Separatismo anglófono nos Camarões põe em causa 35 anos de regime de Biya

O regime camaronês, liderado há 35 anos por Paul Biya, está novamente a braços com uma crise separatista, com a intensificação da campanha anglófona, baseada inicialmente em protestos pacíficos, violentamente reprimida pelas forças de segurança locais.

A marginalização económica e social está na base de mais uma luta dos independentistas que, há praticamente um ano, deram início a uma série de protestos nas principais cidades anglófonas dos Camarões e que, face à repressão das forças de segurança, subiu de nível para degenerar em atos de violência.

Nas últimas semanas, ativistas anglófonos, fortemente armados, desencadearam uma série de ataques contra alvos militares e policiais, cuja resposta das autoridades locais está a levar a uma escalada da violência que já causou a morte a dezenas de civis.

O mais recente caso aconteceu na segunda-feira, quando militantes da causa independentista abateram quatro polícias em Kembomg, na região de Manyu, no sudoeste do país situado em pleno Golfo do Biafra, com fronteiras com a Nigéria, Chade, República Centro-Africana, Guiné Equatorial, Gabão e República do Congo.

O porta-voz do Governo camaronês, Issa Tchiroma Bakary, afirmou que, apesar do ataque de segunda-feira, os atos de violência dos separatistas são, atualmente, esporádicos, realizados em atos comummente utilizados na guerrilha urbana, face às medidas de segurança tomadas pelas autoridades de Yaoundé.

Manyu situa-se na densa floresta equatorial ao longo da fronteira com a Nigéria e tornou-se o centro da insurgência, a partir do qual se prepararam os ataques dos separatistas aos postos militares e policiais.

A violência, apesar de não atingir as proporções de outros países africanos com conflitos armados, está igualmente a provocar uma crise de refugiados.

Desde 01 de outubro deste ano, pelo menos 7.500 camaroneses residentes na região atravessaram a fronteira com a Nigéria e procuraram refúgio em pequenas localidades da região para escapar tanto aos ataques independentistas como às ações de repressão dos militares e da polícia.

A data de 01 de outubro é a de referência, uma vez que foi nesse dia que os secessionistas declararam unilateralmente a independência da Ambazónia, tendo fontes das Nações Unidas indicado que os independentistas contam nas suas fileiras com mais de 40 mil apoiantes.

A divisão linguística nos Camarões surgiu na sequência do final da Segunda Guerra Mundial, quando a até então colónia alemã foi assumida por dois dos países aliados vitoriosos do conflito -- França e Inglaterra.

Em 1960, as regiões de língua inglesa, maioritariamente no sul, juntaram-se à República dos Camarões, do centro e norte, francófona, que domina desde então a política do país.

A tensão entre as duas partes não é de hoje, pois há décadas que, a espaços, têm sido várias as tentativas de secessão no país de Paul Biya, 84 anos, há 35 no poder, e que já declarou publicamente a intenção de concorrer a um novo mandato nas eleições presidenciais de 2018, apoiado pelo partido que lidera, Movimento Democrático Popular dos Camarões (MDPC).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Investimento estrangeiro também é dívida

Em Abril de 2015, por ocasião do 10.º aniversário da Fundação EDP, o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmava que Portugal "precisa de investimento externo como de pão para a boca". Não foi a primeira nem a última vez que a frase seria usada, mas naquele contexto tinha uma função evidente: justificar as privatizações realizadas nos anos precedentes, que se traduziram na perda de controlo nacional sobre grandes empresas de sectores estratégicos. A EDP é o caso mais óbvio, mas não é o único. A pergunta que ainda hoje devemos fazer é: o que ganha o país com isso?

Premium

Jan Zielonka

A política na era do caos

As cimeiras do G20 foram criadas para compensar os fracassos das Nações Unidas. Depois da cimeira da semana passada na Argentina, sabemos que o G20 dificilmente produzirá milagres. De facto, as pessoas sentadas à mesa de Buenos Aires são em grande parte responsáveis pelo colapso da ordem internacional. Roger Boyes, do Times de Londres, comparou a cimeira aos filmes de Francis Ford Coppola sobre o clã Corleone: "De um lado da mesa em Buenos Aires, um líder que diz que não cometeu assassínio, do outro, um líder que diz que sim. Há um presidente que acabou de ordenar o ataque a navios de um vizinho, o que equivale a um ato de guerra. Espalhados pela sala, uma dúzia de outros estadistas em conflito sobre fronteiras, dinheiro e influência. E a olhar um para o outro, os dois arquirrivais pretendentes ao lugar de capo dei capi, os presidentes dos Estados Unidos e da China. Apesar das aparências, a maioria dos participantes da cimeira do G20 do fim de semana não enterrou Don Corleone, mas enterrou a ordem liberal."

Premium

nuno camarneiro

Amor em tempo de cólera

Foi no domingo à tarde na Rua Heliodoro Salgado, que vai do Forno de Tijolo à Penha de França. Um BMW cinzento descia o empedrado a uma velocidade que contrariava a calidez da tarde e os princípios da condução defensiva. De repente, o focinhito de um Smart vermelho atravessa-se no caminho. Travagem brusca, os veículos quedam-se a poucos centímetros. Uma buzinadela e outra de resposta, o rapaz do BMW grita e agita a mão direita à frente dos olhos com os dedos bem abertos, "és ceguinha? És ceguinha?" A senhora do Smart bate repetidamente com o indicador na testa, "tem juízo, pá, tem juízo". Mais palavras, alguma mímica e, de repente, os dois calam-se, sorriem e começam a rir com vontade. Levantam as mãos em sinal de paz, desejam bom Natal e vão às suas vidas.

Premium

Joel Neto

O jogo dos homens devastados

E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia - cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Premium

Opinião

NAVEGAR É PRECISO. Quinhentinhos

Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.