"Ministério do Tempo é ficção com um fundo de não ficção"

A RTP1 estreia hoje uma grelha de programas renovada e na qual a série Ministério do Tempo, que será transmitida às 21.00 e já foi renovada para uma segunda temporada, é tida como o seu "projeto-âncora".

António Capelo, um dos integrantes do elenco, fala sobre o caminho que a ficção deve fazer no sentido de oferecer aos seus espectadores produtos de maior qualidade. Acredita na missão simultaneamente lúdica e pedagógica da televisão, mas não vê, pelo menos para já, arte no que se faz no pequeno ecrã. "Seria preciso acrescentar mais-valias."

Em que é que esta série é diferente das outras, mesmo quando se fala da ficção da RTP, que é menos industrial?

Tem um lado didático e pedagógico da história de Portugal. É, nesse sentido, uma espécie de revisitação, uma fabulação feita a partir de alguns acontecimentos da história de Portugal. Digamos que é ficção com um fundo de não ficção. Além disso, os meios técnicos também são maiores.

Quando fala do lado didático, isso poder traduzir-se em mais ou menos espectadores?

Pode atingir públicos diversos. Os mais novos podem vê-la ao lado dos pais e aprender alguma coisa ao mesmo tempo que se divertem, porque é também uma série lúdica, de aventuras. Quando falamos da história de Portugal falamos de reis e rainhas, de guerras, de príncipes e de princesas. Pessoalmente, acho que esta é uma das funções da televisão, seja ela qual for: deve ter um lado didático, e esta ficção cumpre esse objetivo.

Os mais velhos ensinam sempre os mais novos, mas, calculo, também têm a aprender. O que aprendeu com o elenco jovem desta série?

[Risos] Há sempre um lado irreverente que posso adquirir e que uma pessoa da minha idade já não tem. Os atores aprendem sempre uns com os outros porque o nosso trabalho tem que ver com a relação com a vida. E esta é diferente de umas pessoas para as outras e o que trazemos para o plateau é a nossa maneira de a olhar. Isto acrescenta valor aos outros, independentemente de idades e gerações. No caso do Ministério do Tempo, o elenco fixo de atores tornou-se muito coeso. Posso até dizer que vamos fazer mais 18 episódios - começamos a rodar em fevereiro - e o que nos leva a todos a aceitar é também o facto de termos uma boa relação.

Muitas cenas são gravadas com recurso a chroma key. Esta técnica influencia a forma de um ator representar?

Repare: o chroma é muito exigente numa perspetiva técnica, porque o ator não sabe o que vai aparecer como resultado final. Mas esse rigor não é mau, pode até ser pedagógico.

Porque os obriga a uma maior concentração?

Sim, sem dúvida.

Esta série é apenas uma das que a estação pública vai emitir às 21.00 a partir de hoje. O Virgílio Castelo [consultor para a ficção da RTP] disse que o objetivo é "ombrear" com as novelas das privadas [SIC e TVI]. Como é que vê esta opção da estação pública?

Como ambiciosa, mas também uma aposta na qual os atores e todos os outros profissionais devem estar envolvidos. Este tipo de ficção [séries] não é tão industrial, mas pode ser uma aposta ganha na perspetiva da relação que se pode estabelecer com os públicos. No fundo, trata-se sempre de oferecer a outros programas que são qualitativamente mais valiosos.

Não quer com isso dizer que se deva deixar de fazer novelas, ou quer?

Não, não. Uma coisa não nega a outra.

Fala-se cada vez mais da aproximação que a ficção televisiva tem feito ao cinema precisamente em termos de qualidade. Aliás, nos EUA, muitos atores que se celebrizaram no grande ecrã estão a mudar-se, pela primeira vez, para o pequeno. Fazer ficção em TV é arte?

Neste momento não sei se já será arte. Seria preciso acrescentar mais-valias ao que fazemos na televisão, a todos os níveis. Não falo apenas dos atos da interpretação, mas também da escrita dramática. O Ministério do Tempo é, como já falámos, uma grande aposta e fala da história de Portugal, mas na sua génese é um projeto espanhol...

Faz-nos falta guiões de maior qualidade?

Não tenho dúvida de que sim. A escrita dramática ainda precisa de dar passos no sentido de se tornar mais valiosa. Não basta ter bons diálogos. É necessário que o guião reflita de alguma maneira um sentido dramático. Por isso, sim, acho que deve dar passos para se tornar mais forte e os atores poderem trabalhar com melhor matéria.

Disse em algumas entrevistas anteriores que o teatro tem, e deve ter, uma função política e social. A ficção em TV também?

Claro. A palavra política é hoje muito mal empregada. As pessoas não acreditam na política, na ideia política, e a nossa função - porque somos todos seres políticos enquanto seres sociais - também é dignificar essa palavra. Ou seja, sempre que dizemos que a televisão deve ter uma função pedagógica, isto é política no bom sentido da palavra.

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