"Em Portugal, andamos todos a ver quem é que arranca os olhos a quem"

Só depois de ter chegado aos melhores palcos do mundo teve coragem para se aventurar num programa de TV. Mariza, que hoje se estreia como jurada em Got Talent Portugal, da RTP1, garante que tem os pés bem assentes na terra. Os prémios, os grandes concertos, são apenas "prémios"

Faz este ano 15 desde que editou o seu primeiro álbum, Fado em Mim. Era a altura certa para participar num programa de TV? Sei que já tinha sido convidada e que recusou.

Era o momento certo porque era o programa certo. No Got Talent Portugal não tenho de ajuizar cantores, ou tenho de ajuizar poucos, porque aparecem poucos. Avaliar alguém deixa-me muito desconfortável. Avaliar cantores é pior ainda.

Quem vai às audições sabe que vai ser avaliado.

Mas não valida o facto de eu ter de dizer a um cantor que não canta bem... Nunca tive lições de canto, nunca estudei. Sou autodidata e não sinto que tenha background para dizer o que está bem e o que está mal. Sei quando uma pessoa está mais ou menos afinada, mas não tenho estudos para dizer se tem ou não tem futuro.

A experiência não lhe dá essa capacidade?

O que eu sei é válido para mim. Apesar de achar que seria engraçado trabalhar com alguém dentro da música. Passar o que sei do meu conhecimento de estrada, do que fui aprendendo com a vida.

É incapaz de ajuizar cantores, mas capaz de avaliar artes circenses ou dança?

É diferente porque vejo-as como espectadora.

Não ouve um cantor ou uma cantora apenas como espectadora?

Não. Mesmo quando vou a um espetáculo, estou a ver se a luz está bem, se o som é bom, se o palco está bem feito, se o guitarrista desafinou, se a cantora deu uma nota ao lado... Perdi a inocência de ver um concerto como toda a gente.

Quer dizer que não se diverte quando é suposto.

É isso... Mesmo em concertos de grandes artistas, como Rihana ou Beyoncé, estou atenta a tudo, a ver o que é que, para mim, pode estar correto e o que pode ter falhado.

Disse que acharia graça ensinar. É algo que pondera para o futuro?

Não sei. Como nunca tive aulas de canto, não sei como é que se explica. Uma vez tentei ter lições com a Cristina de Castro [cantora e professora de canto lírico] e ouvíamos Maria Callas e árias de ópera. Ela dizia que eu arranjei a minha técnica de colocação vocal e que não precisava de aulas. Sabe que nem aqueço [a voz] antes de entrar em palco. É para cantar? Então vamos lá. Aprendi a cantar na rua, é assim que sei fazer. Quando comecei a tentar essas coisas, começou a correr mal [risos]. Então não quero fazer! Isto para dizer que não sei se tenho capacidade para ensinar ou ajudar alguém. Tenho medo de errar, de estragar o instrumento [vocal] de alguém.

A entrada no mundo televisivo faz agora parte do seu mundo, nome do seu mais recente álbum.

Faz, e ainda bem. Quando me fizeram o convite, fiquei de pé atrás e fui a medo. Mas na vida tenho aprendido que mesmo as experiências menos positivas nos ensinam qualquer coisa e foi isso que me fez avançar. Agora, se aparecerem mais convites para TV, porque não? Já não tenho medo.

Se não tivesse crescido na Mouraria, estaria aqui como Mariza?

Nem sequer ponho a hipótese de não ter crescido na Mouraria. Nem sei o que seria... Não seria nada disto. É lá que está o fado, que os meus pais tiveram a taberna, que eu cresci.

Que Mariza seria a Marisa Reis Nunes [nome de batismo], nascida em Moçambique há 42 anos?

Não sei. Em miúda, perguntavam-me o que queria ser e eu ficava a olhar e a pensar "sei lá". Quando cheguei ao 11.º ano com média de 16, disse aos meus pais que não queria estudar mais. A minha mãe teve um ataque, disse que eu ia viver debaixo da ponte, que não ia ter um prato de comida na mesa, porque uma pessoa que não tem um "canudo" não sobrevive. O meu pai só me perguntou o que eu queria fazer e eu respondi que queria cantar, que só era feliz assim. "Vai lá cantar então..."

A sua mãe, ao final destes anos, já está mais descansada?

Não! Acha que esta profissão acaba de um momento para o outro. No fundo, ela tem razão. É tudo efémero. Quando fazemos um disco mau ou temos uma atitude menos boas, as pessoas dizem logo que somos as piores.

Em Portugal ou no estrangeiro?

