Polestar banida dos Estados Unidos. E como a Volvo escapou à decisão

Polestar banida dos Estados Unidos. E como a Volvo escapou à decisão

A aplicação rígida da Connected Vehicle Rule pelo Departamento de Comércio norte-americano força a Polestar a abandonar o mercado dos EUA a partir dos modelos de 2027. Ao mesmo tempo, a sua marca parceira, a europeia Volvo, garantiu uma autorização regulamentar especial. Saiba o que dita esta diferença de destinos.
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O mercado de veículos elétricos (VE) registou esta sexta-feira (26 de junho) uma alteração profunda que impacta diretamente uma das marcas com ligações chinesas em maior crescimento global. O Departamento de Comércio norte-americano, através do Departamento de Indústria e Segurança (BIS), recusou formalmente conceder à Polestar a autorização necessária para comercializar os seus veículos sob a nova 'Connected Vehicle Rule' (Regra dos Veículos Conectados).

Com esta decisão, a Polestar vê-se legalmente impedida de vender novos automóveis em solo norte-americano a partir do "model year" de 2027. O anúncio oficial provocou uma queda imediata de 5,7% nas ações da tecnológica sueca na bolsa de Nova Iorque (NASDAQ) e marca uma nova e agressiva era de protecionismo tecnológico no setor automóvel global.

O que é a Connected Vehicle Rule?

Originalmente desenhada no início de 2025 e agora aplicada de forma intransigente pela administração norte-americana, esta regulação visa blindar a segurança nacional contra potenciais ameaças de espionagem e ciberataques.

A regra proíbe a importação e venda de veículos equipados com sistemas de conectividade ativa (como Bluetooth, Wi-Fi, redes móveis e sistemas de navegação por satélite) ou sistemas de condução autónoma que tenham sido desenvolvidos por empresas sediadas ou associadas a "adversários estrangeiros" — com foco explícito na China e na Rússia.

Para o governo dos EUA, os automóveis modernos são considerados "centros de dados móveis" capazes de recolher dados biométricos, gravar áudio, mapear infraestruturas críticas e, no limite, ser controlados remotamente por potências estrangeiras.

O Impacto na Polestar e o Plano de Fuga para a Europa

Embora a Polestar seja uma marca de herança sueca, a sua estrutura acionista e operacional está profundamente ancorada na gigante chinesa Geely. Esta ligação umbilical acabou por ditar o seu afastamento dos EUA.

O impacto prático da decisão divide-se em várias frentes. Desde logo, a partir de 2027, nenhum veículo novo da Polestar poderá ser registado ou vendido nos EUA. Isto afeta diretamente o atual Polestar 2, o recém-lançado Polestar 4 e deita por terra os planos para o futuro sedã de luxo Polestar 5.

Existe o dilema do Polestar 3 — este SUV elétrico de alta gama, que começou a ser montado na Carolina do Sul com o objetivo de contornar as tarifas aduaneiras, foi igualmente banido. Mesmo sendo fabricado nos EUA, os seus componentes digitais e sistemas integrados continuam a partilhar a arquitetura de software da Geely, impossibilitando a sua homologação nacional.

Por fim, o apoio aos atuais clientes. É que a marca já garantiu que vai escoar o stock existente dos modelos de 2024 a 2026 e assegurou que toda a rede de concessionários (32 espaços nos EUA) permanecerá aberta para garantir assistência técnica, manutenção, peças de substituição e cumprimento de garantias. Mas com o fim da operação nos Estados Unidos resta saber durante quanto tempo esta decisão será viável.

CEO desvaloriza o impacto imediato

Para já, o CEO da Polestar adotou uma postura pragmática, desvalorizando o mercado norte-americano, que representa atualmente apenas cerca de 6% das vendas globais da marca.

"A indústria automóvel está a entrar numa nova fase baseada em dinâmicas puramente regionais. A nossa estratégia global reflete isso mesmo: vamos focar os nossos esforços na Europa, que já representa perto de 80% do nosso volume de vendas", disse, citado pelos media internacionais.

O futuro da marca passará agora por acelerar o lançamento do Polestar 7, um crossover compacto projetado especificamente para o mercado europeu que será produzido na fábrica da Volvo em Kosice, na Eslováquia, além de manter planos de expansão das suas operações noutras geografias como o Canadá, a América Latina e o Sudeste Asiático.

Como é que a Volvo escapou à decisão americana?

A decisão do governo norte-americano parece ganhar contornos de intriga industrial quando olhamos para a Volvo Cars. Sendo a Volvo a parceira estratégica e detentora de 19,9% da Polestar — e partilhando também a Geely como casa-mãe —, como conseguiu a marca sueca obter uma autorização regulamentar especial em maio de 2026, que lhe permite manter as operações normais em território dos EUA?

