Há uma década que a liderança do mercado mundial de smartphones se divide entre a Apple e a Samsung, com vantagem para a marca sul-coreana nos últimos anos. Nenhuma das anteriores casas-fortes dos telemóveis conseguiu quebrar este feitiço, e muitas foram desistindo do mercado. Até ao segundo trimestre de 2020, altura em que a dupla do topo foi ultrapassada pela direita..O feito é da Huawei, que conseguiu tornar-se número um pela primeira vez na história, de acordo com os dados acabados de divulgar pela consultora IDC. Como é que isto aconteceu?.De acordo com os analistas, foi uma mistura de condicionantes num ano incrivelmente atípico por causa da pandemia de covid-19. As vendas globais de smartphones afundaram uns incríveis 16%, mas a Huawei caiu menos que o mercado e conseguiu um desempenho estelar na China. Essa foi a diferença..A marca está com grandes dificuldades em vários mercados-chave, como os Estados Unidos, onde o governo colocou a empresa na lista negra, mas aumentou as vendas no seu território doméstico..“Isto foi impulsionado pelo tremendo crescimento da Huawei na China – quase 10% – o que compensou os grandes declínios que a empresa enfrentou nas outras regiões”, nota a IDC. No geral, a Huawei até vendeu menos 5,1% que no mesmo período do ano anterior. Mas como o mercado global caiu bem mais que isso, a marca acabou por ser a que melhor desempenho teve no trimestre..Feitas as contas, a Huawei vendeu um total de 55,8 milhões de unidades, o que lhe garantiu 20% de quota de mercado..A Samsung caiu para segunda posição, tendo vendido 54,2 milhões de smartphones. A diferença é mínima e a sua quota é de 19,5%, mas estes números são dramáticos para a empresa sul-coreana quando comparados com o mesmo trimestre do ano passado. Representam uma quebra de 28,9%, a mais aguda de todas as fabricantes, em relação a 2019, quando a Samsung tinha 23% de quota..Segundo a IDC, apesar de as vendas dos modelos da série A continuarem a ter um bom desempenho, os aparelhos premium (como o Galaxy S20 e o Galaxy Z Flip) não tiveram o sucesso que se podia esperar pré-pandemia..Já a Apple, curiosamente, até aumentou as vendas em 11,2% e a quota de mercado passou de 10,2% para 13,5%. A marca vendeu 37,6 milhões de iPhones, quase 4 milhões a mais que no ano passado, muito devido à performance do iPhone 11 e do lançamento do novo SE, que tem um preço mais baixo. Este modelo acabou por ser bem recebido por consumidores com orçamentos mais reduzidos. “Olhando em frente, o lançamento potencial de quatro novos modelos sinalizará a entrada da Apple no mundo do 5G e irá desafiar os aparelhos 5G Android que estão nas lojas há mais de um ano”, apontou a IDC..A Xiaomi em quarto (quebra de 11,8%) e a OPPO em quinto (quebra de 18,8%) completam o top 5..O que caracterizou este período, diz a IDC, foi o tombo generalizado das vendas, o maior de que há registo. As remessas de smartphones afundaram 16% para 278,4 milhões de unidades, no trimestre que coincidiu com o pico do confinamento por causa da pandemia..“As remessas de smartphones sofreram um tremendo declínio no segundo trimestre, visto que se correlacionam de forma direta com os gastos dos consumidores, que registaram uma redução maciça devido à crise económica global e ao aumento do desemprego causados pelo confinamento”, afirmou a analista Nabila Popal. “Isto, combinado com o encerramento das lojas no retalho, especialmente em regiões onde as compras online são menos habituais, compôs o efeito negativo nas vendas de smartphones.”.Além disso, explicou a analista, os consumidores tiveram de gastar bastante dinheiro noutras tecnologias necessárias para trabalharem e estudarem de casa. Isto inclui computadores, monitores e tablets, o que deixou menos orçamento disponível para smartphones..Praticamente todas as regiões derraparam neste período. A Ásia-Pacífico (excluindo China e Japão) afundou 31,9%, a Europa ocidental caiu 14,8% e nos EUA as vendas recuaram 12,6%. “A cadeia de fornecimento travou até parar quando a pandemia atacou. No entanto, a recuperação, em específico na China, tem sido forte”, explicou o analista Ryan Reith. A questão agora, indicou, é perceber como a procura se vai comportar tendo em conta a incerteza que continua a dominar o mundo em pandemia. Apesar de muitos fabricantes estarem a investir de forma agressiva em portfólios 5G, o analista disse que a procura, pelo lado dos consumidores, continua baixa.