"Nada nos garante que não morremos na última página"

Quais os segredos da série que arrebata 15 milhões de espectadores? A imprevisibilidade e o facto de ser inspirada em "demónios" reais , explicam ao DN produtor e atores

"Quando estou a ler o guião, vejo cada cena e cada morte de forma muito vívida", revela Greg Nicotero ao DN. Este não só é um dos produtores de The Walking Dead, como também o grande mestre dos efeitos especiais e maquilhagem da série. São tantos os zombies que já criou ("mais de nove mil", conta), que o maior desafio, agora, é "inventar mortes mais espetaculares do que o habitual", que vão para além dos típicos "golpes na cara com facas ou setas".

Quem assistiu à estreia da segunda metade da sexta temporada, a 15 de fevereiro, na Fox, sabe que esse desafio foi mais do que superado. "Foi o episódio que compilou os "dez mandamentos" do mundo zombie", brinca Nicotero, que revela usar "muito mais" do que cem litros de sangue falso por episódio. Esse, que foi um dos capítulos mais sangrentos da série, foi gravado em apenas nove dias. "Estamos constantemente a correr atrás da luz. Fazemos alguns takes e acabou. Num filme, esse episódio poderia ter sido filmado em seis meses", frisa o produtor de 52 anos.

Apesar de obstáculos como a corrida contra o tempo, a história baseada na banda desenhada de Robert Kirkman parece ter encontrado, há muito, a fórmula para o sucesso: arrancou com uma média de cinco milhões de espectadores por episódio e, atualmente, atinge os 15 milhões. Segredos? Um deles é a ideia de que ninguém está a salvo. "Nunca sabemos o que vai acontecer e essa é a força da série", explica-nos Michael Cudlitz, ator que dá vida ao sargento Abraham Ford. "Exato", intervém Josh McDermitt, o falso cientista Eugene Porter. "Podemos sobreviver até ao fim e, ainda assim, nada nos garante que não vamos morrer na última página da história. Isso só torna as coisas mais entusiasmantes."

Para Greg Nicotero, que já soma 30 anos de experiência em registos "sanguinários", o mais cativante em The Walking Dead é "a ideia de invasão de um corpo". "Sabermos que alguém que amamos não passa de uma casca. De repente, aquela pessoa que pensamos que está lá dentro desaparece e não há maneira de chegarmos até ela, emocionalmente. Isso é aterrorizador."

Acredite ou não, a trama pós-apocalíptica tem como principal fonte de inspiração o mundo real. E para Ross Marquand, intérprete de Aaron, esse é um ingrediente fundamental. "A série é global. A abordagem ao apocalipse zombie, e o que a torna tão assustadora, é o facto de ser assente na realidade. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é só sobre morte e destruição, é sobre esperança, sobrevivência e luta pela humanidade. É incrível ver as transições emocionais destas personagens."

Emoção, aliás, foi o que não faltou no último episódio transmitido pela Fox, quando o protagonista Rick (Andrew Lincoln) se envolveu ("finalmente!", escreveram milhões de fãs) com Michonne (Danai Gurira). "Esse é o tipo de coisa que transforma a vivência do público. Perdemos personagens, ganhamos personagens, vemos pessoas a apaixonarem-se...", enumera Cudlitz. "O que eu gosto nesta história do Rick e da Michonne", acrescenta McDermitt, "é que se recuarmos e assistirmos a vários episódios as pistas estão lá. Não foi sempre um romance ativo, eles não se tocavam, mas conseguíamos ver trocas de olhares aqui e ali. A forma como as coisas resultaram foi fantástica".

Zombies: reflexo da sociedade

Nas décadas de 1970 e 1980, as histórias de terror não eram bem aceites pelas massas. "As pessoas não sabiam lidar com o sangue e a violência", explica Nicotero. O que mudou, então, para que The Walking Dead se tornasse uma das mais bem-sucedidas séries de sempre? "O ressurgimento dos zombies, nos últimos 15 anos, deve-se aos videojogos. Agora, as pessoas percebem que é tudo uma forma de entretenimento, não é suposto ofender ninguém." Mas adverte que "The Walking Dead não é banda desenhada nem um videojogo. É entretenimento, mas reflete a sociedade. Dá-nos a oportunidade de confrontar os nossos demónios, porque podemos explorar estas personagens no seu melhor e no seu pior", sublinha.

Prova de que a série tem influenciado fãs em todo o mundo é o facto de, ainda hoje, alimentar debates sociológicos nas redes sociais: "Quem seria eu se o apocalipse realmente acontecesse?", perguntam-se milhões de internautas. "Muitos dizem que seriam o Rick ou o Daryl [conhecidos como os mais corajosos do grupo], mas acho que a grande maioria seria o Eugene, uma pessoa assustada, que não tem capacidades de sobrevivência e que apenas está a contar os dias até ser mordido", defende Josh McDermitt, frisando, contudo, que nos capítulos que se avizinham Eugene vai revelar-se "um homem novo".

"As pessoas pensam que conseguem lidar com isto", corrobora Nicotero. "Podemos pensar que estamos preparados, podemos ver todos os filmes sobre o fim do mundo, mas assim que as coisas acontecem, é um desconhecido."

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