Quando no início dos anos 2000, Chitra e Roman Stern decidiram mudar-se para Portugal, o casal vinha com uma ideia relativamente concreta daquilo que seria o seu primeiro projeto em terras lusas. Empresários oriundos de Singapura e Suíça, respetivamente, Chitra e Roman eram experientes no mercado imobiliário e quiseram colocar essa experiência em prática no Algarve.Em 2002, adquiriram o terreno onde viria a nascer o Martinhal Sagres, e lançaram a primeira pedra do empreendimento em setembro de 2008. Precisamente no mês em que a Lehman Brothers implodiu. Lidaram com as consequências do início da crise financeira, mudaram de parceiros e estrearam-se como promotores hoteleiros, também, em 2010: além das residências que tinham construído, abriram o primeiro hotel familiar, digno desse nome, em Portugal.Desde então, a marca Martinhal cresceu para outras regiões do país e deu origem a um grupo empresarial que hoje é muito mais do que os hotéis e inclui até uma escola internacional - a United Lisbon International School - que abriu em 2020 em Lisboa.Aproveitando a celebração dos 15 anos da marca Martinhal, o Dinheiro Vivo falou com Chitra Stern no apartamento de um dos mais recentes projetos do grupo, o Martinhal Oriente, onde um hotel e residências de particulares se cruzam, permitindo que estas últimas tenham acesso a todos os serviços de hospitalidade que o hotel providencia para os seus clientes. “Entre 2002 e 2008 tratámos do licenciamento, da construção das primeiras casas e foram os primeiros filhos que nasceram”, conta, em jeito de recapitulação, num português quase perfeito, ainda que com sotaque britânico. “Então construímos a família e o negócio devagar, porque tudo leva tempo. Mas nunca imaginámos que fôssemos ter uma grande crise financeira como a que atravessámos. De qualquer forma, começámos a construção de grande parte da obra em outubro de 2008”, continua, com um sorriso. “Um mês depois do colapso da Lehman Brothers. E foi muito difícil na altura, porque tivemos 18 meses de construção”, recorda.Na época, o setor da construção civil atravessou uma das mais significativas crises, no país. Dezenas de empresas fecharam portas, e centenas de trabalhadores da indústria emigraram para países como Angola, Moçambique ou Marrocos, para encontrar alternativas ao descalabro que se sentia por cá. “Na altura eu estava muito concentrada no Martinhal Sagres, mas o que estava a acontecer no resto do Algarve, por exemplo, e no resto do país foi muito grave. Só que nós, como empreendedores que somos, temos de trabalhar com otimismo, e concentrar-nos nas coisas boas, naquelas que conseguimos controlar e fazer.”Admite também que “talvez tivesse sido mais difícil” se estivessem a viver em Lisboa. Com filhos pequenos e uma família a crescer, Chitra e Roman encontraram em Sagres uma comunidade que os acolheu e para cujo crescimento tentam contribuir desde então. Não apenas através dos postos de trabalho criados para pessoas da região, mas também através de algum rejuvenescimento conseguido através da migração de profissionais de outras zonas do país para o Algarve, para responder às necessidades do Martinhal. .“E é muito engraçado, porque os portugueses têm uma ideia generalizada de que Sagres é muito ventoso e muito frio. Mas para nós, como estrangeiros…eu sou de Singapura, e britânica, o meu marido é suíço-alemão. Para nós era verão”, conta divertida. “E nós, estrangeiros e empreendedores, vemos as coisas com olhos diferentes. Com óculos diferentes. O que nós vimos foi uma paisagem fantástica, praia de areia branca, tudo limpo, tudo vazio, com tanta natureza e um povo muito simpático e acolhedor.”Aproveitaram os fundos da UE que foram ficando disponíveis, e as então recentes autoestradas que ligavam o país de norte a sul. “O Turismo de Portugal estava a trabalhar muito para construir um setor forte”, também, recorda.Em 2010, Chitra e Roman acolhiam a chegada do quarto filho e dedicavam-se à abertura