Sharon Stone: "Passei por um inferno e tinha muito para dar ao projeto"

Atriz Sharon Stone fala sobre a nova série de que é protagonista, "Mosaic".

Entre as novas séries na televisão há uma que se destaca: Mosaic. Trata-se da história de Olivia Lake, interpretada por Sharon Stone, que é uma bem-sucedida autora de livros infantis, e por Joel, representado pelo ator Garrett Hedlund, que aluga um espaço na residência da atriz. Mas a grande surpresa não se fica pelo regresso da atriz Sharon Stone à representação, antes por ser uma série de responsabilidade de Steven Soderbergh, e com a possibilidade de ser um policial interativo. Infelizmente, a app que permite alterar a sequência das cenas dos episódios só funciona nos EUA. Entretanto, Soderbergh já avisou que vai continuar a inovar e que o seu próximo projeto, um filme de terror, vai ser filmado num iPhone.

A série Mosaic é uma história policial e, antes de começar a entrevista, Sharon Stone revela ao seu parceiro de representação, Garrett Hedlund, que conhece o culpado: "Sou a única que sabe." Este responde-lhe: "Eu gosto de fingir que sei." Acrescenta: "A filmagem foi brutal e a cena do crime foi terrível. Quando ele perde a cabeça... foi muito duro."

Sharon está de volta ao ecrã. O que tinham esta série, este papel e este projeto para a fazer pensar que seria uma boa maneira de regressar à representação?

Sharon Stone (S.S.) - Bem, vamos ser honestos. Se Steven Soderbergh me tivesse pedido para vir e ler a lista telefónica, eu provavelmente tê-lo-ia feito. Mas sinto que tive realmente muita sorte por ele me ter pedido para fazer algo tão pessoal, tão duro e tão revelador porque, francamente, passei por um inferno e tinha muito para dar ao projeto. Foi muito bom poder trazer toda aquela compaixão e insegurança para o ecrã.

Atuar, tal como escrever, é como um músculo. Se não o usarmos durante uns tempos, deixamos de nos lembrar como o fazer. Estava nervosa com isso?

S.S. - Bem, eu perdi a memória. Perdi a memória de curto e longo prazo quando tive o acidente vascular cerebral e a recuperação demorou muito porque antes eu tinha uma memória fotográfica e tive de aprender a aprender. Depois, quando o meu cérebro começou a reencontrá-la, comecei a recuperar, mas já não tinha o meu antigo processo de representação. Quero dizer, eu era incrível. Para mim era tudo "Vamos em frente". E depois fiquei "Eu não tenho um plano, eu não tenho um processo e não sei o que estou a fazer". Passou a ser uma coisa completamente diferente, e foi fantástico trazer tudo isso e representar uma personagem em que não precisava de esconder nada disso.

Olivia é incrível. Ela é tão confusa, complicada, vulnerável, carente e narcisista...

S.S. - Ed escreveu aqueles diálogos incríveis para mim, a Olivia pode simplesmente dizer todas aquelas loucuras que parecem que podem ser tão más, mas a intenção dela não é má.

Garrett Hedlund (G.H.) - Eu achei que ela era um anjo...

S.S. - Bem, acho que mesmo quando ela te está a dizer o que diz, ela quer dizer-te essas coisas porque quer que sejas melhor.

G.H. - Como espectador fica-se... Sabes, aquelas pessoas que são tão capazes de um trabalho medíocre, como disseste. Insanamente capazes de fazer um trabalho medíocre, mas não conseguem ver que não há mais nenhuma maneira. Quando se vê a arte de Joel em comparação com algo que vende isto ou aquilo, ou apenas a maneira como ele encara a sua vida diária ou a sua ambição, fica-se: "Vá lá, então?"

S.S. - Sim, de que é que estás à espera?

Ele é, obviamente, um ser humano realmente honesto.

S.S. - E um artista bastante bom.

E ele está a fazer o seu próprio caminho de muitas maneiras.

G.H. - Sim, há ali paixão.