Lá fora as coisas são diferentes. Em Portugal, andamos todos a ver quem é que arranca os olhos a quem. Esta é a verdade. É tudo muito pequenino e, em vez de nos ajudarmos uns aos outros, cada um faz por si. Aqui, quando se pergunta por um artista a outro, a conversa é desviada. "Estamos aqui para falar de mim." Eu já estive nos melhores teatros do mundo, mas ninguém gosta muito de dar o braço a torcer. "Ai, ela foi, mas..." E tossem! "Ela faz, mas..."

Sente-se mais reconhecida, entre colegas, lá fora?

Houve uma altura em que eu era muito competitiva e, se não fosse a primeira, ficava chateada. Hoje, estou a borrifar-me. Quero é cantar. Quero estar feliz, fazer os meus discos, os meus espetáculos, ter a minha vida. As pessoas que gostarem de mim, ótimo. As que gostam menos, paciência. Não posso agradar a gregos e a troianos. Neste momento, estou muito feliz com o que estou a fazer. As pessoas tinham a ideia que eu era muito distante, e depois de eu ter o meu filho perceberam que não era nada disso.

Há uma Mariza antes e outra depois do nascimento do Martim, em 2011?

Antes de ser mãe, eu fazia 140 concertos por ano e nunca estava em Portugal. Vivia apenas para a música. Agora, tenho uma família e vivo para ela. Seja bom ou mau, fico feliz com o que a vida me trouxer porque estou viva e estou com as pessoas que amo. Isso é o melhor do mundo.

Foi essa mudança de perspetiva de vida que a fez esperar cinco anos até lançar [no final de 2015] um novo disco de originais?

Foi isso sim. Precisei desse tempo para entender como é que ia meter dentro de um disco, dentro de um concerto, toda a intimidade que precisava de dar. Quando chegou o momento, avancei.

Consegue dar intimidade quando toca, por exemplo, num Meo Arena, como fez em dezembro?

No Meo Arena não consegui sentir, não consegui apalpar as pessoas. Estava tudo muito longe e eu preciso de estar ao pé das pessoas para que a minha música viva. Em teatros, que são feitos de forma a parecer que estão a abraçar o palco, consigo descer, sentar-me no meio do público e cantar ou conversar. Neste ano, diziam-me para fazer um concerto no Meo Arena. Pedi antes do Coliseu [dos Recreios de Lisboa].

É a busca pela intimidade que a faz não se importar de acabar a carreira onde começou: numa taberna?

Não me importava nada. Mas numa taberna à minha maneira.

E seria como cantadeira de fados, cantora ou fadista?

Cantora [risos].

O que mudou? Disse em tempos que era uma cantadeira de fados.

Porque o meu mundo musical é gigante. No meu bairro, chamar fadista a alguém é o maior elogio que se pode fazer. Ouvir "ah, fadista" quando se acaba de cantar é porque se conseguiu mexer no coração, nas entranhas, na ferida de quem ouve.

Já lhe disseram isso?

A mim já, por isso é bom [risos]. Sabe que há artistas estrangeiros que ouço e que digo que são fadistas? Como o Leonard Cohen. Para mim, é fadista. Ponham uma guitarra portuguesa, deixem-no cantar e vão ver se não parece fado.

Frank Sinatra, que ouvia quando era pequena, também era fadista?

Era! A forma como ele swingava dentro da música... Só quem sabe swingar dentro do fado é que consegue swingar dentro do jazz. E o [Alfredo] Marceneiro era jazzista. Era um blues man.

Só quem tem um mundo musical aberto entende essa união?

Acho que não. A música não tem fronteiras nem barreiras. É universal. Quando dei um concerto na China, a maestrina disse-me que os chineses não iam cantar e que tinham uma noção de ritmo muito própria. E não é que acabaram todos a dançar e a cantar o Rosa Branca? A música pertence a todos. Quando se começa a meter a barreira da língua, a dizer que isto é fado e não pode ser assim ou assado, está a limitar-se a música e ela não passa. Quando deixamos a música fluir, ela une pessoas com religiões diferentes, ideologias políticas diferentes. Estão ali, ligadas, só por uma coisa: a música.

O seu estilo musical é assim: de todos?

Eu não penso na língua. Quando canto, faço-o com o coração.

Canta para si ou para os outros?

Para mim. Se eu fizer um disco para mim, orgulhosamente posso mostrar-lhe. Se fizer a pensar nos outros, há coisas de que não vou gostar e das quais vou ter vergonha. Canto o que gosto, sinto o que quero dizer.

Falava de ter cantado nos palcos mais importantes do mundo. Como mantém os pés assentes na terra depois de aí ter chegado?