A resposta reside em três pilares diferenciadores:

A criação de uma "Muralha da China" digital: A Volvo Cars apresentou ao Departamento de Comércio dos EUA um plano minucioso de isolamento tecnológico. A marca sueca garante que todos os dados de condutores americanos são armazenados e processados em servidores locais ocidentais; as atualizações de software Over-The-Air (OTA) para os EUA são integralmente geridas por equipas situadas fora da esfera de influência técnica da Geely na China; e a marca comprometeu-se a fazer a reengenharia dos componentes de conectividade mais sensíveis das suas viaturas para eliminar qualquer dependência física de fornecedores chineses até ao prazo-limite legal de 2030.

A existência de governança independente: Historicamente estruturada como uma marca com forte autonomia e sólida reputação de segurança, a Volvo Cars goza de uma solidez jurídica e de compliance muito superior no Ocidente. Isto permitiu-lhe negociar de forma direta e independente compromissos de segurança nacional com o governo dos EUA — algo que a Polestar, devido à sua dependência direta das sinergias tecnológicas de grupo da Geely, não conseguiu replicar a tempo.

O peso económico local: A Volvo é um gigante industrial histórico com dezenas de milhares de postos de trabalho, incluindo uma rede maciça de concessionários, nos EUA. O seu investimento de 1,3 mil milhões de dólares na fábrica de Ridgeville (Carolina do Sul) torna-a um motor económico regional importante. Banir a Volvo seria politicamente inviável para o governo americano devido ao impacto no emprego; já no caso da Polestar, por se tratar de uma marca de nicho, a sua proibição serviu como exemplo sem causar grandes danos à economia local.

O paradoxal sucesso da Polestar

Apesar do revés geopolítico em solo americano, o panorama global da marca conta uma história muito diferente. A saída forçada do mercado norte-americano surge precisamente num momento em que a Polestar estava a consolidar uma trajetória de forte expansão global. Apesar dos desafios regulamentares, os dados oficiais de vendas da marca revelam uma aceitação crescente nos mercados premium, sustentando o seu estatuto de fabricante em rápida ascensão.

A Polestar fechou o ano de 2025 com o seu máximo histórico de 60.119 veículos entregues globalmente, o que representou um expressivo crescimento de 34% em relação às 44.851 unidades comercializadas no ano anterior. Também o ano de 2026 começou em alta, com o primeiro trimestre a registar o melhor arranque de sempre em termos de retalho, com 13.126 automóveis vendidos (um aumento de 7% face ao período homólogo de 2025), segundo os dados divulgados publicamente pelo fabricante.

Para dar resposta a esta procura, a rede global da marca foi ampliada para 230 pontos de venda activos (uma expansão de 50% em termos homólogos), com planos de fechar 2026 com cerca de 250 localizações ativas.

São os receios justificados? O precedente dos autocarros em Oslo

As preocupações da administração norte-americana com a segurança digital e a soberania dos dados podem parecer um exagero ou mero protecionismo económico. No entanto, no final de 2025, a Europa viveu um caso real que transformou estas suspeitas em conhecimento técnico concreto, tendo a Noruega como palco principal.

Durante testes de segurança de rotina efetuados pela Ruter — a operadora de transportes públicos de Oslo —, especialistas em cibersegurança decidiram levar um novo autocarro elétrico do fabricante chinês Yutong para o interior de uma mina desativada, isolando-o de quaisquer sinais de rede externos.

Os testes revelaram que os autocarros vinham equipados com componentes eletrónicos e cartões SIM ocultos (registados na Roménia) que não constavam nas especificações de aquisição. Mais grave ainda: os investigadores conseguiram comprovar que, através do sistema de atualizações remotas Over-The-Air (OTA), o fabricante na China mantinha acesso direto e profundo ao sistema de gestão de baterias e de propulsão dos veículos. Tecnicamente, isto significava que a frota de transportes públicos de Oslo podia ser desativada remotamente — um autêntico "botão de pânico" (kill switch) digital nas mãos de uma entidade externa.

A revelação norueguesa gerou ondas de choque imediatas no Norte da Europa. Operadoras na Dinamarca (como a Movia, que gere centenas de autocarros Yutong) e autoridades de segurança no Reino Unido lançaram investigações urgentes às suas próprias frotas públicas com tecnologia chinesa.

Embora não tenha havido qualquer registo de sabotagem ativa, a confirmation de que veículos pesados em trânsito podiam ser paralisados remotamente validou os pioras receios dos estrategistas de defesa ocidentais. É precisamente este precedente europeu que serve de base lógica para a aplicação severa da Connected Vehicle Rule nos EUA, justificando por que razão Washington se recusa agora a tolerar arquiteturas digitais fechadas sob controlo de potências externas.

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