Morte de Hu Yaobang há trinta anos despertou movimento pró democracia de Tiananmen

Pequim, 14 abr 2019 (Lusa) - Reformista e ideologicamente desinibido, o "secretário-geral do povo" Hu Yaobang morreu há trinta anos, detonando protestos contra a governação do Partido Comunista Chinês (PCC) que foram esmagados pelo exército mês e meio depois.

Nascido em 1915, Hu Yaobang ingressou no PCC aos 18 anos e, em 1952, tornou-se o líder da Liga da Juventude Comunista. Entre 1980 e 1987, foi secretário-geral do PCC e mão direita do líder Deng Xiaoping.

Morreu no dia 15 de abril de 1989, aos 73 anos de idade.

Era tido como um protetor dos intelectuais e defensor de uma maior liberalização, numa altura em que a liderança chinesa lançava reformas económicas. Ficou também conhecido por iniciar uma discussão pública para pôr fim ao "culto cego" ao fundador da República Popular, Mao Zedong, na sequência da Revolução Cultural (1966-1976), uma década vista hoje como catastrófica.

Mas os desvios da linha ortodoxa do partido - Hu chegou a afirmar que as teorias marxistas-leninistas defendidas por Mao não se aplicavam à China moderna e a pressionar por uma governação mais transparente - levaram à sua queda.

Na sequência de uma primeira vaga de protestos estudantis, em 1986, Hu foi criticado por ser permissivo com os manifestantes, e acabou por ser destituído pela cúpula do partido, em janeiro de 1987, por "falta de firmeza face ao liberalismo burguês".

O luto após a sua morte rapidamente se tornou num protesto político.

"A morte de Hu caiu como uma faísca na atmosfera altamente inflamável, marcada pela divisão entre a elite e insatisfação popular", segundo os autores dos Papéis de Tiananmen, uma compilação de documentos secretos sobre os acontecimentos de 1989.

Os estudantes "lançaram atividades espontâneas de luto, como uma oportunidade para expressar a sua insatisfação com a direção política do país", lê-se naqueles documentos.

"Morreu o homem errado", começou por se ler em cartazes afixados nas universidades, e depois nas ruas de Pequim, antes de os protestos ganharem força na Praça de Tiananmen.

Entre os estudantes, que começaram por exigir a "reabilitação" de Hu e o reconhecimento do seu trabalho reformista, começou-se também a gritar "Abaixo a ditadura", "Viva a democracia e a ciência".

A contestação estudantil alastrou-se a toda a sociedade chinesa e, em meados de maio, o Governo decretou a lei marcial em Pequim.

Os estudantes, no entanto, continuaram a ocupar a Praça Tiananmen, até que, na noite de 03 para 04 de junho de 1989, blindados do exército entraram a tiro pela principal avenida da capital.

A sangrenta repressão militar terá morto centenas ou milhares de pessoas.

O número exato é segredo de Estado.

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