Não é difícil. Tenho um pai e uma mãe que são as pessoas mais terra a terra que conheço... O meu pai tem uma empresa de arranjo de eletrodomésticos. No outro dia estava numa cerimónia com pessoas do governo e alguém importante - não interessa quem - disse-me em frente a toda a gente: "Sabia que o seu pai foi lá a casa arranjar-me o frigorífico?" Se fosse outra pessoa, teria ficado atrapalhada. Eu só quis saber se tinha ficado bem arranjado. Posso pisar os maiores palcos do mundo, mas tenho um pai que é normalíssimo e uma mãe normalíssima. "Onde é que foste cantar filha?" "À Ópera de Sydney". "Olha que porreiro. Agora põe aí a mesa".

Nunca se deixou deslumbrar?

Não. A primeira vez que olhei para a Ópera de Sydney pensei que um dia haveria de lá cantar. Aconteceu. Um dia passei à porta do Carnegie Hall [EUA], onde estava a atuar a Cecilia Bartoli. Disse que haveria de cantar aí. E aconteceu.

O seu pai, que quando a Mariza nasceu prematura disse que, se sobrevivesse seria cantora, não vibra com a filha nesses palcos?

O grande sonho dele era eu cantar no Olympia de Paris. Quando lá cheguei, fiz-lhe uma surpresa. Mandei buscá-lo, e à minha mãe, e sentei-os para me verem. São pequenas vitórias que vão acontecendo, mas não são elas que fazem quem eu sou. São acréscimos, pequenos prémios, tal como o são ser comendadora [da Ordem do Infante D. Henrique] ou chevalier pelo governo francês. Eu não sou o Carnegie Hall ou a Ópera de Sydney. O que sou é o melhor do meu pai e da minha mãe.

Quando pensa naquela menina que dizia, desde os 5 anos, que queria ser cantora e olhando para a Mariza de hoje, não se assusta?

Não, porque foi tudo muito repentino e eu vou tentando entender porque é que as pessoas querem ouvir-me. Quando me disseram que eu ia ao David Letterman [em 2007, na CBS], não acreditei. Até ao último minuto, já dentro de estúdio, pensava "daqui a pouco entra alguém a dizer que está tudo cancelado". Estou sempre de pé atrás.

É uma forma de se proteger, de não criar expectativas e não ter desilusões?

Ora aí está! Mais vale do que ficar triste.

Disse, quando foi ao programa de Letterman, que haveria de ir aos de Oprah Winfrey e Ellen Degeneres.

E ainda hei de ir [risos]. Quem sabe.

Será para breve?

Que eu saiba ainda não. Mas... não é impossível.

Vai voltar a esperar cinco anos para lançar mais um disco?

Não! Para já ainda estou a aproveitar este. Quando ouço penso que faria coisas de forma diferente. Ainda o sinto muito.

Gosta de se ouvir?

Não.

Porque não quer ficar a pensar que faria as coisas de outra forma?

[risos] Exato!

Quem é a sua maior crítica?

Eu.

Sem ser a Mariza.

O meu pai. E eu ouço-o.

O seu filho Martim parece querer seguir uma carreira musical...

É verdade... Diz que quer ser baterista. Estou ali com um problema... Já viu o que é ter um filho a fazer barulho em casa? No outro dia, ao pé do café onde ele vai todos os dias comprar um chocolate, estavam a tocar. Ele já nem o quis. Preferiu ir para lá tocar bongós e acho que deu um show. O Martim diz a toda a gente "sou baterista". Tenho um vídeo dele nos bastidores do Got Talent, em que está toda a gente a bater palmas, e ele de braços no ar a fazer de baterista.

E a mãe do Martim não se incomoda que ele pense, ainda que seja muito novo, enveredar por uma carreira artística?

Não. Vou sempre apoiá-lo. E tentarei dar-lhe o melhor começo possível, mas depois ele que se desenrasque. O que sei é que, em qualquer profissão, temos de ser bons.

Os melhores?

De ser bom. O melhor é subjetivo. Medíocre não chega.

Foi esse o patamar que sempre quis alcançar?

Por isso é que sou extremamente competitiva comigo própria e fico furiosa quando não consigo.

E competitiva com os outros?

Também. Não no sentido de olhar e pensar "quero fazer melhor do que tu", mas sim "aquela pessoa consegue aquilo, deixa ver se eu consigo".

Tem limites?

Os limites humanos. De resto, irei sempre ao meu limite. É como a felicidade: é tudo feito por metas. A vida é feita de patamares e quando alcançamos um queremos sempre outro mais acima. Se assim não fosse, a vida não teria piada nenhuma.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG