Má gestão e a falta de liquidez nas empresas

A melhoria da liquidez da empresa é fundamental.
Publicado a
Atualizado a

Um dos principais desafios na gestão financeira de uma empresa, senão o mais crítico e significativo pelos impactos que têm na saúde financeira de uma empresa, é o da gestão das suas necessidades de fundo de maneio - NFM (working capital na sua expressão anglo-saxónica). Uma má gestão das NFM levará a constantes problemas de liquidez e falta de capacidade de cumprir com as obrigações de curto prazo da empresa.

As NFM estão intrinsecamente ligadas à forma como as empresas gerem os seus ativos correntes (e.g. inventários e clientes) e os seus passivos correntes (e.g. fornecedores). Esta gestão deverá ser feita de forma criteriosa, de modo a garantir que a operação de uma empresa é feita de forma inteligente e sem recurso a entradas de capitais (sejam capitais próprios dos sócios ou capitais alheios via endividamento desnecessário) que aumentem o risco operacional e financeiro da empresa.

Um dos pontos de partida para que isto aconteça é a existência uma contabilidade bem organizada e fiável, com demonstrações financeira atualizadas todos os meses e que permitam os gestores do negócio tomar as melhores medidas face à real situação da empresa. Quantas vezes acontece empresas estarem a recorrer a financiamentos externos desadequados quando têm saldos a receber, ou empresas que são confrontadas com problemas de tesouraria por desconhecimento dos valores a pagar a fornecedores.

A má gestão das NFM conduz sem qualquer dúvida à destruição de valor da empresa e dos seus sócios ou acionistas. Mas por outro lado, quando bem geridas serão a forma mais fácil e barata de a empresa se financiar. Obviamente, este é um processo que envolve toda a organização desde a sua base ao seu topo, com grande enfoque na área comercial e de vendas, mas também de todos os responsáveis pelas compras (especialmente de stocks/inventários).

O equilíbrio financeiro de uma empresa vai assim depender largamente da capacidade de esta conseguir gerir adequadamente os seus ativos e passivos.

Soluções

Identificado o problema que soluções práticas podem as empresas implementar para melhorar a gestão das suas NFM. Podemos separar estas soluções em internas e externas.

Quanto às soluções internas, devem os gestores/sócios de qualquer negócio ter sempre presentes três indicadores de atividade/rotação do seu negócio que são o ponto crítico da gestão das NFM, prazo médio de recebimentos (PMR), prazo médio de pagamentos (PMP) e duração média de inventários (DMI).

Com os três indicadores consegue-se apurar:

Sem o cálculo e o conhecimento destes indicadores é o mesmo que navegar à deriva.

Assim, qualquer empresa deve procurar negociar PMP mais longos e PMR mais curtos, sendo que os primeiros devem ser sempre superiores aos segundos para garantir que a atividade da empresa é financiada pela sua própria atividade e não por recurso a endividamento externo.

Para se procurar garantir PMR curtos, que o dinheiro entra rapidamente na empresa, é necessário garantir que existe um sistema de cobrança eficiente, que garante que as vendas se transformem em dinheiro efetivamente recebido. Nenhuma empresa sobrevive apenas a vender sem receber.

Por outro lado, deve-se garantir que existe também uma eficiente gestão e controlo dos inventários das empresas. Investir em stocks que ficam muito tempo parados sem se transformarem em vendas efetivas nunca foi uma boa solução. Ao invés deve-se procurar ter soluções mais eficientes de apenas ir comprando/pagando os stocks conforme as necessidades e a velocidade do negócio. Uma reserva mínima poderá ser eficaz para garantir eventuais movimentos abruptos e positivos nas vendas, mas não mais que isso.

Por último, uma boa gestão das NFM poderá ainda levar a situações de Tesouraria Líquida positiva que poderá ser utilizada na negociação de pagamentos antecipados com descontos consideráveis, melhorando também por esta via a rentabilidade do negócio e criar valor para os seus acionistas/sócios.

Técnicas de gestão das NFM

Externamente, embora com alguma parcimónia e desde que bem aconselhadas, as empresas também poderão recorrer a várias técnicas de gestão das NFM.

Estas técnicas recorrem a vários produtos e serviços bancários disponibilizados pelos principais bancos comerciais a atuar em Portugal e passam por operações factoring sem recurso (para receber antecipadamente de clientes) ou soluções de confirming (para garantir que cumpre com os seus fornecedores sem colocar em causa a atividade do seu negócio por falhas em fornecimentos).

Finalmente, ter aberta pelo menos uma linha bancária de curto prazo (conta corrente caucionada, descoberto bancários, etc.) poderá também ajudar a manter a normalidade da atividade de uma empresa, desde que estas linhas sejam utilizadas para os seus fins próprios e não para financiar outro tipo de atividades de investimento ou necessidades financeiras mais permanentes.

Uma gestão financeira eficiente das NFM é a maneira mais barata de uma empresa libertar fundos e em última instância ajudar uma empresa a reduzir ou eliminar dívida de longo prazo originada por más gestões anteriores e necessidades acumuladas de fundo de maneio.

Esta capacidade de otimizar as NFM deve estar no cerne do papel de qualquer gestor financeiro e deve ser sempre apoiada por toda a organização e por um bom sistema de informação contabilístico que represente com fiabilidade a situação da empresa. A gestão financeira deverá ter como um dos seus objetivos (dentro dos limites possíveis, e obviamente sem comprometer a eficiência e a eficácia da empresa no seu todo):

Assim, a melhoria da liquidez da empresa, é conseguida através da adequação do prazo de realização dos ativos com o prazo de exigibilidade das dívidas de empresa, quando o primeiro for inferior ao segundo as empresas conseguirão começar a ter liquidez e a utilizar essa liquidez para potenciar o seu crescimento em vez de andarem apenas a gerir o dia-a-dia sem perspetivas de melhoria e sem perceberem porque apesar de terem um negócio aparentemente saudável andam sempre com problemas de tesouraria.

Paulo Garrett é managing partner da Globalwe empresa multidisciplinar de serviços especializados de contabilidade, fiscalidade, outsourcing de processos financeiro e apoio à gestão de PME.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt