Data Centers, energia, água, indústria e longevidade: as grandes apostas do private equity em Portugal
Ainda há muitas oportunidades para os fundos de private equity investirem em Portugal e o capital só precisa de um bom enquadramento regulatório, fiscal e jurídico. Foi esta a conclusão da conversa sob o tema "Fundos, Crescimento e Estratégia: Uma conversa sobre a Próxima Década do Capital em Portugal", na Money Conference, promovida esta quinta-feira, 8 de outubro, pelo Diário de Notícias e pelo Dinheiro Vivo.
"Portugal é um país pequeno", "pequeno de mais para os grandes fundos", mas é, ainda assim, um "playground muito grande", considera António Esteves, CEO da Fortitude Capital.
"O tecido empresarial português é formado por 1,5 milhões de empresas, a grande parte empresas familiares, mas dentro desse milhão e meio de empresas há oportunidades interessantíssimas", acrescentou, salientando que "o mundo empresarial ainda é muito leigo no que é que o private enquity pode trazer quando entram no capital dessas empresas", mas que já se sente uma evolução comparativamente ao que acontecia há três ou quatro anos.
"Hoje em dia já sinto que há empresas que vêm bater à nossa porta. Além do musculo financeiro muito forte, temos um alcance internacional. Eles precisam de alguém como nós", frisou, realçando que "as pessoas preferem ter 60 por cento de uma coisa que vale 1000 do que 100 por cento de uma coisa que vale 100".
Já o CEO do Horizon Capital Partners, Sérgio Monteiro, destacou o crescimento dos data centers e do setor da energia, mas notou que "existem nichos de mercado onde no nosso ponto de vista as oportunidades são mais claras do ponto de vista de valorização".
Sérgio Monteiro criticou o "subinvestimento crónico" a nível europeu no setor da água, frisando que "uma coisa muito importante era despolitizar a discussão de preços". Dando o exemplo do que sucedeu recentemente em Almada, defendeu que os fundos de private equity podem desempenhar um papel decisivo nos investimentos nas redes de abastecimento para melhor servir as populações e evitar desperdícios de água.
Acerca de participação de fundos em investimentos públicos, com parcerias público-privadas, diz que Portugal é "um país seguro" e que mesmo no tempo da troika os "contratos foram mantidos", mas que o tempo que os licenciamentos demoram causa "ruído". "A alta velocidade é um exemplo que está prometido a uma cadência que não acontece", ilustrou, num painel moderado pelo diretor do DN, Filipe Alves.
Continuando a falar sobre as "imensas oportunidades" que Portugal tem, António Esteves deu o exemplo do projeto de seis mil milhões de euros de que o seu fundo vai fazer parte, a Giga Factory, "um bom exemplo do que private enquity grande pode fazer em Portugal". A candidatura de Portugal a construção de uma Giga Factory foi coordenada pelo Banco Português de Fomento e o Fortitude Capital vai participar no projeto.
Outro exemplo foi o investimento da Fortitude Capital feito há dois anos "numa empresa chamada Iberol, que faz crushing de sementes oleaginosas" e que tinha resultados negativos mas atualmente já liberta um EBITDA na ordem dos 12 milhões de euros. "Do business plant que fizemos para esta empresa, vamos fazer o segundo maior terminal logístico de cereais do país. Isto é o impacto de uma empresa com private equity, ambição, músculo e parceiros", contou.
Setores com maior potencial são os que respondem a necessidades do século XXI
Em relação aos setores onde há boas oportunidades para investir, os dois executivos concordaram em apontar áreas que vão ao encontro dos grandes desafios das sociedades atuais em áreas como o apoio aos idosos e outras que acompanham as tendências em Portugal e noutros países, como as residências estudantis e os serviços de apoio à longevidade, nas quais há "um défice muito grande". "Para os hospitais do SNS é muito caro ter uma pessoa que necessita de cuidados continuados. As seguradoras pelo mundo fora investem nesses serviços", frisou Sérgio Monteiro, que insistiu em apontar o setor da água e afirmou que o principal problema da habitação é o "licenciamento", para aumentar a oferta. "Não falta capital" e "com a certeza vem o capital", garantiu.
António Esteves também referiu o setor da tecnologia, porque "temos empresas e engenheiros muito bons". "Aliado aos parceiros certos, vai ter uma curva de crescimento incrível", frisou, acreditando que Portugal "continua a ser um hub muito interessante no setor agrícola".
Questionados sobre o mercado da habitação, os gestores concordaram que existe capital para investir na construção de imóveis em Portugal, para resolver a crise habitacional, mas frisaram que, para tal, será necessário criar condições para possibilitar esses investimentos, nomeadamente a nível fiscal e jurídico.
