REPORTAGEM: Prótese biónica reabilita cadela Sol com nova "super pata"

Francisca Matos (texto) e Pedro Martins (imagem), da agência Lusa

A perda de um membro num animal é geralmente algo irreversível, ou assim pensam os donos, mas Sol e Silvye são prova viva de que técnicas aplicadas em humanos também podem melhorar a qualidade de vida dos animais.

Sol e Silvye são cadelas bastante diferentes, em comum apenas a cor, preta. A primeira vive com os donos em Córdoba, Espanha, enquanto a segunda passa os dias no Algarve.

Em comum têm o facto de terem perdido parte de um membro, mas não a qualidade de vida. Estes dois animais, um de pequeno e outro de grande porte, caminham agora com quatro apoios, graças a uma prótese biónica feita à medida de cada um, que em muito se assemelha às usadas pelos atletas paralímpicos de atletismo.

Como os humanos, estas duas cadelas também conseguem agora andar, correr, e até saltar com mais facilidade.

Para tal, tiveram de seguir passo a passo um processo que durou cerca de três meses.

Como a 'labrador retriever' Silvie já caminha com a sua prótese há alguns anos, depois de ter perdido parte do membro posterior devido a uma armadilha, a agência Lusa acompanhou o caso da 'pinscher' Sol, tratada no Hospital Veterinário de São Bento, em Lisboa.

Poucos minutos depois de ter visto ao vivo a Sol apoiar-se com a nova pata pela primeira vez, a dona, Jessica Toril, contou à Lusa que em Espanha a família não conseguia encontrar uma solução, até que um veterinário a colocou em contacto com Henrique Armés.

"O meu marido, a nossa filha, e eu queríamos que a Sol recuperasse o seu apoio e tivesse a sua pata, porque assim o merecia", disse.

O veterinário Henrique Armés conduziu a intervenção inovadora - realizada em poucos países a nível mundial - que devolveu a Sol a locomoção da pata posterior direita, que a cadela perdeu na sequência de complicações com uma ligadura.

No final de março, a cadela com três quilogramas de peso foi submetida a uma intervenção cirúrgica, na qual foi colocada uma "endoprótese no interior da cavidade modular da tíbia" do membro amputado, explicou o especialista à Lusa.

"Estamos a falar de um animal muito pequenininho, com uma cavidade modular com cerca de 1,8mm, o que dificulta muitíssimo" a intervenção, uma vez que, dado o tamanho, "a margem de manobra relativamente à aplicação da prótese dentro da cavidade modular é muitíssimo pequenina", revelou.

A esta "endoprótese conecta-se uma exoprótese que tem de ser, ao fim ao cabo, aquela que mimetiza o que falta do membro", observou o diretor clínico do Hospital Veterinário de São Bento.

Quanto à prótese, que se aplica à tíbia ou ao rádio, "tem de ser feita à medida, e, portanto, é fabricada especificamente para o animal em questão, com as suas medidas".

"O material da endoprótese obriga-se a ser titânio, facilmente osteo integrável, muito amigo do osso", enquanto "a prótese exterior é feita em carbono, e que permite adaptar-se à performance do membro amputado", indicou Henrique Armés.

O veterinário vincou também que "mais do que a forma exterior, é preciso que ela seja funcional, e a funcionalidade aqui é o que se exige", uma vez que irá acompanhar o animal para o resto da vida e "pretende reabilitá-lo definitivamente".

Para poder ser submetido a este processo, o animal tem de "estar em razoável saúde", sendo depois necessário um plano de recuperação pós-cirúrgico, que inclui fisioterapia.

No início de maio, e após uma recuperação sem sobressaltos, a pequena Sol voltou a ver os donos, que se emocionaram ao ver a cadela caminhar de novo com quatro patas.

A partir de Córdoba, a mais de 500 quilómetros de distância de Lisboa, iam recebendo, ao longo do processo, notícias de Sol e da sua nova "super pata".

"Não parei de chorar quando o Henrique nos mandou o vídeo em que a vemos a apoiar a pata. Toda a família chorava, foi emocionante porque sabemos que para ela também era bom, pensámos sempre primeiro nela", revelou Jessica Toril à agência Lusa.

Conta a dona que antes de ter a prótese, a Sol caía e não conseguia subir ou descer as escadas de casa.

"O Henrique deu-nos uma esperança, disse-nos que achava que era possível, que tivéssemos confiança, e aqui está o milagre", referiu Jessica Toril.

Segundo o veterinário Henrique Armés, daqui para a frente os donos da Sol terão de ter alguns cuidados, entre os quais "remover e aplicar a prótese diariamente, no sentido de higienizar e fazer a assepsia [desinfeção] do local".

Sol voltou a Córdoba ainda naquele dia, onde tinha toda a família à espera para lhe dar as boas-vindas e enchê-la de mimos.

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