de um hotel familiar - que recebe casais que queiram ir descansar, mas está particularmente preparado para receber adultos e crianças, disponibilizando serviços de baby-sitting, kids club e noites temáticas para os mais novos, bem como menus que se adequam a bebés desde o momento em que começam a introduzir as sopas na sua alimentação.Uns anos depois decidem que é hora de começar a subir no país e chegam a Cascais, através da compra do agora Onyria Hotel, na Quinta da Marinha. Estávamos em 2015 “e havia várias oportunidades de negócio em Portugal”, precisamente devido à crise que, entretanto, começava a dar alguns sinais de abrandamento. O Martinhal Cascais marcou o início do percurso dos empresários na zona da capital. Depois de Cascais, foi a vez da Rua do Alecrim, onde abriram o Martinhal Chiado, o primeiro hotel familiar de cidade do país - quartos comunicantes, serviço de s adequados aos horários do teatro, concertos ou óperas e uma localização privilegiada no centro histórico de Lisboa. E, se em 2022 decidiram alienar o Martinhal Cascais - a família Pinto Coelho, dona do grupo Onyria, estava em condições de adquirir de volta o ativo -, continuaram focados em Lisboa. Agora, também, com uma escola internacional.Dos hotéis para as escolasQuando fez parte da iniciativa governamental Portugal Inn, Chitra Stern deu-se conta de uma das razões pelas quais a Agência Europeia do Medicamento não tinha escolhido Portugal para a sua nova sede, era a mesma apontada por muitas empresas internacionais: não havia, em Lisboa cidade, uma escola internacional que oferecesse o IB Program. Algo de que a empresária já tinha sentido falta quando se mudou com os filhos. Foi assim que nasceu a United Lisbon International School, nas antigas instalações da Universidade Lusófona, com capacidade para 600 alunos e um currículo logo distinguido pela britânica Dukes Education.Hoje, a ULIS integra também um Hub de Inovação, vai acolher residências para estudantes - e tem protocolos com várias universidades nacionais para que as possam utilizar - e também um aparthotel para dar resposta à elevada procura. “Não é habitação acessível, porque isso é trabalho do governo, mas sabemos que são precisas mais casas e podemos integrar isso no nosso projeto. Faz sentido”, conta a empresária.Para Chitra, a educação está intimamente ligada com os negócios, porque é assim que olha para a sociedade: se todos tiverem acesso ao melhor, a sociedade prospera e a economia cresce. “E nós temos de fazer a economia nacional crescer”, urge. .Aproveitamos os últimos momentos da nossa conversa - que, a partir da próxima semana pode ser vista na íntegra nos sites do DN e do Dinheiro Vivo - pedindo à executiva que olhe para os desafios do futuro. Tanto do setor do Turismo como do país onde vive há 25 anos. “Temos de ter boas políticas de imigração, temos de ter inovação, transformação digital…O país tem de funcionar em todas as suas vertentes e os processos têm de ser céleres. E, claro, um ponto forte que Portugal sempre teve foi o a acolhimento dos estrangeiros. Isso não podemos perder. Temos de nos lembrar que somos humanos, sempre. Não podemos perder isso”, pede, com a assertividade cravada no olhar.Quanto ao futuro do grupo que lidera, que pedimos que perspetive a 15 anos - tantos quantos tem hoje - Chitra mantém o otimismo: “vamos crescer, e ter pelo menos mais quatro o cinco Martinhais: Porto, Alentejo, Madeira…”Este último destino, garante, ainda não está esgotado.“E a nossa escola vai ter 20 anos, o Hub de Inovação vai ser ainda mais relevante e espero que vá ter uma reputação de melhor escola internacional não apenas em Portugal, mas no mundo”, atira com uma gargalhada. “Ah, e espero que sejam 15 anos mais tranquilos. Mas eu sei que o mundo é assim. Temos de estar sempre prontos para desafios”, continua.E conclui com um desejo em jeito de desafio: “Nos próximos 15 anos, acho que podemos duplicar a economia de Portugal. Com certeza”.