"Zama" de António Di Benedetto tornado filme por Lucrecia Martel chega a Portugal

Lisboa, 16 abr 2019 (Lusa) - O romance "Zama", publicado originalmente em 1956 e considerado a obra-prima do escritor argentino Antonio Di Benedetto, que ganhou fôlego internacional após a adaptação cinematográfica em 2017 por Lucrecia Martel, chegou este mês às livrarias portuguesas.

Considerado um dos grandes romances em língua espanhola do século XX, "Zama" foi originalmente publicado em 1956, mas só agora, mais de 60 anos depois, chega a Portugal, editado pela Cavalo de Ferro.

Reconhecido entre os seus pares - como Jorge Luís Borges, que disse de António Di Benedetto ter "escrito páginas essenciais" que o "comoveram e continuam a comover", ou o chileno Roberto Bolaño, que afirmou que "Zama" foi "escrito com o pulso firme de um neurocirurgião" -, este jornalista, guionista e escritor nascido em 1922 caiu no esquecimento após a sua morte, em 1986.

No entanto, a sua tradução para língua inglesa em 2016, que valeu à tradutora Esther Allen o 'National Translation Award' e a sua adaptação para filme, com o mesmo nome, pela realizadora argentina Lucrecia Martel, em 2017, impulsionaram de novo o nome daquele que o Nobel da Literatura Coetzee considerou ser "um grande escritor" que todos deveriam conhecer.

O filme "Zama" mereceu a nomeação para vários prémios cinematográficos, entre os quais o Óscar de melhor filme estrangeiro, tendo valido ao diretor de fotografia português Rui Poças o prémio Platino de melhor direção de fotografia.

A consequente multiplicação de críticas em jornais e imprensa especializada trouxeram de novo à tona literária o nome Di Benedetto e do seu romance maior.

A revista The New Yorker, por exemplo, destacou que Di Benedetto, sendo um "leitor ardente de Dostoievski, sentiu-se naturalmente compelido a escrever sobre os estados extremos -- obsessão, delírio, agressão selvagem -, conseguindo, contudo, fazê-lo sem o excesso retórico do século XIX", e acrescenta que "é difícil conseguir pensar num romance superior no que respeita à vida sangrenta na fronteira".

Trata-se de um romance de exílio, que reconstrói o passado, entrecruzando "qualidade filosófica" com uma "prosa deslumbrante", colocando-se na esteira de autores como Dino Buzzati ou Albert Camus, refere a editora.

Nesta senda, o escritor e ensaísta argentino Juan José Saer comparou-o a obras da prosa existencialista como "A Náusea", de Jean-Paul Sartre, e "O estrangeiro", de Albert Camus, mas foi ainda mais longe, considerando que, "pelas circunstâncias em que foi escrito e pela situação peculiar da pessoa que o escreve, 'Zama' é, em muitos sentidos, superior a esses livros".

Zama é o nome do protagonista da história -- Don Diego de Zama -, um obscuro funcionário da coroa espanhola relegado para cumprir serviço na pequena cidade de Assunção, um canto remoto do império, na fronteira com a selva e nos confins da civilização, que sonha com um cargo de prestígio na capital da colónia, que resgate a sua vida.

Longe da família, afastado dos centros de poder, aguardando por notícias que tardam em chegar, Zama cai vítima de uma espera interminável, em que o próprio significado da sua existência se vai diluindo entre o sonho e a realidade, em imagens cada vez mais visionárias e delirantes que o levam ao limiar da loucura.

Antonio Di Benedetto começou a escrever e a publicar contos em adolescente, retirando muito da sua inspiração das obras de Dostoievski e Pirandello.

Em 1956, publicou "Zama", livro que lhe valeu na altura rasgados elogios por parte da crítica e dos seus pares, comparando-o aos melhores trabalhos de nomes como Proust, Cortázar ou Camus.

Em 1976, durante o regime ditatorial do general Videla, na Argentina, Di Benedetto foi encarcerado e torturado, permanecendo preso durante um ano.

Após a sua libertação, partiu para Espanha, onde se exila, regressando à Argentina apenas em 1984, dois anos antes da sua morte.

"Zama" é a primeira obra do escritor publicada em Portugal.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.