Polícia moçambicana diz que vai "reprimir com violência" perturbações após tumultos no país

A Polícia moçambicana disse hoje que vai "reprimir com violência" perturbações à ordem pública, após três tumultos em diferentes distritos de Moçambique registados nos últimos 20 dias.

"São atos de selvajaria" em que a população ataca as autoridades "com armas de fogo, armas brancas (catanas) e pedras" por motivos absurdos e superstições, disse Inácio Dina, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM).

"Vamos reprimir de forma enérgica, com violência, estes atos" e "perseguir os autores da desinformação", acrescentou Inácio Dina, que falava durante uma conferência de imprensa em Maputo.

Os três tumultos incluem um registado a 02 de outubro em Mandimba, província de Niassa, em que quatro civis morreram depois de a PRM abrir fogo, mas sem intenção de abater manifestantes, viria a anunciar mais tarde.

Questionado pela Lusa sobre se houve mais mortes no conjunto dos incidentes hoje referenciados, o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) disse que não podia precisar.

"Há contabilidades a serem feitas, mas o grande aspeto neste momento não é fazer levantamento do número de pessoas que morreram: é olhar para o cenário e repreender, porque não pode proceder e não pode continuar", referiu.

Segundo Inácio Dina, a PRM "está a usar os meios necessários" face ao elevado grau de violência e premeditação dos atos da população.

"Contra estes bandidos, energúmenos, vândalos, desinformadores e manifestantes ilegais haverá tolerância zero", referiu.

De acordo com Inácio Dina, o primeiro tumulto deu-se no distrito de Memba, na província de Nampula, norte de Moçambique, onde a população marchou em direção a órgãos de justiça para protestar contra a libertação de pessoas que considerou responsáveis pela propagação de cólera.

"No caso de Memba, a PRM foi obrigada a efetuar disparos de gás lacrimogéneo para repor a ordem", explicou o porta-voz, associando o caso a "superstições sem fundamento".

O segundo caso, prosseguiu, deu-se em Mandimba, na província de Niassa, ainda no norte, no dia 02, onde populares também marcharam até às instalações do comando distrital da PRM para exigir o esclarecimento de um crime.

Na altura o caso ganhou mediatismo porque os agentes que abriram fogo para dispersar o tumulto em que se viram envolvidos, acabaram por alvejar mortalmente quatro pessoas.

Dos incidentes resultou a vandalização do comando distrital e da casa do comandante distrital e de outros equipamentos.

No distrito de Gilé, na Zambézia, centro de Moçambique, populares incendiaram a residência do administrador e vandalizaram várias infraestruturas públicas na madrugada de hoje.

O administrador foi transferido para um distrito vizinho por questões de segurança.

A revolta foi motivada por rumores de que as autoridades estariam a dar proteção a indivíduos "chupa sangue", ou seja, que estão equipados com instrumentos para retirar o sangue aos residentes - um mito recorrente em vários locais do país.

"Estas situações de desordem, desrespeito, manifestações ilegais e afronta às instituições de soberania é um processo que desencorajamos e, desde já, a PRM não vai tolerar", concluiu Inácio Dina.

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