Juncker e Tajani preocupados com ascensão populista e "fissuras de solidariedade" na Europa

Os presidentes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu expressaram hoje em Florença a sua preocupação com a ascensão do populismo na Europa, fenómeno alimentado pela crise migratória, focando igualmente as "fissuras de solidariedade" observadas no bloco comunitário.

Numa intervenção no segundo dia da conferência "O Estado da União", evento organizado naquela cidade italiana pelo Instituto Universitário Europeu (IUE), Jean-Claude Juncker, que se tornou presidente da Comissão Europeia em novembro de 2014, manifestou a sua inquietação perante "os ressentimentos" gerados pela crise migratória, "que pensávamos estar desatualizados".

Segundo Juncker, tal cenário "deu aos populistas e aos nacionalistas o material que precisavam para derrotar a solidariedade" na Europa, com o líder do executivo comunitário a declarar-se "chocado com as ruturas e fissuras de solidariedade que surgiram durante a crise migratória" entre os Estados-membros.

Ainda sobre a crise migratória, que "ainda não ficou para trás", o político luxemburguês fez questão de agradecer o compromisso da Itália e da Grécia perante uma resposta da Europa que qualificou como "demasiado tardia".

"A solidariedade da Itália e da Grécia salvou uma resposta demasiado tardia da Europa", sublinhou Juncker, que também falou sobre a divisão entre países do norte e países do sul, os preconceitos orçamentais adjacentes e o consequente encorajamento de sentimentos nacionalistas.

"Na época da crise económica, que começou no norte da Europa, que se sente mais virtuoso do que o sul, redescobri uma expressão que odeio, 'os países do Club Med'", referiu Jean-Claude Juncker, numa referência à classificação atribuída aos países do sul da Europa, muitas vezes considerados como demasiado permissivos em questões orçamentais.

Também presente neste fórum anual, o presidente do Parlamento Europeu, o italiano Antonio Tajani, corroborou as palavras de Juncker, com os dois líderes a concordarem que o desdém do norte em relação ao sul pode ter encorajado o nacionalismo.

"Ser um bom italiano, significa também ser um bom cidadão europeu. Isto tem de ser repetido em voz alta, especialmente agora", disse Tajani.

"Sair da moeda única consistirá apenas em dar um tiro no próprio pé", prosseguiu o político italiano, numa altura em que as negociações entre forças políticas populistas e nacionalistas estão a decorrer em Roma para constituir um possível primeiro governo antissistema de Itália, a terceira economia da zona Euro.

Questionado pela imprensa, Antonio Tajani recusou tecer mais comentários sobre o executivo antissistema em processo de constituição entre a Liga (extrema-direita) e os populistas do Movimento Cinco Estrelas (M5S), afirmando apenas esperar que a futura equipa governativa preserve a posição da Itália na União Europeia (UE).

A Liga e o M5S, as forças políticas mais votadas nas eleições gerais italianas do passado dia 04 de março, poderão anunciar nos próximos dias uma equipa e um programa comum para um futuro governo antissistema, algo inédito num país fundador da UE.

O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, foi outro dos participantes desta conferência em Florença, este ano consagrada à "Solidariedade na Europa".

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