Projeto arqueológico "Cambedo 1946" estuda resistência na raia galego-portuguesa

Uma equipa de arqueólogos está a desenvolver o projeto "Cambedo 1946" nesta aldeia do concelho de Chaves, que pretende estudar a resistência às ditaduras ibéricas e a solidariedade na fronteira entre Trás-os-Montes e a Galiza.
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O projeto "Cambedo 1946" é dirigido por Rui Gomes Coelho, da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos da América (EUA), e Xurxo Ayán Vila, arqueólogo galego que dirige o projeto de arqueologia comunitária do Castro de San Lorenzo em Monforte de Lemos, Lugo.

Como explicaram em comunicado divulgado hoje, em dezembro de 1946, o exército e a Guarda Nacional Republicana portuguesa atacaram a aldeia de Cambedo da Raia, a cerca de 18 quilómetros da cidade de Chaves, com "o intuito de aniquilar um grupo de guerrilheiros antifranquistas que ali se havia refugiado na sequência da guerra civil espanhola (1936-1939)".

Do lado espanhol da fronteira estava a Guarda Civil, com quem o cerco tinha sido concertado. Desse ataque resultaram vários mortos e feridos, e a destruição da casa da dona Albertina.

O projeto arqueológico "encara" a casa da dona Albertina como "uma cápsula do tempo, uma autêntica janela para o modo de vida dos habitantes de Cambedo em 1946".

Os arqueólogos explicaram que pretendem "usar o mundo material da aldeia como pretexto para discutir o dever da hospitalidade na sociedade contemporânea e na atual crise humanitária global".

E questionam "porque é que uma comunidade modesta e isolada decide arriscar tanto para cumprir uma ética de solidariedade e hospitalidade para com estrangeiros?"

No caso de Cambedo, referiram, "a solidariedade e hospitalidade tradicional das comunidades rurais da raia galego - portuguesa foi sepultada pelos sedimentos da repressão policial e do controlo fronteiriço".

Acrescentaram que "muitos dos habitantes da aldeia foram enviados para a prisão, os ciclos agrícolas foram interrompidos e o estigma social perdurou até muito depois do fim da ditadura".

Foi Paula Godinho, antropóloga da Universidade Nova de Lisboa, quem teve a iniciativa de começar a mostrar os acontecimentos de Cambedo no espaço público a partir da década de 1980.

Rui Gomes Coelho e Xurxo Ayán Vila já participaram em projetos de arqueologia contemporânea em Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Brasil, Chile, Etiópia e Guiné Equatorial.

A equipa conta ainda com a arqueóloga brasileira Márcia Hattoori, que tem trabalhado sobre a ditadura militar no Brasil, o arqueólogo galego Carlos Otero, e o luso-espanhol Rodrigo Paulos.

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