Morreu Pedro Rolo Duarte, o jornalista inquieto

Morreu ontem, vítima de cancro, o jornalista Pedro Rolo Duarte. Tinha apenas 53 anos e um currículo invejável: foi durante dez anos editor do DNA, suplemento de sábado do DN, esteve na fundação de O Independente e das revistas K e Visão, além de muitos outros projetos na imprensa, rádio e televisão

Havia a voz inconfundível e havia aquele sorriso. E depois havia o entusiasmo em conversar, em ouvir as histórias dos outros e em transformar essas conversas e essas histórias em jornais e revistas. O jornalista Pedro Rolo Duarte tinha 53 anos e se há coisa que todos podem dizer sobre ele é que era um excelente contador de histórias e um apaixonado por revistas.

Com o DN, Pedro Rolo Duarte manteve uma longa relação, que começou em 1985, publicando artigos semanais, sobre música e espetáculos, no suplemento de fim de semana. Depois disso, tornou-se colaborador habitual, fez entrevistas, escreveu crónicas e crítica de TV, e chegou a integrar a direção do DN (2004-2005). Mas, acima de tudo, foi no DN que, em novembro de 1996, lançou o DNA, o suplemento de sábado que dirigiu durante dez anos, numa procura constante por "criatividade, reflexão, profundidade e personalização", como escreveu no primeiro editorial. Um jornalismo que fugia à pressão do dia-a-dia e apostava em artigos de fundo, numa escrita criativa, assim como o design, a fotografia e a ilustração.

Catarina Carvalho, diretora das revistas da Global Media, trabalhou com ele no DNA, no início da sua carreira: "Foi o melhor editor que tive - no sentido pleno do termo", recorda. "No DNA nada era feito ao acaso. Do início ao fim, tudo batia certo. Desde o desenho da ideia à sua concretização, era um produto jornalístico completo." A jornalista recorda ainda que Rolo Duarte "tinha uma imaginação incrível para encontrar formatos que agradassem ao leitor", tudo era feito no interesse do leitor mas com "uma clara noção de qualidade".

Também Miguel Coutinho, o diretor que o desafiou a integrar a chefia do DN, em 2004, recorda "uma permanente inquietude de fazer coisas diferentes e de reinventar os jornais". Entre as qualidades de Rolo Duarte, lembra "uma frontalidade que nunca lhe permitiu deixar nada por dizer, uma lealdade aos seus princípios e aos seus amigos, e uma generosidade e sentido de humor apenas ao alcance de quem não se levava demasiado a sério".

Pedro Rolo Duarte publicou o seu primeiro texto na imprensa a 4 de setembro de 1981, no Correio dos Jovens, um suplemento do Correio da Manhã. Tinha 17 anos e escrevia sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial. Filho dos jornalistas António Rolo Duarte e Maria João Duarte, nos seus primeiros artigos assinava apenas Pedro Duarte, fugindo ao peso do apelido do pai.

Não mais parou. É impossível listar todos os projetos em que esteve envolvido, mas há alguns incontornáveis: o Sete, O Independente (estava lá no primeiro número e chegou a editor adjunto), as revistas Kapa e Visão (ajudou ao nascimento de ambas), mais recentemente o suplemento Nós, do jornal i. Na televisão, facilmente o recordamos em programas como Canal Aberto (RTP1) e Falatório (RTP2), mas foram muitos mais. Assim como na rádio, onde, após uma longa carreira, pudemos ouvi-lo, nos últimos oito anos, com João Gobern no programa Hotel Babilónia (Antena 1).

"Conseguimos uma coisa engraçada: ele em Lisboa e eu no Porto, e as pessoas garantiam que estávamos no mesmo espaço físico. Não nos atropelávamos um ao outro, eu conseguia saber o que ele estava a pensar. Pagavam-nos para nos divertirmos e para sabermos o que cada um pensava ", diz João Gobern. Conheceram-se no verão de 1982, o primeiro de 35 anos de amizade e de trabalho.

Era um "militante do papel, em todas as frentes" mas não ficou parado no tempo, estava atento a todas as alterações nos media e tinha sempre ideias para fazer algo novo, diferente, sem cedências na qualidade. Se não fosse jornalista seria cozinheiro, dizia numa entrevista há dois anos. Sobre o melhor emprego: "Nunca tive. Tive sempre trabalho e belos projetos. Entre a Kapa e o DNA, um deles terá sido o melhor."

Pedro Rolo Duarte morreu ontem de manhã, depois de uma dura batalha contra o cancro. "Pensou sempre no futuro e no que ainda poderia fazer. Viveu esta doença cruel com uma imensa dignidade e lucidez", conta Miguel Coutinho. O velório realiza-se na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, de onde, às 15.00, sai o funeral com destino ao Cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado.

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