UE/África: Eurodeputados e analista portugueses entre o ceticismo e o otimismo possível

Dois eurodeputados portugueses e um analista político luso-moçambicano consideraram hoje que o "ceticismo" e o "otimismo possível" continuam a marcar a relação entre a União Europeia (UE) e África, mesmo depois de a quinta cimeira ter produzido poucos resultados.

No debate "UE/África: Perspetivas para o Futuro", promovido hoje de manhã pelo Instituto Marquês Valle Flôr (IMVF), Carlos Zorrinho, socialista, e João Ferreira, comunista, ambos membros da delegação do Parlamento Europeu à Assembleia Paritária ACP/UE, manifestaram dúvidas sobre o sucesso da relação entre os dois continentes, admitindo que, para o ter, o paradigma relacional tem de mudar.

Salientando que cimeira realizada na quarta e na quinta-feira em Abidjan, a quinta, trouxe "alguns resultados", Carlos Zorrinho admitiu que o encontro permitiu avançar-se no que considerou ser "a cooperação possível" entre os dois blocos, para que se possa "dar músculo, qualificação e recursos" à nova geração africana, o tema da reunião.

"Isso é muito importante porque, maior desenvolvimento em África, é bom para os africanos, é bom para o clima, é bom para a UE", disse, salientando que se vai agora preparar os acordos de associação com as diferentes regiões africanas pós-Cotonu, para que possam ser incluídos esses novos princípios.

Para o eurodeputado socialista, é "muito importante" que os países africanos se organizem, sobretudo em termos regionais, apresentando fortes programas de desenvolvimento, para que possam apostar no futuro das relações euro-africanas com base em parcerias.

"Quando se discute a juventude, essa não é uma agenda europeia, mas sim dos dois continentes. África, ela própria, deve mobilizar-se com uma agenda própria e forte na capacitação dos seus jovens. Alguns virão para a Europa, pois temos espaço para mais gente, para gente mais nova, outra desenvolverá África e isso evitará a forma atribulada como muitas vezes têm ocorrido os fluxos de refugiados e de migrantes, controlados muitas vezes por seitas e por máfias, que têm sido más para África e criado desequilíbrios fortes na EU", disse.

No mesmo sentido, João Ferreira lamentou que a questão da dívida africana -- "continua a ajudar à resistência da dominação europeia" - tenha sido retirada das discussões, defendendo que devia ser eliminada, para que as parcerias partam de um princípio de igualdade nas parcerias.

O eurodeputado comunista lamentou "o fracasso" dos Acordos de Parceria Económica (APE), sobretudo porque a UE continua a olhar para África como "um tabuleiro de interesses económicos" e a exportar modelos económicos desadequados, com a cooperação a beneficiar "sempre mais os europeus".

Mais cético, Fernando Jorge Cardoso, presente no debate como moderador e na qualidade de membro do Gabinete de Estudos Estratégicos do IMVF, viu apenas um resultado positivo saído da cimeira de Abidjan.

"A afirmação do lado europeu, pela primeira vez, que, afinal de contas, do ponto de vista político, África é importante para tentar resolver um problema político na Europa: um avanço de ideias antieuropeias na Europa, xenófobas, de extrema-direita, e que estão muito ligadas aos fluxos de migração descontrolados que têm avançado sobre a Europa", sublinhou.

Para Fernando Cardoso, também investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, os líderes europeus perceberam que têm de chegar a um acordo com líderes africanos, o que levou a que houvesse uma participação elevada de chefes de Estado e de Governo europeus.

"O grande resultado da cimeira foi o facto de os europeus terem ido discutir (17 anos passados desde o Cairo, em 2000), uma questão política comum com os africanos", salientou, lembrando que serão necessários bastantes mais anos para se chegar a este ponto.

"Vai depender da evolução política que se registar, sobretudo no Mediterrâneo e no Médio Oriente, que vai afetar bastante a Europa. A longo prazo, a Europa vai ter de enfrentar os seus demónios: a população europeia vai envelhecer e isso significa que a cada vez menos quantidade de população jovem vai ter de suportá-la", sustentou.

Fernando Cardoso salientou ainda que a cimeira, tal como era a aposta de muitos, "não marcou, ainda, qualquer ponto de viragem" no relacionamento entre os dois continentes, sobretudo porque o "espírito dos Acordos de Cotonu" -- que regulam as relações Europa/África -- ainda não foi "expurgado" das reuniões políticas.

"A ajuda ao desenvolvimento continua a fazer sentido, mas tem de ser expurgada das cimeiras políticas Europa/África. Enquanto mantivermos isto no mesmo comboio, o que vamos continuar a assistir é a uma relação desigual, em que uns dão e outros recebem e não se sai daqui", concluiu.

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