são uma provável subestimação nos contextos de menor rendimento. Estes são números bons para perceber o chamado "paradoxo das epidemias": quando se tomam medidas, as consequências tornam-se bastante menos graves, e isso dá a sensação de as medidas terem sido exageradas, quando na verdade foi precisamente por se terem tomado medidas que as consequências se reduziram. É apenas por isso que vale a pena reter estes números, já que quase todos os países, neste fase, estão a tomar algum tipo de medidas de combate à COVID19.

Nenhum sistema de saúde está preparado

As estimativas para cenários com mais medidas tomadas apontam para reduções substanciais na mortalidade. O modelo introduz aqui uma nuance interessante: duas estimativas diferentes da mortalidade para o cenário de supressão (o cenário mais restritivo dos 4), consoante as medidas têm início a partir das 0,2 mortes por 100 mil habitantes por semana, ou a partir das 1,6 mortes por 100 mil habitantes por semana (para referência, na semana de 19 a 25 de março Portugal teve cerca de 0,6 mortes por 100 mil habitantes). Quando as medidas são tomadas apenas a partir das 1,6 mortes/100 mil habitantes, estimam-se 10 milhões de mortes a nível global; se a partir das 0,2 mortes/100 mil habitantes, menos de 2 milhões de mortes.

Estes números são úteis, não para seguir em pormenor, mas para perceber as diferenças de magnitude que a implementação de medidas podem causar. O estudo avança alguns números para Portugal, que estão disponíveis para consulta online, mas deixa a seguinte mensagem: "Não é possível prever com qualquer certeza o número exato de casos para qualquer país ou a mortalidade e carga de doença precisas que se farão sentir.".

As mensagens essenciais a tirar são duas. A primeira: mesmo nos cenários com medidas mais restritivas, será difícil escapar a um colapso temporário dos sistemas de saúde, com qualquer dos cenários a estimar um número de doentes a necessitar de cuidados intensivos muito superior à capacidade dos países. O estudo afirma mesmo peremptoriamente que isso será assim em todos os países para todos os cenários de mitigação, e que a única hipótese que avançam para o tentar evitar é iniciar a supressão nos primeiros momentos dos surtos - momento que a maior parte dos países provavelmente já ultrapassou.

Para os países de maior rendimento, o estudo parece sugerir que se use o número de mortes semanais ajustadas à população para decidir a contemporização das medidas; para os países de menor rendimento, uma vez que as populações são mais jovens, é sugerido seguir o número de casos confirmados.

Tudo depende das medidas... e dos cidadãos

A segunda mensagem não aparece explicitada no artigo, mas parece ser uma conclusão lógica do que ali está: a mortalidade e a carga de doença causadas pela COVID19 dependerá, essencialmente, das características estruturais das sociedades, como a sua estrutura etária e os hábitos culturais, da capacidade dos sistemas de saúde, e da capacidade dos decisores tomarem as medidas certas atempadamente e dos cidadãos as cumprirem.

Ao longo do estudo são assumidos valores para o impacto das medidas de mitigação e supressão, mas os valores reais dependem de as pessoas serem eficazes a promover o seu distanciamento e a reduzir o seu contacto social com outros. É essencial "testar, testar, testar", como recomendou o Diretor-Geral da OMS, proceder ao isolamento dos casos confirmados, para quebrar as cadeias de contágio, e adotar estratégias gerais de distanciamento social rigorosamente observado pela população.

*estudante de Medicina da UP

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