5 Estrelas brilha mas eleições deixam tudo em aberto

De acordo com as sondagens à boca das urnas, o Movimento 5 Estrelas é o mais votado, mas coligação de direita vence. Esquerda sofre derrota. E todos ficam longe da maioria.

O dia foi marcado por longas filas, alguns incidentes motivados pelo novo sistema eleitoral e pelas medidas antifraude. Mas quando às 23:00 (menos uma em Lisboa) as urnas fecharam em Itália e foram conhecidas as primeiras sondagens de umas eleições em que os 46 milhões de eleitores foram chamados a escolher a nova Câmara dos Deputados e o novo Senado, o cenário era o que se esperava: o Movimento 5 Estrelas foi o partido mais votado, a coligação de direita venceu e a esquerda sofreu uma pesada derrota. Mas sem ninguém ter chegado sequer perto da maioria (calculada entre os 40% e os 45%) que permitiria um governo estável. Agora adivinham-se longas e difíceis negociações entre as várias forças políticas.

Com 29,5% a 32,5% dos votos - segundo a sondagem à boca das urnas da RAI - o 5 Estrelas de Luigi Di Maio consegue ser a formação que mais votos atraiu. Fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo, o Movimento defende a democracia direta, aposta nas novas tecnologias e destaca-se pela posição anti-União Europeia. Dificilmente catalogável como de esquerda ou de direita, o 5 Estrelas tem rejeitado aliar-se a outros partidos. Mas nas últimas semanas, Di Maio abriu uma porta. Resta saber se se vai virar para a esquerda ou antes para uma aliança com a Liga Norte. "Agora todos vão ter de vir falar connosco", reagiu ontem o deputado do 5 Estrelas Alessandro Di Battista, que assistiu aos resultados com Di Maio.

Apesar do resultado do 5 Estrelas, a vitória deverá ir para a coligação de direita que junta o Força Itália de Silvio Berlusconi, a Liga Norte de Matteo Salvini e os Irmãos de Itália de Giorgia Meloni. Na sondagem da RAI esta consegue entre 33% e 36% dos votos. A grande incógnita aqui é saber qual o partido mais votado dentro da coligação. Todas as sondagens divulgadas à boca das urnas dão um empate entre Força Itália e Liga. Ora o acordo entre os dois partidos prevê que o mais votado indique o primeiro-ministro. Antonio Tajani é a escolha do Força Itália, uma vez que Berlusconi está proibido pela justiça de se candidatar. Salvini avançará pela Liga. No Twitter, o líder escreveu "A minha primeira palavra: OBRIGADO!"

Resta saber também se a coligação de direita resiste às negociações que se avizinham. Afinal um cenário de bloco central entre Força Itália e Partido Democrático de Matteo Renzi não é de excluir. Uma opção que com certeza agradaria mais à União Europeia do que um governo liderado por Salvini, conhecido pelas declarações anti-islão, anti-imigração e anti-Europa.

A coligação de esquerda consegue 24,5% a 27,5%, com o PD a ficar-se pelos 20% a 23%. Longe da maioria e uma pesada derrota para Renzi que em dezembro de 2016 se demitiu após a derrota no referendo constitucional. Mesmo que contasse com o apoio do Livres e Iguais do ex-juiz Pietro Grasso, que saiu do PD para criar o seu próprio partido.

A campanha para as eleições ficou marcada por um tom duro, sobretudo sobre a imigração. Os movimentos neofascistas multiplicaram os comícios, o que provocou confrontos com militantes de extrema-esquerda. O pico da tensão surgiu quando um membro da extrema-direita disparou contra um grupo de africanos, ferindo seis nigerianos, em Macerata, no centro.

As longas filas que se registaram ao longo do dia eram mais reveladoras da complexidade do processo de voto do que de uma afluência excecional às urnas. Além do próprio sistema eleitoral - em que um terço dos lugares é atribuído por votação uninominal e dois terços pelo sistema proporcional -, as novas medidas anti-fraude introduzidas neste escrutínio acabaram por tornar o processo mais demorado. Em Roma, os eleitores foram aconselhados a não deixar o voto para o último momento. Em Palermo, 200 mil boletins tiveram de ser impressos novamente depois de terem sido detetados erros, o que atrasou a abertura de algumas assembleias de voto.

Se a larga maioria dos líderes políticos italianos votaram sem incidentes, Silvio Berlusconi teve direito a um protesto das FEMEN quando foi às urnas em Milão. Uma ativista do grupo subiu a uma mesa, em tronco nu, e com a mensagem "Berlusconi, o teu tempo acabou" escrita no peito. O líder do Força Itália limitou-se a baixar os olhos e sorrir. Já em 2013 as FEMEN tinham protestado contra Berlusconi, que acusam de "explorar as mulheres" e de "ataques misóginos". O ex-primeiro-ministro brincou com o protesto de ontem. "O meu tempo acabou? Ela quer dizer que já não há filas, certo?", disse aos jornalistas.

O primeiro a votar foi o presidente Sergio Mattarella, logo às 8.35 em Palermo. E até protagonizou um episódio caricato: esqueceu-se de recuperar o documento de identificação, que acabou entregue aos seus guarda-costas. Seguiram-se o atual primeiro-ministro Paolo Gentiloni, que votou em Roma. Também Renzi, Salvini, Meloni e Luigi Di Maio votaram ainda durante a manhã.

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