Hoje é dia de greve (escrevo na quinta-feira). Tudo o que eu . diria sobre a greve disse-o melhor o André Macedo no editorial A . greve que interessa. Eu digo que a greve só interessa aos media que têm assegurada a agenda do dia: é dia de . reportagens exaltadas, câmaras pegadas à cara das pessoas, . perguntas essenciais tipo "porque é que está aqui?" e "o . que acha da situação do país?". É dia de taxistas, delegados . comerciais e reformados convocados pelos aparelhos partidários . inundarem os fóruns radiofónicos. É dia de uma chusma de . profissionais do contraditório se sentarem frente a frente a . explicar quem ganhou e quem perdeu com a profundidade e a isenção . de representantes de clubes de futebol. Enfim, é dia de greve: uma . forma de luta anacrónica, ineficiente, apesar de tudo bem educada, e . que por isso não causa grande mossa. Mas eu, por respeito a todos os . que acreditam, vou fazer a minha greve. Deixo-vos com uma velha anedota, devidamente adaptada aos tempos que vivemos. Boa praia! . Um grego, um italiano, um espanhol e um português viajavam pela . Europa do Norte quando os quatro foram emboscados por um grupo de . skinheads neonazis que os raptou e levou para um sítio escuro e fora . dos caminhos; era uma quinta numa floresta fria e negra que fica ali . à beira da velha estrada que liga a Holanda à Finlândia, passando . pela Alemanha. Nessa quinta foram atados, pendurados pelos braços e . foi-lhes dada uma opção: morte ou bananão. . "Morte ou bananão?", interrogaram-se os de tez morena. . O líder do bando de europeus do Norte, de cabeça rapada e . suástica tatuada, mandou entrar dois carrascos. O primeiro tinha uma . pistola, que com solenidade carregou. O clique foi eloquente. O . segundo, um branco e gigante hooligan, desapertou as calças . revelando um enorme, um descomunal, um brutal (como diria o pequenito . Gaspar) e erecto bananão. . Um a um, os desgraçados dos do Sul, que nunca mais regressariam às . suas terras para pagar as dívidas que tinham contraído para fazer a . viagem, foram escolhendo a morte ao bananão. . "Morte ou bananão?", perguntou o líder dos skins ao . grego. "Morte", respondeu o grego cuspindo para o chão . cheio de dignidade. . "Morte ou bananão?", perguntou o líder dos skins ao . italiano que chorava pela mamma. "Morte", disse o lacrimoso . napolitano. . "Morte ou bananão?", perguntou duas vezes o líder dos . skins ao transpirado espanhol que não conseguiu fazer-se entender à . primeira por causa do sotaque. "Muerte", disse o espanhol. . Depois foi a vez do português. . "Morte ou bananão?", perguntou o líder. E o . português achou que, apesar de enorme, descomunal, brutal (como . diria o pequenito Gaspar), era bem capaz de aguentar o erecto . bananão. "Não, morte não..." pensou o português. . "Eu aguento o bananão." . O português lá fechou os olhos, assumiu a posição e gritou, . cheio de coragem: "Bananão!" . E então o líder disse: "Bananão até à morte."Publicitário, psicossociólogo e autorEscreve à sexta-feiraEscreve de acordo com a antiga ortografia