18 tiroteios em escolas em 2018. É desta que os EUA mudam leis?

Trump falou sobre ataque na Florida, no qual morreram 17 pessoas, sem nunca falar em armas. Sobreviventes apelam ao Congresso, mas este é conhecido pela sua inação no assunto

"Estamos empenhados em trabalhar com os líderes estaduais e locais para ajudar a proteger as nossas escolas e enfrentar a difícil questão da saúde mental", disse ontem Donald Trump, na sua primeira aparição pública desde o tiroteio numa escola da Florida, no qual um ex-aluno atirou sobre estudantes e funcionários, matando 17 pessoas. O presidente sublinhou a necessidade de "um plano que funcione, que não nos faça apenas sentir melhor". Mas não pronunciou uma única vez a palavra arma, deixando de fora o controverso debate que divide os EUA sobre o controlo de armas.

Horas antes, Trump tinha falado sim nos "muitos sinais" de que o suspeito era "mentalmente perturbado", apelando aos americanos para denunciar estas pessoas às autoridades. No entanto, é preciso recordar que um dos primeiros atos do republicanos como presidente, datado de 28 de fevereiro de 2017, foi reverter a ordem executiva de Barack Obama sobre controlo de armas, que o democrata tinha assinado no último ano da sua presidência. Este decreto de Obama tornava obrigatório que a Segurança Social tornasse pública a informação sobre doentes mentais seus beneficiários. Informação que, desta forma, passaria a constar da verificação de antecedentes, o que na prática impediria pessoas com doenças mentais de comprar armas.

Ontem, Obama usou o Twitter para dizer que "não somos impotentes" para impedir a violência armada, acrescentando que "cuidar de nossos filhos é o nosso primeiro trabalho". "E até que possamos dizer honestamente que estamos fazendo o suficiente para mantê-los a salvo de danos, incluindo as leis de segurança de armas muito comuns e de bom senso que a maioria dos americanos querem, então temos que mudar", escreveu o antigo presidente, que quis impor um maior controlo de armas nos Estados Unidos após o massacre de Sandy Hook, em 2012.

O governador da Florida foi mais direto que Trump, falando especificamente em armas, defendendo que alguém com uma doença mental não deve ter acesso a uma. Rick Scott adiantou ainda que irá falar com congressistas e senadores nas próximas semanas para perceber o que pode ser feito para garantir aos pais que os seus filhos estão seguros na escola. "Ninguém quer que isto aconteça outra vez", afirmou o republicano. O senador da Florida Bill Nelson também assumiu a mesma linha de discurso: "A dada altura temos de dizer basta", declarou o democrata. "Uma AR-15 não é para caçar. É para matar", prosseguiu, referindo-se à arma de assalto usada na quarta-feira por Nikolas Cruz, de 19 anos, no ataque à Marjory Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Florida. Cruz foi detido e acusado de 17 crimes de homicídio premeditado.

Este tiroteio foi o 18.º numa escola nos Estados Unidos só este ano, segundo a Everytown Research, que contabiliza tiroteios em escolas e universidades desde 2013. E o segundo mais mortífero num estabelecimento de ensino público desde o massacre de Sandy Hook, em 2012, no qual morreram 20 alunos da primária e seis educadores. No ano passado registaram-se 65 ataques em escolas, 7 deles até 14 de fevereiro. De acordo com a Everytown Research, já tiveram lugar 291 tiroteios em escolas desde 2013, ou seja uma média de um por semana. Os relatórios policiais dos ataques em escolas deixam muitas vezes de fora a origem das armas usadas, mas, segundo os media norte-americanos grande partes delas vêm de casa dos atiradores. Um estudo da RAND Corporation mostra que mais de 22 milhões de crianças nos EUA vivem em casas onde existem armas. Uma outra sondagem do Pew Research Center refere que apenas 54% dos donos de armas com crianças com menos de 18 anos a viver na mesma casa dizem que estas estão num local fechado.

Tal como em tiroteios anteriores, o ataque desta quarta-feira na Florisa, e consequentemente o controlo de armas tomou conta das conversas nos Estados Unidos. Mas estes números ou mais este ataque dificilmente farão o Congresso aprovar leis que permitam um maior controlo sobre as armas nos EUA. "O padrão será perfeitamente previsível. Haverá um momento de silêncio. As pessoas vão desejar a todos os pensamentos, orações e simpatia pelas vítimas, e então o Congresso dos Estados Unidos não fará absolutamente nada", disse na quarta-feira à noite o congressista Jim Himes.

Após o tiroteio de Las Vegas, em outubro, chegaram a haver movimentações no Congresso sobre a violência com armas, mas nada passou a lei. A Câmara dos Representantes aprovou em dezembro uma proposta para melhorar a verificação de antecedentes de quem compra armas, mas está até agora à espera de ser votada no Senado. Ao mesmo tempo aprovaram despesas de milhões de dólares do orçamento federal para colocar polícia nas escolas públicas - só em 2013, o ano seguinte a Sandy Hook, foram 45 milhões).

"Esta não é altura para tirar conclusões apressadas, sem conhecer todos os factos", defendeu ontem o o líder da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan, mas centrando-se na necessidade de olhar para as "falhas" nas leis que permitem aos doentes mentais comprarem armas. Já o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, apelou aos seus colegas para "decidirem fazer algo sobre a violência armada epidémica neste país".

"O Congresso precisa de fazer mais. A legislatura da Florida precisa de fazer algo para restringir as leis de armas no estado", disse ontem à CNN uma professa da Marjory Stoneman Douglas High School. "Têm pelo menos de falar sobre isto. Toda a gente vai dizer que não é a altura, que não é tempo de falar nisto. Não há melhor altura para ter a conversa porque seguiremos em frente e em algumas semanas ou um mês estaremos na mesma situação com outra escola e mais pessoas, agora é a altura", acrescentou Melissa Falkowski. "Como nossos legisladores e líderes, eles não deveriam oferecer orações e palavras, porque estas nada significam. Nós precisamos de ação, porque a ação vai mudar o que está a acontecer", defendeu, por seu turno Lyliah Skinner, de 16 anos, uma sobrevivente do tiroteio desta quarta-feira. "Gostaria de perguntar-lhes se os jovens não podem beber, não podem comprar, a sua primeira bebida com álcool, então porque podem comprar armas com 18 ou 19?".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG