Vamos passar os próximos natais com a família Ventura

Terminaram na semana passada as gravações da minissérie que acompanha a vida de uma família na semana do Natal. A ideia é voltar a estas personagens todos os anos.

É difícil imaginar um lugar mais tranquilo para viver do que o Belas Clube do Campo. Vivendas espalhadas por entre pinheiros, poucos carros, nenhum stress. E, no entanto, sentado numa cadeira da sala, com os auscultadores colocados nos ouvidos, o realizador Miguel Guerreiro franze a testa. "Estou a ouvir um zumbido, que barulho é este?" Interrompem-se as gravações. O técnico de som vai investigar e volta pouco depois com a resposta: "É um cortador de relva, lá longe." Risos na equipa. Um compasso de espera até que o silêncio se instale de novo e os atores Pedro Saavedra e Joana Seixas retomem os seus lugares.

Foi na manhã chuvosa de quinta-feira passada que a equipa de produção da minissérie A Família Ventura se instalou numa das vivendas do Belas Clube do Campo, num dos últimos dias das gravações que começaram em outubro. A régie montada no meio da sala, o set de gravações no quarto do casal no primeiro andar, cabos percorrendo os corredores. A cena era simples: o casal recebe um telefonema com uma má notícia; têm as malas feitas mas a viagem a Cabo Verde terá de ser adiada; o Natal será passado em Portugal.

A Família Ventura tem apenas quatro episódios que serão exibidos na RTP1 nos serões dos dias 22, 23, 24 e 25 de dezembro. A ideia partiu do argumentista Nuno Bernardo (que escreveu o guião com Patrícia Brásia) e já tem uns três anos: "Estou um bocado cansado de ver o Sozinho em Casa nas noites de Natal", desabafa. "Em 2017 já não se reúne a família às oito da noite para jantar e ver o telejornal, as casas já têm mais do que uma televisão e existem os telemóveis e mais coisas. Isso de juntar a família à volta da televisão já não acontece, exceto no Natal. Então, para essas noites temos esta proposta."

Neste ano, iremos acompanhar o Natal da família Ventura. E, se tudo correr bem, no próximo ano voltaremos a encontrar-nos com estas personagens. Essa é a grande novidade desta série, explica Nuno Bernardo. "Foi pensada para todos os anos, pelo Natal, irmos ver o que é que aconteceu àquela família. Ou seja: depois destes quatro episódios despedimo-nos da família Ventura. Um ano vai passar. E para o ano, quando reencontrarmos esta família, veremos o que lhes aconteceu. Podem nascer crianças, pode haver divórcios, um dos membros da família pode morrer..."

Nuno Bernardo, que foi também o responsável por outros produtos inovadores como a série O Diário de Sofia (que pedia a intervenção dos espectadores para decidir como a história se desenrolava) e está neste momento a desenvolver outra série, Amnésia, baseada no formato das Insta Stories, acredita que, apesar das dificuldades, o futuro da televisão passa por este tipo de apostas mais ousadas. "A parte complicada foi explicar aos atores que os queremos contratar mas não sabemos por quanto tempo, nem podemos garantir que a sua personagem ainda exista. E os atores também têm a sua vida profissional. Para o ano, em outubro, quando voltarmos a gravar, até já podem estar em Hollywood a fazer outra coisa qualquer. Mas aquilo que queremos, e que acho que conseguimos com todo o elenco, foi a ideia de manter a personagem viva." E será engraçado, por exemplo, ver como uma personagem "não vai envelhecer com make up, vai envelhecendo porque sim, naturalmente".

Todos concordaram em fazer os possíveis para tornar o reencontro possível mesmo se não existe qualquer compromisso por parte da RTP de que a série vai continuar. Está tudo em aberto. "Queremos que esta família vá acompanhando os portugueses ao longo dos próximos anos", diz, entusiasmado, o guionista.

Quem são, então, os Ventura? "É uma família como as outras", conta Nuno Bernardo. Os atores Maria do Céu Guerra e Rui Mendes são os patriarcas da família, a Júlia e o Francisco, que são de uma terra (fictícia) chamada Vale de Figueira. Custódia Gallego interpreta a governanta desta casa. O casal tem três filhos: António Pedro Cerdeira faz o filho mais velho, Pedro Saavedra é o do meio e a Joana de Verona é a filha mais nova. Os dois mais velhos estão casados (com Susana Arrais e Joana Seixas, respetivamente) e o mais velho já tem filhos.

"O que acontece neste Natal é que, por motivos diferentes, eles não vão passar esta quadra juntos. Ninguém vai à terra. Mas entretanto, logo no primeiro episódio, a personagem de Rui Mendes tem um problema de saúde, vai para o hospital e isso obriga toda a gente a mudar os seus planos." Portanto, o que acontece nos outros episódios "é o reencontro desta família, que já se estava a afastar. O reavivar das memórias do passado, também reavivar de zangas antigas. Ou seja, não é a nossa família mas é uma família igual à nossa, tem os mesmo problemas, as mesmas quezílias".

E também os locais por onde esta família se move nos são familiares. A produção optou por não gravar em estúdio, usando apenas cenários reais: estiveram numa casa grande, perto de Sintra, onde se passa grande parte da ação, e que será a casa da família, um hospital em Alfragide e outros locais na zona de Lisboa.

Segundo a produtora, a beActive Entertainment, A Família Ventura é a primeira série portuguesa a ser gravada e exibida em formato 2:1, um formato cinematográfico usado em séries como The Handmaid"s Tale, The Crown e House of Cards. Trata-se de um formato que procura trazer para a televisão uma linguagem mais cinematográfica.

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