Moradores contestam "monstro arquitetónico" para antigo Hospital da Marinha em Lisboa

O antigo Hospital da Marinha, em Lisboa, vendido há dois anos por quase 18 milhões de euros, vai ser reabilitado em breve e destinado a usos mistos, projeto que os moradores contestam pela construção de "um monstro arquitetónico".

"Trata-se de um projeto de reabilitação do antigo Hospital da Marinha, destinando-o a usos mistos, com componente habitacional, turística e terciário", avançou à Lusa a empresa responsável, Stone Capital, indicando que as obras iniciar-se-ão logo que a licença de construção seja emitida e o alvará posto a pagamento, o que se prevê para breve, "provavelmente em 2019".

Idealizado pelo ateliê de arquitetura Samuel Torres de Carvalho, o projeto determina que "as obras terão um prazo estimado de 36 meses", informou fonte da Stone Capital.

Questionada sobre a divisão de uso do imóvel, a empresa disse que "ainda estão por definir as tipologias definitivas dos apartamentos".

Neste âmbito, os moradores da zona envolvente, que se localiza no Campo de Santa Clara, onde se realiza a Feira da Ladra, contestaram a ideia de construção de "um monstro arquitetónico", através de uma petição pública que reclama: "Não à construção de prédios novos que vão descaracterizar o bairro de Alfama/São Vicente!", e que conta já com mais de 560 assinaturas.

"O projeto para o antigo Hospital da Marinha tem duas vertentes: uma de reabilitação de edifícios existentes (o antigo hospital e uma antiga escola que fica ao lado), que não contestamos, e a segunda vertente é a construção de raiz, no antigo lote do estacionamento do extinto hospital, de novas enormes edificações, que são o motivo da nossa contestação", afirmou à Lusa a porta-voz dos moradores, Catherine Morisseau.

De acordo com os moradores, o projeto viola as obrigações do Plano Diretor Municipal (PDM) de Lisboa, já que este "indica a importância do edifício enquanto integrante do tecido urbano que compõe os alçados da rua do Paraíso, um arruamento cuja integridade e imagem se pretende preservar".

Segundo Catherine Morisseau, ao contrário do que é exposto na memória descritiva do projeto, a vista desde o Panteão Nacional seria "largamente afetada", assim como a vista desde a zona ribeirinha e, "dado o número de habitações que este projeto prevê, o aumento de tráfego que seria gerado tornaria ainda mais caótica a circulação numa zona que, já de si, é difícil".

Em 30 de outubro, os moradores manifestaram-se sobre o projeto na Assembleia Municipal de Lisboa, através de uma petição presencial com cerca de 200 assinaturas, exigindo que o município "reavalie o projeto" e "não licencie as novas edificações".

"As únicas operações urbanísticas que devem ser consentidas têm de ser operações de reabilitação do que existe e não se deve permitir novas edificações", defendeu Catherine Morisseau, apelando a que a Câmara Municipal de Lisboa cumpra o seu dever de defesa da identidade e autenticidade desta zona emblemática da cidade que, "atendendo à sua história e beleza, tem de ser preservada por forma a impedir que apareçam construções novas que a descaracterizariam e desfigurariam".

Sobre a contestação, a empresa Stone Capital disse que não tem conhecimento do que é dito pelos moradores, declarando que "as servidões de vistas regulamentares invocáveis estão respeitadas".

Situado no Campo de Santa Clara, junto ao Panteão Nacional, uma zona histórica da capital, o Hospital Real da Marinha foi criado em 1797, pelo alvará do príncipe regente D. João, inaugurado em novembro de 1806 e encerrado em 2013.

Com sete pisos e com uma área bruta privativa de 14.980 metros quadrados, o edifício das antigas instalações do Hospital da Marinha foi adquirido em abril de 2016, numa hasta pública promovida pela Direção Geral do Tesouro e Finanças.

O imóvel tinha um valor base de licitação de cerca de 12 milhões (12.032.000 euros), teve mais de 30 disputas e foi arrematado por quase 18 milhões de euros (17.936.500 euros), por um investidor privado de origem francesa.

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