Movimento 'Pró Nadir' diz que 25 de Abril deu liberdade para defender o património

Vila Real, 25 abr 2019 (Lusa) -- O movimento cívico 'Pró Nadir' disse que a Revolução de Abril proporcionou a liberdade de defesa do património ameaçado, como a panificadora desenhada pelo arquiteto Nadir Afonso, em Vila Real, que está risco de ser demolida.

Cerca de 30 pessoas participaram na quarta-feira à noite, em Vila Real, numa tertúlia seguida de vigília contra a demolição da antiga panificadora projetada pelo arquiteto e artista transmontano, um edifício que está degradado, de propriedade privada e que vai ser vendido a uma cadeia de supermercados.

A iniciativa foi promovida pelo movimento cívico 'Pró Nadir' que se opõe à demolição do edifício construído em 1965, ano em que Nadir Afonso abandonou a arquitetura para se dedicar por inteiro à pintura.

"O 25 de Abril trouxe-nos isso, a possibilidade de sermos nós próprios a defender o nosso património e é isso que nós vamos continuar a fazer nos próximos dias", afirmou Mila Simões de Abreu, investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e que integra o movimento.

A também arqueóloga adiantou que "há um prazo retórico de cerca de um mês" até à concretização do contrato-promessa de compra e venda daquele espaço.

"Vai haver uma campanha eleitoral e vamos também participar nela ativamente, porque o Nadir Afonso tem uma dimensão internacional", garantiu.

Laura Afonso, viúva de Nadir Afonso, associou-se à vigília e esclareceu que está a lutar "pela preservação do edifício".

"Porque tem características únicas e é um belo exemplar do património industrial e Vila Real ficaria muito mais rica se preservasse esse edifício", sustentou.

Laura Afonso mostrou-se "triste" porque "o estado avançado de degradação da panificadora se deve a um ato voluntário".

"Quando uma retroescavadora entra lá, após o pedido de classificação do edifício, levanta suspeitas", referiu.

A arquiteta Ana Morgado escreveu uma tese de mestrado sobre a panificada e foi quem avançou com o pedido de classificação para imóvel de interesse público em 2016, que foi arquivado em 2018 pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

A DGPC considerou que o edifício já não reúne características para uma classificação de âmbito nacional.

"Considero que o património industrial moderno no nosso país ainda não é reconhecido, infelizmente", afirmou Ana Morgado.

A arquiteta disse que a "fachada, a cobertura e o forno" eram os "três elementos que sustentavam a classificação", notando que foram "precisamente esses três elementos que foram destruídos" durante o período de análise do pedido de classificação.

"A estrutura está toda lá, basta reconstruir a fachada, as coberturas e o edifício tem tudo para dar uma nova vida à cidade", defendeu.

Ana Morgado lembrou que Nadir Afonso trabalhou com os arquitetos Le Corbusier e Oscar Niemeyer e que a panificadora "tem referências de ambos".

O movimento lembrou ainda o pedido de classificação como imóvel de interesse municipal, que deu entrada na câmara no final do ano passado e ao qual não obteve resposta.

Contactada pela agência Lusa, fonte da cadeia de supermercados Lidl disse estar "em processo de aquisição do terreno onde se encontram as ruínas das antigas instalações da panificadora" e explicou que "planeia, com este empreendimento, renovar a loja existente em Vila Real, dando não só uma melhor experiência de compra aos seus clientes, como melhores condições de trabalho aos seus colaboradores".

"O projeto que surgirá na sequência desta aquisição está neste momento a ser desenvolvido. É intenção do Lidl incluir uma componente de valorização do artista em causa", salientou a fonte.

A panificadora de Vila Real esteve em funcionamento até à década de 90 do século passado, altura em que entrou em falência, tendo desde então estado ao abandono.

Este edifício é similar ao da panificadora de Chaves, construída em 1962. Os dois imóveis marcam a carreira de Nadir Afonso, por serem os seus últimos projetos de arquitetura.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.