Polícia criminal angolana envia suspeitas sobre "esquadrões da morte" para Procuradoria

O Serviço de Investigação Criminal (SIC) angolano rejeita a existência de "esquadrões da morte", elementos da polícia que percorrem Luanda com uma lista de alegados criminosos a abater, mas vai encaminhar o caso à Procuradoria-Geral da República.

Em causa está a denúncia do jornalista angolano Rafael Marques que, através do portal de investigação "Maka Angola", tem divulgado alegados casos desta prática extrajudicial e que já terá provocado mais de 90 mortos, os últimos dos quais ainda este mês.

"Os esquadrões de morte, em Angola, nunca existiram. Portanto, nós também tivemos acesso a esta informação, dizer aqui que vamos solicitar junto da Procuradoria para que essas pessoas venham aos autos e deem a informação em concreto, de forma a facilitar todos esses processos que ainda estão pendentes", afirmou na segunda-feira o diretor provincial de Luanda do SIC, Amaro Neto.

Contactado hoje pela Lusa, o jornalista Rafael Marques, que vai divulgar o relatório completo sobre estes casos, garantiu que já tinha levado o assunto ao ministro do Interior, Ângelo da Veiga Tavares, a 29 de maio último.

"Disse-me que já tinha pedido à Procuradoria-Geral da República [PGR] para investigar com base nos relatório preliminar que lhe tinha encaminhado. O SIC estará a duplicar o pedido já feito pelo ministro? Não houve tal pedido por parte do ministro? Ou a PGR ignorou a diligência do ministro", questiona Rafael Marques.

Independentemente do "nome" que o SIC possa atribuir, o jornalista garante que é "apenas uma questão de semântica": "O relatório prova que os seus operativos estão a assassinar de forma sistemática. Que venha a investigação da PGR".

Através do portal "Maka Angola", o jornalista Rafael Marques tem revelado, individualmente, vários casos suspeitos nesta investigação, com testemunhos e identificação das vítimas, que o levam a garantir a existência destes alegados "esquadrões da morte".

A investigação, feita desde abril de 2016, avança que estes alegados agentes do SIC atuam sobretudo nos municípios de Viana e Cacuaco, os mais populosos e inseguros da província de Luanda. O relatório de Rafael Marques aponta para 50 casos suspeitos de execução sumária, num total de 92 jovens vítimas, alegadamente delinquentes, abatidos pelos agentes do SIC.

O último dos casos terá ocorrido a 06 de novembro, com três jovens mortos.

"A seu tempo, nós, SIC, em companhia com a Polícia Nacional, vamos esclarecer", garante o diretor provincial de Luanda da polícia de investigação, que funciona, ao contrário das restantes forças de segurança, na dependência direta do ministro do Interior.

"Para nós, toda a informação é bem-vinda. Mas estamos preocupados com as especulações que ultimamente vêm acontecendo, com uma certa tendência de acusar os órgãos de investigação criminal", disse ainda Amaro Neto.

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