"Eles diziam: Deolinda, pega o prémio! E eu: Não consigo!"

A vencedora da terceira edição do concurso The Voice Portugal tem 20 anos. Deolinda Kinzimba voltou a cantar Whitney Houston

"Na minha casa gostávamos muito de pôr a música alta." Dançavam e cantavam nas festas. Nessa casa, em Luanda, havia um irmão que era "de estilo mais Whitney [Houston], Michael Jackson", uma irmã "de estilo mais romântico, que tinha uma estante cheia de discos dos brasileiros Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo," uma outra "mais na onda de Madonna" e, outra, "mais latina e africana". Havia ainda o pai, que em tempos teria cantado - "segundo a minha mãe cantava bem, nunca cheguei a ouvir, agora não canta." Mas não havia nada que fizesse antever a voz de Deolinda Kinzimba. Ninguém a ensinou a cantar, ninguém lhe ensinou o que era uma nota musical. E todavia, no domingo à noite venceu a terceira edição do concurso televisivo The Voice Portugal, que lhe valeu um contrato com a Universal para editar o primeiro disco. Ao escrevermos "Deolinda" no Google português, "Kinzimba" é a primeira opção.

Quando a começamos a observar e ouvir falar, parece que há um longo passado atrás dela. Na verdade, há apenas 20 anos. Os 20 que passaram até, em outubro do ano passado, a vermos pela primeira vez na RTP1, durante a primeira audição, a chamada "prova cega" do concurso apresentado por Catarina Furtado e Vasco Palmeirim. Os jurados, Mickael Carreira, Marisa Liz, Anselmo Ralph e Aurea, que, como ditam as regras, começaram de costas, carregaram no botão vermelho e todos eles viraram a cadeira para ela, que cantava I Have Nothing, de Whitney Houston. Escolheria então Mickael como mentor. "Foi intuição."

Daquele primeiro dia no The Voice Portugal recorda "uma emoção tão forte quando as cadeias começam a virar. Dás-te conta de que realmente entraste no programa e que podes chegar muito longe." Maior ainda seria o que se seguiu. Quando a sua mãe, que não via há dois anos, apareceu, vinda de Angola. "Nem consigo explicar..."

Da Tanzânia para Portugal

É ela quem fala, que aos 16 anos trocou Angola pela Tanzânia - onde uma irmã trabalhava na embaixada angolana -, país onde cantou em bares e discotecas, e que depois trocaria por Portugal, para onde, sozinha, veio estudar Direito no Porto. "Eu precisava de avançar a minha vida de alguma forma. Quis dar a volta por cima daquilo tudo que eu estava a viver e mudar de vida. E identifico-me um bocadinho com Direito. Também por causa do meu irmão, que é licenciado em Direito. Via-o a estudar, aqueles livros grandes..." Primeiro viveu com umas primas em Guimarães, depois alugou "um apartamentozinho no Porto".

Ia e voltava para os ensaios e galas do programa em Lisboa. Na noite da final, voltou a cantar a música com que entrou no programa, a par de temas como I Will Always Love You, também de Whitney Houston, ou A Moment Like This, na versão de Leona Lewis. Foi com estas canções que acabaria por vencer Pedro Gonçalves, da equipa de Anselmo, que ficou em segundo lugar, Sérgio Sousa, de Marisa Liz, que ficou em terceiro, e Patrícia Teixeira, da Aurea.

Falamos dentro dos estúdios da RTP, no dia que seguiu a final. Saíra de lá na noite anterior "às 3.00 da madrugada". Habitua-se às fotografias, a ouvir-se falar de si mesma, a ter de pensar sobre quem é e o que faz. Tem de recordar que começou a contar "aos 8 anos" e que "aos 15, 14" começou a aperceber-se do que cantava. A atentar às letras de Mariah Carey, como Hero, que cantou numa das galas. "Eu digo que cantar Mariah é um suicídio", ri-se. Correu-lhe bem, como sempre. Conta que, no programa, aprendeu "um monte de coisas boas, alguma técnica em relação à minha postura em palco, à colocação das notas, e aprendi que não basta ter talento, é preciso muito trabalho".

"Não pensei que tinha de ganhar"

Pede calma em relação ao disco que aí vem, e para o qual Mickael Carreira já se prontificou a ajudar. "Tudo aconteceu ontem. Tenho de sentar e conversar, para perceber o que vamos fazer. Tenho algumas canções. Gosto de falar das coisas que me acontecem, pegar nos aspetos do dia das outras as pessoas, as histórias..." Da vitória propriamente dita, diz: "Nunca pensei que tinha de ganhar o programa pelo prémio, nunca pensei atrapalhar-me com essas coisas... Não. Porque o meu maior objetivo na música é levar amor para as pessoas, é levar aquilo que eu sinto quando oiço uma boa música. Vontade de chorar, vontade de sorrir, de pensar, de lembrar o passado. É o que eu quero transmitir às pessoas, o que quero que sintam quando ouvem a minha voz."

Os pais estavam lá quando a voz dela se fez ouvir, como quando foi anunciada vencedora . "O que me ficou na cabeça foi o abraço da minha mãe. Ela foi até ao palco e eu disse: Consegui, não acredito. Tentavam entregar-me o prémio e eu: Não, não quero, não consigo pegar. As minhas mãos tremiam tanto... Eles diziam: Deolinda pega o prémio! E eu: Não consigo."

Lá conseguiu. Agarrou no prémio que lhe era devido. Festejou. Hoje, a esta hora, deve estar finalmente a falar com os irmãos - que estão em Angola e na Tanzânia - pelo Skype.

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