S.S. - E talento. Mas ele está a colorir dentro dos traços na sua arte e a viver fora das linhas na sua vida.

Essa é uma coisa que acho que eles também têm um pouco em comum, porque a Olivia teve todo aquele sucesso no passado e é obviamente brilhante e talentosa, poderosa e rica, mas agora está fora de foco.

S.S. - Eu acho que está congelada. Ela é realmente como o ambiente em que está, aquele ambiente frígido. Eu acho que ele é como um reflexo do seu espaço interior. Ela está um pouco nesse estranho espaço primitivo e congelado. Eu não sei qual o caminho a seguir. Ela está presa. Ela está congelada naquele lugar e numa espécie de desintegração, quase a observar a sua própria vida.

Identificou-se com isso?

S.S. - Bem, Rob Reiner disse-me uma vez uma coisa maravilhosa. Ele disse: "Não é preciso estar em sofrimento para se ser um ator, mas é preciso ter sofrido." Espero sinceramente que o facto de ter passado por tudo o que passei tenha contribuído alguma coisa para o meu trabalho. Ter três filhos muda certamente a nossa realidade. Eu acho que crescer muda a nossa realidade e influencia o nosso trabalho, e acho que não tentarmos ser uma rapariga e permitirmo-nos ser uma mulher adulta é muito importante para o nosso trabalho também.

G.H. - Porque antes de passarmos por uma quantidade de coisas tumultuosas, provavelmente estávamos a tentar representar ou a tentar fazer alguma coisa, e depois percebemos que algo acontece dentro do nosso ser interior, que quando passámos por coisas terríveis não temos de mostrar nada a ninguém, tudo o que temos de ser é simplesmente nós próprios e as coisas saem assim.

S.S. - Isso é tão verdade. É nesse ponto que atuar não é a coisa mais difícil para mim. A representação é algo que eu tenho em mim.

A Olivia, além de ser descompensada, é realmente interessante, porque ela não é casada e não tem filhos, mas não se fala sobre isso....

S.S. - Nem se ela era casada antes, ou o que a sua outra vida poderia ter sido, ou o que quer que seja sobre isso. Não, nós simplesmente apanhamo-la a meio caminho.

Sim, o que eu achei que era verdadeiramente inovador. Não há qualquer insistência sobre o que ela não tem.

S.S. - Que é sempre o que temos no que tem que ver com as mulheres. Deixamo-la apenas existir, sim.

E o mesmo acontece com Petra, não discutimos as suas circunstâncias.

S.S. - Finalmente. Finalmente. Não precisamos de ver o seu saiote para saber que ela é uma mulher, finalmente.

Esse aspeto atraiu-a?

S.S. - Oh, céus, sim. O facto de ela ser exatamente como era em casa, como pessoa, nas suas roupas normais, com o seu aspeto normal, os seus amigos normais, falando da maneira como uma pessoa normal falaria. Foi extraordinário e maravilhoso representar uma pessoa. Eu não represento pessoas muitas vezes. Foi tão agradável representar alguém e eu não ter de desaparecer completamente para desempenhar o papel. Em Lovelace eu tive mesmo de desaparecer. Em Alpha Dog também. Por isso, não ter de desaparecer para representar uma pessoa real foi emocionante. Ed pôs a minha humanidade nela.

Ed parece ser um ser humano incrível...

S.S. - Oh meu Deus, ele é simplesmente maravilhoso. No meio da filmagem da série ele chamou-me e disse: "Estou a tirar a licença de ministro porque vou casar fulano que faz parte da nossa série, o namorado dele vem e eu vou fazer o casamento." Eu respondi-lhe: "Sabes, eu sou ministra." Ele ficou admirado e perguntou-me se o ajudaria, claro que disse que sim. Então, acabámos a fazer a cerimónia do casamento dessa pessoa da nossa série com o seu namorado, e as famílias vieram e tudo. Isso fez que ficássemos todos ainda mais próximos. Aconteceu toda essa parte interessante do nosso relacionamento e foi realmente bonito.

Entrevista cedida pela TV Séries

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