Facebook: Zuckerberg pode considerar versão paga sem anúncios

O CEO do Facebook revelou que Aleksandr Kogan terá vendido os dados dos 87 milhões de utilizadores a mais empresas além da Cambridge Analytica, incluindo a Eunoia, e que houve um ataque pirata em 2013

Mark Zuckerberg não afasta ideia de que o Facebook venha a ter uma versão gratuita com anúncios e uma versão paga em que os dados dos utilizadores não são usados para fins publicitários. O CEO da rede social afirmou perante o congresso norte-americano que a ideia pode ser considerada. "Acreditamos que o modelo de publicidade é o certo para nós", referiu o executivo, em resposta a questões colocadas pelo senador Ron Johnson. "Há quem sugira que devíamos oferecer uma versão em que as pessoas podem não ver anúncios em troca de uma subscrição mensal e consideramos ideias como essa."

O modelo de negócio do Facebook, em que 98% das receitas provêm de publicidade, esteve em grande destaque nas perguntas. Zuckerberg tinha já garantido na audiência que "haverá sempre uma versão gratuita do Facebook suportada por anúncios", depois de a número dois Sheryl Sandberg ter afirmado que para evitar que os dados sejam usados para fins publicitários, os utilizadores teriam de pagar. Esta hipótese não pareceu agradar a alguns senadores, sendo que outros frisaram que nenhum serviço consegue funcionar sem rendimento. "Nada na vida é gratuito. Se você quer alguma coisa sem pagar, terá de pagar de outras formas", sublinhou o senador Orrin Hatch. "Não há nada de errado nisso se houver transparência. Os utilizadores percebem isto?"

No que toca ao escândalo Cambridge Analytica, que motivou a audiência, Zuckerberg revelou que o investigador Aleksandr Kogan - que esteve na origem da recolha dos dados - vendeu as informações de 87 milhões de utilizadores a mais empresas. O CEO mencionou a Eunoia, sediada em Singapura, mas disse que haveria mais exemplos.

Em resposta a questões do senador Cory Garder, Zuckerberg admitiu que a empresa sofreu um ataque pirata há cinco anos. "Nunca tivemos uma fuga de dados", garantiu. "Tivemos uma instância em 2013 em que alguém conseguiu instalar malware nos computadores de alguns empregados." O ataque não resultou no acesso a dados dos utilizadores, garantiu.

Algumas questões colocadas durante mais de quatro horas de interrogatório abordaram suspeitas e receios relacionados com a forma de funcionamento do Facebook. Por exemplo, Zuckerberg negou categoricamente que a rede espie os utilizadores através dos microfones dos smartphones para mostrar anúncios sobre coisas de que eles possam ter falado.

Outra questão muito importante foi a forma como os dados dos utilizadores são monetizados. Mark Zuckerberg afirmou sob juramento que o Facebook não vende os dados dos utilizadores e que a utilização da rede social é segura. "Existe a ideia errada de que vendemos os dados. Não vendemos os dados aos anunciantes", disse Zuckerberg, em resposta a uma pergunta do senador John Cornyn, que retorquiu "Claramente, alugam-nos." O CEO continuou: "O que permitimos é que os anunciantes nos digam a quem querem chegar e colocamos os anúncios por eles. Mostramos os anúncios às pessoas certas sem que os dados mudem de mãos e sejam acedidos pelos anunciantes."

O modelo de negócio do Facebook, em que 98% das receitas provêm de publicidade, esteve em grande destaque nas perguntas. Zuckerberg garantiu que "haverá sempre uma versão gratuita do Facebook suportada por anúncios", depois de a número dois Sheryl Sandberg ter afirmado que para evitar que os dados sejam usados para fins publicitários, os utilizadores teriam de pagar. O CEO garantiu também que a utilização do Facebook é segura: "Eu uso-o, a minha família usa-o regularmente", disse à senadora Deb Fischer.

O tom das perguntas flutuou conforme a cor política dos senadores - alguns Republicanos avisaram para o perigo de regulação excessiva e Ted Cruz, ex-candidato à presidência, pressionou Zuckerberg com a ideia de que o Facebook tem um preconceito contra a direita política americana. "Não perguntamos às pessoas quais as suas orientações políticas quando entram na empresa", garantiu Zuckerberg. Do lado dos democratas, houve grande insistência na necessidade de aprovar legislação que regule diferentes aspetos da rede social, que com mais de 2 mil milhões de utilizadores ativos não tem rival no mercado. A nova diretiva europeia RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados), que entra em vigor a 25 de maio, foi referenciada várias vezes. Os senadores perguntam a Mark Zuckerberg se ele estaria disposto a implementar as estritas regras europeias em todo o lado, incluindo nos Estados Unidos. O CEO referiu que há nuances na forma como os europeus e os americanos olham para estas questões, mas garantiu que todos os utilizadores merecem que a sua privacidade seja protegida.

Em relação a legislação concreta que será introduzida por alguns senadores, Zuckerberg comprometeu-se a cooperar. É o caso do projeto de lei bipartidário Honest Ads Act, que pretende obrigar todas as empresas de tecnologia que vendem anúncios a revelarem a fonte e o montante pago por anúncios políticos.

Uma das maiores revelações deste testemunho em Capitol Hill foi que o Facebook está a colaborar com a equipa do procurador especial Robert Mueller, que está a investigar a interferência russa nas eleições de 2016. "O nosso trabalho com o procurador é confidencial" afirmou o CEO, que não conseguiu precisar se a investigação emitiu citações judiciais ou não a funcionários do Facebook.

Zuckerberg mostrou desconhecer várias vezes os pormenores de certas políticas do Facebook, remetendo para mais tarde informações precisas após consulta com a sua equipa. Por exemplo, quando o senador Roy Blunt questionou se o Facebook recolhe dados quando a pessoa está offline, Zuckerberg respondeu "Não tenho a certeza" e disse que a sua equipa daria informações mais tarde. O mesmo quando Roger Wicker perguntou se a rede social continua a seguir os utilizadores via navegadores de internet mesmo depois de estes desligarem o Facebook.

O que o executivo reiterou foi a total admissão de responsabilidade pessoal sobre o escândalo Cambridge Analytica e os erros crassos que o Facebook cometeu e tentará não repetir. Depois do Senado, o CEO irá apresentar-se esta quarta-feira perante o Comité para a Energia e Comércio da Casa dos Representantes para responder a um novo conjunto de perguntas.

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