Putin adia parada militar, mas há dois países a comemorar o Dia da Vitória

Bielorrússia e Turcomenistão desafiam covid-19 e relembram vitória do Exército Vermelho sobre a Wermacht.

O Dia da Vitória, 9 de maio, é de celebração na Rússia tal como era na União Soviética. Um dia que comemora a vitória do Exército Vermelho às forças armadas da Alemanha nazi, pondo fim a cinco anos de guerra e milhões de mortos, no que foi o conflito mais mortífero da história.

Um dia de enorme simbolismo e no qual o presidente russo Vladimir Putin tem apostado para transmitir uma imagem de poderio militar, por um lado, de nostalgia da superpotência soviética, por outro, e também de orgulho no sacrifício de milhões de pessoas em acontecimentos que se revelaram trágicos.

No entanto, e apesar da garantia do líder russo na mensagem da Páscoa -- "a situação está sob controlo total" --, a disseminação do covid-19 está neste momento em crescimento acelerado, com mais de 10 mil novos casos diários, levando a Rússia ao nada invejável top cinco de países com mais infetados.

No dia 16 de abril, a Rússia acabou por adiar as comemorações do 75.º aniversário do Dia da Vitória. O dia ficará assinalado com a passagem nos céus de aviões de caça em formação.

Mas há dois países da antiga URSS que não abdicam da comemoração: a Bielorrússia presidida por Alexander Lukashenko e o Turcomenistão liderado por Gurbanguly Berdymukhamedov.

Em comum com Vladimir Putin têm muitos anos no poder: o bielorrusso vai chegar aos 26 anos de punho de ferro em julho, antes das eleições presidenciais marcadas para o mês seguinte; o turcomeno sucedeu ao regime fechado e de culto da personalidade de Suparmarat Niyazov em 2006, mantendo as características do dito.

Lukashenko tem sobrevivido ao grande irmão russo ora em aproximação ao Kremlin, ora em afastamento. No papel está assinada a integração dos dois estados (ainda pela mão de Boris Ieltsin), mas nas últimas negociações o projeto não terá recebido grande abertura de Lukashenko.

Os últimos tempos têm sido de desalinhamento, com o líder a receber o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo e este a propor a venda de petróleo a Minsk. A economia bielorrussa depende da russa, em especial as exportações agrícolas em troca de importações de petróleo e gás a preços baixos.

Mas se Lukashenko foi motivo de atenção no Ocidente foi pela sua abordagem ao coronavírus. Não tomou quaisquer medidas especiais. Por exemplo, a Bielorrússia é dos poucos países no mundo com campeonato de futebol a decorrer de forma ininterrupta. Aos cidadãos, o líder aconselhou a beber vodca, fazer sauna e trabalhar na agricultura.

"Devo dizer que não podemos cancelar a parada. Simplesmente não podemos. Pensei nisso durante muito tempo", disse o presidente no dia 3 de maio. "Claro que isto é uma coisa emotiva e profundamente ideológica."

Oficialmente, a Bielorrússia tem mais de 21 mil casos de covid-19 dos quais resultaram na morte de 121 pessoas.

Num país sem oposição no Parlamento e uma KGB a controlar quem faz frente ao regime, é notícia uma petição que reuniu mais de 7 mil assinaturas contra a realização do desfile.

Também é notícia um país sem casos de covid-19. O Turcomenistão está num pequeno grupo de estados que inclui a Coreia do Norte, o Lesoto e microestados do Pacífico. Se não é impossível que uma ilha remota e pouco povoada possa ter sido poupada ao coronavírus é mais difícil que isso ocorra quando um país tenha como vizinho o Irão, que contabiliza oficialmente mais de cem mil casos e 6 500 mortes.

"A ignorância deliberada pode ser classificada de vitória", comentou ao USA Today o professor de Relações Internacionais Robert Saunders.

A notícia da celebração do 9 de Maio com um desfile militar e fogo-de-artifício foi noticiado pelo canal de televisão estatal. A parada inclui veículos do tempo da Segunda Guerra Mundial e decorre numa praça da capital, Asgabate, em frente ao monumento da Chama Eterna, dedicada aos soldados.

Uma fonte do Ministério da Cultura do Turcomenistão disse à AFP que o governo decidiu que era seguro avançar com o desfile. "Não foi identificado um único caso de doença, pelo que foi tomada a decisão a nível governamental de transmitir a tocha da comemoração e realizar o desfile."

O mais curioso é que, ao contrário de vários outros países ex-soviéticos, este país rico em petróleo não realizou anteriormente desfiles militares do 9 de Maio.

Desde o início da pandemia do coronavírus, o Turcomenistão tem continuado a realizar eventos públicos de massas. No domingo passado, o presidente Gurbanguly Berdymukhamedov assistiu a uma prova de corridas de cavalos.

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